Bebel Gilberto fala sobre São Paulo, Rio e Lula

Na segunda parte da entrevista, cantora revela ainda que pretende remontar o musical Os Saltimbancos

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG |

Luciano Trevisan
A cantora Bebel Gilberto
Na segunda parte da entrevista, Bebel Gilberto fala de sua amizade com a cantora Grace Jones e desconfia que Lady Gaga pertence à maçonaria. Fala de seus sentimentos sobre ao Rio de Janeiro e São Paulo, sobre o governo Lula e o Brasil. E comenta o desejo de remontar o musical infantil Os Saltimbancos, de tio Chico Buarque, no qual estreou como artista, quando era criança.

Por que se casou na igreja?

Casei em Trancoso, naquela igrejinha mínima, num momento de piração. Falei, ai, tem uma igreja linda, conheci quando tinha 14 anos, quando vi rolou. Para lidar com as leis da Igreja Católica, se não fosse a paróquia da minha avó, que graças a Deus nos ajudou... Mas não pense que estou com a cabeça de uma católica. Não vou criticar a Igreja Católica, que não fica nem bem, mas na verdade é uma máfia. Você tem que ter sua certidão de nascimento e de batismo autenticadas. Meu marido é do interior do Rio Grande do Sul, e eu nasci em Nova York. Obviamente meu pai não foi, e nem aluguei Chico e Marieta para irem também. Falei: “Estou comunicando que vou casar, mas não venham, não fiquem culpados”, para não ter problema. Senão ia ser uma loucura, uma cidade mínima. Ia dar uma trabalheira danada.

Por causa de mídia?
Midia, né? Ia ser chato para eles, para mim, para todo mundo. Na verdade eu precisava me casar pela coisa de papel, que a gente precisa para a cidadania do Didiê em Nova York, e fiz uma brincadeira. Como sou uma velha romântica...

Vestido de noiva?
Não, vestidinho branquinho, mas nada de noiva. Teve arroz, bolo. Eu não queria que passassem de 50 pessoas, só de família já vão 20. Os músicos da minha banda foram todos, tocaram ao vivo, todo mundo cantou, foi muito legal, de pés descalços, tipo hippie. Minha avó ficou no telefone 24 horas, mandou a bandejinha que levou as alianças dela. E eu chorei desde a hora que entrei até o final.

Luciano Trevisan
Bebel Gilberto canta no Sesc Pompeia
Tem algo inusitado no repertório dos shows no Sesc?
O que vai ter de surpresa é "Sweet Dreams (Are Made of This)", dos Eurythmics, que gravei só com voz e violão para um iTunes Exclusive, junto com "Slave to the Rhythm", da Grace Jones, que é uma possibilidade de convidada para o DVD. Grace aparece na minha vida de três em três anos, virou tipo amiga. Ela adora o Brasil, a música brasileira. Sei que ela pode dar trabalho, mas comigo ela se deu superbem. Ela é uma diva, né? De repente ela quer um elefante branco e você tem que dar. Quando conheci ela era um show meu, cheguei no meu camarim em cima da hora – não gosto de ficar muito tempo porque fico ansiosa, e eu sabia que tinha Moby, Sean Lennon. Até que me contaram: “Grace Jones chegou, agora é melhor você vir”. Ai, meu Deus, será que é bom encontrar a Grace Jones antes ou depois, o que eu faço? Fui, cheguei no camarim, ela estava com um baseado desse tamanho, um chapéu maravilhoso, umas botas (faz voz grave): “You’re late”. Ela disse: “É importante às vezes você vir pelo menos 40 minutos antes”.

Deu bronca?
É, “porque você tem que se adaptar, uma coisa pode dar errado na sua roupa, só queria que você soubesse isso”. Mas superquerida, numa ótima. Tinha dois camarins, um onde estava todo mundo bebendo champanhe, um tititi, e esse menor, onde ela estava literalmente me esperando. Dali jantamos juntas, ficamos juntas até quatro horas da manhã, ela queria saber tudo de macumba do Brasil, interessadíssima. Queria estabelecer a diferença entre a santería da Jamaica e a macumba do Brasil. Acho que ela estava interessada na coisa da magia mesmo. Na Jamaica tem essa coisa barra-pesada também, de você usar para as coisas materiais que quer, e às vezes até para pessoas, que considero não tão brancas assim...

Ela anda irritada com a Lady Gaga...
É, exato. Louca ela, né? Lady Gaga é um fenômeno, fiquei bem impressionada com ela. Alguém disse: “Nossa, mas você está obcecada com Lady Gaga”. Adoro coisas novas, e com criatividade e conteúdo. Obviamente a música dela não é o meu cup of tea, mas Lady Gaga merece um respeito. Se é uma coisa que traz alegria, faz as pessoas pensarem, se enfeitiçarem, pirarem, por que não? E tem a coisa do boi zebu, como chama?... Maçonaria. Estava conversando com meu amigo Erick, se existe uma coisa escondida dela. Procure saber, veja. Não sei direito, estou tentando descobrir.

