Bebel Gilberto: "naturalmente sou superinsegura"

Em meio a série de shows no Brasil, cantora fala sobre casamento, família e relação com o Brasil

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Luciano Trevisan
A cantora Bebel Gilberto
A natureza foi generosa com Bebel Gilberto neste mês de maio de 2010. Em turnê de shows pela Ásia, ela deveria voar para Nova York antes de voltar ao Brasil para um show na Virada Cultural de Indaiatuba (dia 23) e três no Sesc Pompeia de São Paulo (sexta, sábado e domingo deste fim-de-semana). Mas o vulcão islandês Eyjafjallajoekull voltou a cuspir cinzas e fez Bebel voar diretamente para o Brasil, ainda no final de abril. Graças a isso, pôde se despedir de sua avó, Maria Amélia Alvim Buarque de Holanda, que morreu no Rio de Janeiro no dia 6 de maio, por causas naturais, aos 100 anos de idade.

Com ela Maria Amélia passou grande parte de seu último dia de vida, entre conversas sobre lugares do mundo, sobre endereços e sobre o pai de Bebel, João Gilberto. Em fevereiro, a cantora havia se casado oficialmente (inclusive na igreja) pela primeira vez, aos 43 anos, com o engenheiro de som Didiê Cunha. Menos de três meses depois, participou da cerimônia de cremação da avó com a família – uma família que tem integrantes chamados Chico Buarque (tio de Bebel), Miúcha (mãe), Marieta Severo.

Após os shows de apresentação do disco All in One (2009) no Brasil, Bebel volta a Nova York, cidade onde nasceu e mora. Mas já planeja para o segundo semestre uma temporada em São Paulo, onde morou com os avós Maria Amélia e Sérgio Buarque de Hollanda nos anos 1970, para gravar ao vivo seu primeiro DVD, em comemoração dos dez anos desde que virou uma artista bem-sucedida e mundialmente conhecida. Segue abaixo, em duas partes, a entrevista de Bebel ao iG, no hotel paulistano Emiliano, na qual falou sobre todos esses temas e outros mais: a relação com a histórica gravadora de jazz Verve, casamento, Igreja Católica, dengue, Lady Gaga, Lula…

Você está no Brasil desde quando?
Cheguei no finalzinho do mês passado. Estava vindo de shows na Ásia, ia voltar para Nova York, mas quando cheguei em Cingapura teve a coisa do vulcão, antecipei minha vinda e vim para cá direto. Foi a maior sorte eu estar aqui, porque minha avó acabou falecendo. Aproveitei para dar uma força para a família. E agora fiz a Virada Cultural em Indaiatuba, que foi uma experiência hilária. Não pensei que fosse ser tão... cru. Foi às seis horas da tarde, ao ar livre, nunca tinha feito um show assim. Eu via todo mundo da plateia, foi a maior mistura. Tinha a minha galera das bibas amigas me suportando, fofas, queridas, ali na primeira fila, outros meio coçando o saco, depois vários comentários, “isso não é lugar para você, Bebel”, ou “que maravilhosa você de ter vindo até Indaiatuba cantar para a gente”... Teve probleminhas de som, uma chuva que ameaçou cair, demorou um pouco para engrenar, confesso que fiquei quase que tensa. A sorte foi que eu estava tão careta, eram seis da tarde, se eu tivesse levado uma garrafa de vinho já estaria ótima.

Sai pela Verve?
Deve sair, mas é um projeto que estou tocando à frente mais que a Verve. Meu casamento com a Verve está maravilhoso, apesar da situação que está – uma loucura, todo o departamento de lançamento do disco foi despedido na primeira semana de janeiro, não tem mais ninguém. Se sair pela Verve vai ser da melhor forma, e se não sair também, se Deus quiser, vai ser da melhor forma. Se nada melhor acontecer – e acho que não vai acontecer –, acho que não vou ficar muito tempo lá.

O que você sente de fazer shows no Brasil?
Olha, dá frio na barriga. Estou fazendo um show realmente especial para o Sesc, graças a Deus São Paulo oferece essa possibilidade, independente de crise de gravadora, para eu vir de fora com a qualidade que eu quero. Frio na barriga sempre vai dar, mas está bem mais controlado hoje em dia. Aqui fico sempre tentando saber como consigo me encaixar, inclusive para não bater insegurança. Porque, poxa, já não é meu lugar, as pessoas podem me olhar com uma mente ou de muita expectativa, ou crítica. Se eu fosse equilibrar ou balançar, acho que ia sair correndo. Talvez esse seja o motivo pelo qual eu venha para São Paulo e me sinta tão à vontade. Se estivesse no Rio, jamais estaria tendo essa conversa com você agora – o telefone ia estar tocando, eu estaria preocupada, metade da minha família estaria em cima de mim.

