Bethânia ignora polêmica e declama poemas em São Paulo

Com ingressos esgotados, cantora apresentou o espetáculo que inspira o site "O Mundo Precisa de Poesia"

Augusto Gomes, iG São Paulo |

Daniel Marcusso
Maria Bethânia
Maria Bethânia lendo poesias. Nas últimas semanas, essa ideia virou sinônimo de discussões envolvendo a Lei Rouanet de incentivo à cultura. Tudo porque a cantora recebeu autorização do Ministério da Cultura para captar R$ 1,3 milhão para criar um site com vídeos em que ela declamaria poemas . Pois desde a última terça a artista está em São Paulo apresentando o espetáculo que deu origem a esse projeto, intitulado "Bethânia e as Palavras". E com ingressos esgotados para três performances, realizadas no Teatro da Faap.

A reportagem do iG assistiu à segunda das três leituras ( saiba aqui como foi a primeira ), que é como Bethânia define as apresentações. "Não é show, não é show. É leitura", brincou. Sobre a polêmica envolvendo o projeto do site, nem sequer uma palavra. Desde que as discussões começaram, a cantora já havia afirmado, através de sua assessoria de imprensa, que não iria se pronunciar sobre o caso. E foi o que fez, inclusive nas performances realizadas até agora deste espetáculo - antes de vir a São Paulo, ela havia se apresentado em Belo Horizonte.

Por mais que a cantora diga que não é, "Bethânia e as Palavras" é um show. E bastante coerente com a trajetória da artista, que declama poemas no palco praticamente desde o início da carreira. Este novo espetáculo inclusive repete textos que estavam no roteiro de shows mais antigos, como o clássico "Rosa dos Ventos", de 1971, e "Imitação da Vida", de 1996. Fernando Pessoa é a presença mais forte ("o poeta da minha vida", diz Bethânia a certa altura do espetáculo), mas também há espaço para Padre Antônio Vieira, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa.

No palco, ela está acompanhada de apenas dois músicos, Jaime Alem (violão) e Carlos Cesar (percussão). As músicas são poucas, mas se encaixam no roteiro à perfeição: "Francisco, Francisco" (Roberto Mendes e Capinam) abre caminho para "Águas e Mágoas do Rio São Francisco", de Carlos Drummond de Andrade; "Lamento Sertanejo" (Gilberto Gil) e "ABC do Sertão" (Luiz Gonzaga) misturam-se a textos de Patativa do Assaré; "Dança da Solidão" (Paulinho da Viola) mistura-se a poemas de Fernando Pessoa.

Os pontos altos: "Todo Sentimento", não prevista no roteiro inicial e cantada quase no final do espetáculo; os trechos de "Grande Sertão: Veredas" (Guimarães Rosa) seguidos da guarânia "Meu Primeiro Amor"; e a tradicional "Cálix Bento", cantada logo após uma emocionante leitura do "Poema do Menino de Jesus", de Alberto Caeiro, heterônimo de Pessoa. Bethânia ainda voltaria para um bis, mesmo dizendo "é uma leitura, não é show, então não tem bis". Como homenagem a São Paulo, interpretou "Ronda", de Paulo Vanzolini.

Faz sentido transformar tudo isso numa série de vídeos a serem exibidos pela internet? Faz. Bethânia é uma grande intérprete, seja cantando, seja lendo. Também fez, com sua equipe, um belo trabalho de seleção e edição dos textos. Vê-la declamar durante uma hora e meia no palco tira qualquer dúvida sobre a importância e a necessidade de um projeto como o site "O Mundo Precisa de Poesia". A dúvida é se, para viabilizá-lo, é preciso mesmo de R$ 1,3 milhão.

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