Caetano confirma excelência da Banda Cê em SP

Cantor fez show de lançamento do disco Zii e Zie no Credicard Hall

Marco Tomazzoni |

Desde que Caetano Veloso montou a Banda Cê, para lançar o álbum de mesmo nome em 2006, as coisas no horizonte no baiano de 66 anos nunca mais foram as mesmas. A sequência do, digamos, sofisticado A Foreign Sound (2004) foi um trabalho sujo, urgente e raivoso, plugado na tomada. Sem colocar o pé no freio, Caetano seguiu pela mesma estrada e, esfolando os pneus aqui e ali no acostamento, chegou a Zii e Zie que, embora muito mais desigual do que o disco anterior, rendeu momentos de puro brilhantismo na noite desta sexta-feira (12), no Credicard Hall, no primeiro compromisso da turnê de lançamento em São Paulo.

Na abertura, as cortinas foram levantadas e a banda apareceu completa. Com o violão nos braços, Caetano cantou os primeiros versos de A Voz do Morto, incluída apenas no repertório do famoso show com os Mutantes em 1967, na boate Sucata ¿ a frase Eles querem guardar as glórias nacionais... coitados! era perfeita para, na época, criticar aqueles que barravam a entrada de guitarras na música brasileira e defendiam as ditas raízes do país.

Agora, parece ter a missão de afirmar de cara que Caetano continua com a intenção de revisitar sua discografia, como na turnê de , e que permanece tão jovial quanto ele tem tentado provar nos últimos anos. Que melhor forma de um sexagenário provar isso do que um encerramento quase atonal, uma balbúrdia sonora recheada de distorção das mais agradáveis?

Mas a tônica do espetáculo é Zii e Zie , e isso acontece para o bem e, infelizmente, para o mal. No cenário, apenas uma asa-delta e um grande painel ao fundo do palco, para amparar as imagens projetadas na execução das faixas do último disco. A bela Sem Cais, escrita em parceria com Pedro Sá, manteve o espírito do público aceso, e Perdeu, logo depois, serviu para comprovar que essa nova fase de Caetano foi feita para ser coroada no palco. Ao vivo, com um som cristalino, a música de letra verborrágica cresceu muito e o mérito, mais uma vez, recai nas costas da Banda Cê.

Sá (guitarra), Marcelo Callado (bateria) e Ricardo Dias Gomes (baixo e teclado) formam um power trio afiado, raro de se ver no país, ainda mais acompanhando um medalhão da MPB. Enquanto Caetano desfia uma voz de afinação assustadoramente perfeita, o conjunto acompanha no mesmo nível, mas, quando necessário, os escudeiros apelam para a distorção, pesam a mão nos pratos, envenenam o baixo e assumem uma persona guitar hero digna de aplaudir de pé.

A banda é um diferencial e tanto, mas não faz milagres. Mesmo melhores do que em seus registros de estúdio, é impossível camuflar o engajamento arrastado de Base de Guantánamo ou o primarismo adolescente de Tarado Ni Você. Caetano também é famoso por interpretar no palco, mas é difícil não estranhar o exagero e a afetação de Por Quem?, com agudos operísticos a la Antony . E o que dizer, então, de Lobão Tem Razão? Não há quem salve versos do calibre de O homem é o Lobão do homem.

As faixas de Zii e Zie , no entanto, são alternadas com algumas de pérolas valiosas do repertório de Caetano, em uma curiosa espécie de bate-e-assopra, que, no fim das contas, fez o saldo da noite ser extremamente positivo. A belíssima Trem das Cores e Aquele Frevo Axé, só voz e violão, mataram as saudades de quem sentia falta do baiano lírico, mas a verve dele agora passa por outra praia. Maria Bethânia foi o ponto alto ¿ a declaração de amor e a dor do exílio expressas em inglês no álbum londrino (1971) soou transcendental e motivou uma enxurrada de palmas. Caetano ainda dedicou a música ao teatrólogo Augusto Boal, morto em maio: Sendo do Rio, foi em São Paulo que ele fez o melhor do seu trabalho e foi aqui que eu e Bethânia aprendemos muito mais do que ele pôde imaginar.

A fagueira Irene (1969) e Não Identificado, em um arranjo bastante similar ao gravado por Gal Costa, sublimes, foram cantadas junto pela plateia. Isso sem contar Odeio, única faixa de no repertório ¿ com luzes piscantes e guitarra no talo, motivou um jogo de palmas que contagiou o público.

Água, do Kassin+2, esquentou o caminho para o bis: com uma levada de trio elétrico, serviu para Caetano, já completamente solto, fazer careta, rebolar e dançar muito. As caras e bocas continuaram na excelente Eu Sou Neguinha?, numa tendência que se acentuou na volta de Veloso e banda para o palco. Com o público agora de pé, ele aproveitou para se exibir ainda mais, bailando de um canto a outro, jogando charme e beijos. O encerramento se deu com toda potência na maravilhosa Força Estranha ¿ a plateia cantou junto o refrão e Caetano pediu um sonoro Viva Roberto Carlos. Belo final.

O segundo e último show do lançamento de Zii e Zie em São Paulo acontece hoje à noite, no Credicard Hall. Os ingressos, ainda disponíveis, vão de R$ 90 a R$ 300. Confira o setlist da primeira apresentação:

A Voz do Morto
Sem Cais
Trem das Cores
Perdeu
Por Quem?
Lobão tem Razão
Maria Bethânia
Irene
Volver
Aquele Frevo Axé
Tarado Ni Você
Menina da Ria
Não identificado
Odeio
Falso Leblon
Base de Guantánamo
Lapa
Água
A Cor Amarela
Eu Sou Neguinha
Bis
Incompatibilidade de Gênios
Manjar de Reis
Três Travestis
Força Estranha

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