Sempre que a entrevisto, você relata algum tipo de insegurança artística. É difícil perceber razões concretas para isso.
Acho que é autocrítica... Para mim, é cruzar fronteira que fico assim. Talvez seja a vontade de suprir as expectativas das pessoas daqui, que falam a mesma língua, me conhecem talvez melhor como a Bebel, ou como uma brasileira, sei lá como vão me ver. Naturalmente sou superinsegura, isso é uma característica da Bebel.

O episódio da morte da sua avó ocupou todo o seu tempo aqui?
Ocupou bastante. Eu estava realmente cuidando de assuntos familiares: minha mãe teve uma cirurgia, meu marido teve uma cirurgia, foram momentos delicados. Para começar, meu marido estava com dengue quando voltamos de Bali.

Pegou dengue em Bali?
Em Bali, depois teve uma crise de menisco, e minha mãe, cirurgia de olho. Fiquei em função disso. Depois chegaram os meninos da banda, ficamos curtindo, encontramos Daniel Jobim no estúdio, começamos a ter ideias. E agora volto correndo para Nova York porque vou fazer a voz de um pássaro num desenho animado da Fox. De lá vou para Londres lançar o All in One (disco de 2009, editado pela Verve), depois para a Turquia, e aí volto para cá. A coisa mais importante agora é que volto para uma turnê pré-DVD, deve ser em outubro. Isso é novidade total para mim, um plano ousado. Vai ser meu primeiro DVD, gravado aqui em São Paulo, com convidados especiais. Vai chamar Sem Contenção.

Luciano Trevisan
Bebel Gilberto se apresenta no Sesc Pompeia
Chegou a encontrar sua avó antes de ela morrer?
Cheguei, fui muito sortuda, graças a Deus. Na quarta à tarde, antes de ela falecer, fui para a casa dela e fiquei lá até de noite, conversamos muito, ela fez eu contar minha viagem inteira, com detalhes. Estava preocupada com Didiê, que estava se recuperando da dengue. Queria saber as diferenças das pessoas de Cingapura, da Coreia, sobre minha primeira vez na Coreia, como tinha sido na Austrália. Sempre ela quer saber esses detalhes. Obviamente fico arrasada, estou até agora, mas não tinha como ela ir melhor. Eu ter me despedido dela foi bênção total. E mamãe foi de noite lá, ainda deu o último adeus sem saber. Ela estava velhinha, estava fraca já, mas com-ple-ta-men-te lúcida. Morreu dormindo, minha mãe foi ver ela na cama, deu um beijo, foi super-relax, não poderia ser melhor. Cheguei lá, fui uma das primeiras pessoas a ver. Nunca tive essa relação com ninguém, beijei, despedi. Foi bem em paz. Foram 100 anos e 100 dias. Ela era muito chique para ficar dependendo dos outros.

A esta altura ela contava coisas, ou ficava mais ouvindo?
Contava, o tempo todo. A gente ficou falando horas de São Paulo. Eu tinha ido na rua Haddock Lobo, falei que era no cruzamento entre a alameda Jaú e a Santos, que não se cruzam, e ela: “Mas é impossível isso, minha filha! Porque você sabe, a nossa casa...”. A gente ficou um tempão falando do trânsito, de como eram as coisas. Ela sempre queria saber dos endereços de todos os lugares em que eu estava, principalmente os que ela já conviveu, Roma, Paris.

Antes teve o aniversário de 100 anos (em janeiro passado)
Claro, cheguei logo antes de ir para a Bahia, foi quando decidi casar. Viemos para o aniversário, foi quando falei: “Memélia, eu vou casar, vou casar na igreja, como você queria”. Ela sempre deu uma implicada, dizia: “Você tem certeza que vai fazer isso?”. Na igreja mais ainda, né?, apesar de ela ser católica. Mas ela adorava o Didiê, foi tipo pedir uma bênção geral, e ela abençoou. E declarou, não sei exatamente em qual jornal, que eu era o xodó dela – disse que para filho era tudo igual, mas que de neto ela tinha um xodó, que era eu.

Por que você era o xodó dela?
Ah, vivemos juntas, morei com ela, aprendi muita coisa com ela. Por ser sozinha, viajar, viver em quarto de hotel, eu ligava para minha avó, sempre. Ela sempre era muito positiva, é diferente de ligar para minha mãe. Não que eu não ligasse, sou bem comunicativa, mas sempre que estava com vontade de ligar para alguém, em vez de saber que eu poderia ter uma dor de cabeça, ligava para a minha avó.

Leia a segunda parte da entrevista com Bebel Gilberto .

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