Black Eyed Peas reúne rap e pistas de dança

Banda ajuda a devolver o estilo à sua origem dançante

New York Times |

Boom Boom Pow, o novo single do Black Eyed Peas, chega como uma descarga de fuzis, uma onomatopéia musical viajando na velocidade da luz. Em ritmo acelerado de 130 batidas por minuto, a canção é uma britadeira pneumática, com referências indiretas e literais ao techno dos anos oitenta, a 808s & Heartbreak de Kanye West, ao recente house francês e às compilações Jock Jams.  

Sem sombra de dúvida, esta é a melhor canção do catálogo do grupo, que tem tendências ao brilhantismo extremo, além de ser também a faixa de maior sucesso da banda ¿ mantendo-se no topo da lista das 100 mais tocadas do Billboard por mais de dois meses.

Eu sou tão 3008, insinua Fergie, vocalista da banda. Você está tão atrasado, nos anos 2000. Já foi moda fingir ser do futuro, mas 3008 pode ser um exagero. Que tal 1982 ou 1989?

Este tipo de dance-rap tem uma herança proveniente das raízes do hip-hop - que, por sua vez, veio da disco music - e do electro-rap de Afrika Bambaataa. O hip-hop não foi surgindo aos poucos. Antes era música para dançar, que só sobrevivia nos clubes noturnos, disse will.i.am, produtor e líder da banda, em uma entrevista por telefone realizada esta semana.

Caminho de volta

Agora o hip-hop está fazendo o caminho de volta para a dance music. A canção Boom Boom Pow é uma das três faixas presentes no Top 10 de singles do Billboard que leva o hip-hop às pistas de dança ¿ as outras duas são: I Know You Want Me (Calle Ocho), do Pitbull, e Day 'n' Nite, do Kid Cudi. Esta é a primeira vez, em muitos anos, que o hip-hop cresce tão rapidamente.

A faixa Boom Boom Pow é só mais uma das diversas canções do vibrante e levemente desconcertante álbum The E.N.D. ¿ o quinto do Black Eyed Peas, que trás também a participação dos rappers apl.de.ap e Taboo ¿ que não somente remete ao início do hip-hop, mas também ao rap rápido do final dos anos oitenta e início de noventa; ao breve, porém animado momento do hip-house; e até à música de letras repetitivas de Crooklyn Clan.

Vale lembrar que os próprios will.i.am e apl.de.ap eram dançarinos antes de se tornarem artistas do hip-hop. No início dos anos noventa, com o nome de ATBAN Klann (e com formação diferente, anterior à entrada de Fergie) eles fecharam contrato com a Ruthless Records, que na época pertencia ao pioneiro do gangster-rap Eazy-E. Apesar do álbum do grupo nunca ter sido gravado, algumas faixas que acabaram vazando para o público indicavam uma afinidade com a turma do Native Tongues, de Nova York: De La Soul, A Tribe Called Quest, e Jungle Brothers.

E o estilo do Native Tongues está completamente presente em The E.N.D. Em alguns momentos, will.i.am faz o rap denso de Posdnuos, da banda De La Soul, e diversas vezes nos faz lembrar das produções de ritmo rápido dos Jungle Brothers.

Os Jungle Brothers sampleavam o Todd Terry, destacou will.i.am, fazendo referência à faixa seminal Ill House You. Este disco tem a ver com aquela época. Quando o Black Eyed Peas surgiu, em 1998, as pessoas diziam: Deus do céu, vocês são dançarinos. Para a gente sempre, música sempre teve a ver com dança.

Passos ensaiados

Segundo Will.i.am, o hip-hop dançante sofreu uma queda no início dos anos noventa, quando o hip-hop tomou dimensões importantes de negócio e teve de ser comercializado bem além das casas noturnas, onde tudo tinha começado. Mas, mesmo que o ritmo não fosse mais tradicionalmente para dançar, a dança, na verdade, nunca saiu de cena. Nos últimos anos, o hip-hop ¿ principalmente do sul dos Estados Unidos ¿ vem passando de um ritmo dançante para outro. Somente nos últimos meses, diversas canções do gênero já surgiram ¿ cada uma gerando intermináveis vídeos no YouTube de garotos ensaiando seus passos na sala de estar.

Para a faixa Boom Boom Pow, ou para qualquer outro rap de cadência rápida do momento, não existem passos a serem ensaiados. As duas coisas são completamente diferentes, disse will.i.am. Em outras palavras, para fazer um bom dance-rap, dançar não é o suficiente, ou talvez nem seja mesmo necessário.

will.i.am não é o primeiro superstar do hip-hop a ser tentado pelas pistas de dança. O single de Timbaland de 2007, intitulado The Way I Are, é praticamente um rave-rap, e Diddy, participante regular da Conferência de Inverno de Música de Miami, ameaça fazer um álbum somente com canções dançantes. Para seu próximo álbum, Last Train to Paris , ele está trabalhando com o produtor Felix da Housecat.

Entretanto, nem todo produtor superstar está preparado para acelerar a cadência. No final do mês passado, o rapper Dr. Dre, de Los Angeles, saiu de um período de hibernação para participar de um comercial da Dr Pepper. Para mim, o ritmo lento sempre produz um sucesso, disse ele ao entrar em uma festa onde um DJ com cara de pateta mandava um techno acelerado nos picapes. Com as sobrancelhas arqueadas, Dr. Dre empurrou o DJ para o lado ¿ talvez ele tivesse acabado de tocar Boom Boom Pow ¿ colocou os fones de ouvido da marca Beats by Dr. Dre sobre a cabeça e uma lata de Dr Pepper sobre a picape, que começou a desacelerar e a tocar uma nova música de Dr. Dre.

A faixa é de seu álbum Detox , que demorou anos para ser lançado. Porém, ela poderia ter sido tirada de se último álbum, 2001,lançado uma década atrás, ou mesmo de sua estréia solo, The Chronic, sete anos antes disso. Mais lento é bem melhor, continua Dr. Dre. Confie em mim ¿ sou doutor.

Que coisa mais antiga, tão anos noventa!

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