Maçonaria não é só para homens?
Pode ser, mas do jeito que ela é... Lady Gaga é mulher mesmo? Ela é homem? Tem várias coisas que ela usa que têm muito a ver, símbolos, a coisa de um olho só. Pode ser alguma maluquice assim, comparando com a piração da Madonna com a cabala. Lady Gaga é tão mais maluca, pode estar aí querendo dizer alguma outra coisa... Mas isso é uma teoria entre a gente (ri).

O que está achando de ser casada?
Ah, está sendo ótimo. Ele trabalha comigo, é outra vida completamente diferente. Eu, que sempre fui sozinha e independente, agora estou virando dependente. Ele é bem legal, bem legal. É interessante, está sendo uma proteção para mim, estou menos estressada, mais descansada. Obviamente a gente dá umas brigadas, sempre perto de show, mas sobrevivemos.

Luciano Trevisan
Bebel Gilberto no palco do Sesc
Quando está no Rio, como você vê a cidade que deixou em 1991?
Ah, o Rio... Fiquei dez dias quando fui para o aniversário da Memélia, nem consegui pensar na possibilidade de ficar, encarar o trânsito e os 15 milhões de turistas, as lojas, os cheiros, a grande metrópole que está virando o Rio. Mas agora, nessa temporada de maio, estou fazendo de novo as pazes com o rio, fui até à praia.

É uma relação conflituosa?
Total. Sou aquela que busca por um paraíso, depois de tanto viajar e de ter lutado com minha família, então prefiro raptar minha mãe, meu tio e minha prima e ir para Trancoso ou para a praia do Espelho, que ficar sentada no trânsito, pagar um jantar milionário, ficar em fila.

Não sente isso em São Paulo?
São Paulo é um pouco mais saudável, viro turista, é diferente. No Rio me sinto um pouco invadida, ou peixe fora d’água. Em São Paulo, Didiê com dengue, consegui fazer o cruzamento entre o hospital Sírio-Libanês e o Einstein, pensei, gente, estou fazendo a rota Pacaembu-Butantã-USP, exatamente onde eu passava todo dia quando morava com minha avó na rua Buri, uma hora e meia no trânsito. Mas não é nem pelo trânsito, acho que meu conflito é pelo crescimento que está ocorrendo, e pela coisa de ficar na moda também.

Como você vê isso de o Brasil estar na moda?
Obviamente vejo primeiro com o maior orgulho. Tem mais é que estar na moda, um absurdo ninguém ter descoberto isso antes. Mas que saibam cuidar.

Sente o estado de espírito do Brasil diferente?
Sinto sim, talvez um pouco mais de... arrogância?

Há meio um confronto entre os que acham que o Brasil está melhorando e os que não acreditam nisso de modo algum...
Com certeza, outro dia entrei no elevador lá no Rio. Aí estava o Lula nessas televisões que agora tem nos elevadores. Eu disse: “Gente, olha como o Lula está lindo”, foi aquele silêncio no elevador (ri). Uma mulher ficou até sem graça, eu falei: “Mas é verdade”. Realmente, está todo cuidadinho, por que não dizer que o Lula está lindo?

Você gosta dele?
Ah, eu gosto. Sou suspeita, completamente. Na primeira vez que ele concorreu à presidência e perdeu, minha avó subiu no palanque e fez um superdiscurso. Ela escreveu e mandou para mim, tenho até hoje. Ela sempre dizia, “o Llulla”, com aquele jeito de falar de antigamente, os dois Ls... Fui acompanhando. Vejo as pessoas da minha classe, se posso dizer assim, pessoas que não vou dizer os nomes, ou mais famosas ou menos, ou mais ricas ou menos do que eu, criticando... Eu nem sabia como colocar, mas hoje, sinceramente, acho que eu estava certa. Não vou ficar brigando e discutindo, porque não é nem o meu feel, mas acho que o Lula fez do Brasil um Brasil melhor. Não tenho vergonha de dizer isso. Há quem não aceite, por puro comodismo, preguiça de crescer, egoísmo. Mas existe resposta melhor do que agora? O Lula foi com a Dilma no aniversário da minha avó, eu estava mais alienada ainda, mal sabia quem ela era. É difícil opinar, mas eu fico orgulhosa.

Vê o Brasil governado por uma mulher?
(Pensa.) Não sei, não sei. Tenho até medo.

Você não vota aqui, vota?
Eu deveria votar. Tenho dupla cidadania, tenho título aqui e nos Estados Unidos, votei no Obama na última vez. Aqui justifico, deveria votar nesta vez.

E seu pai, você visitou?
Visitei, visitei meu pai...

Está velhinho, também (João completa 80 anos em 10 de junho)...
Ah, nem fala isso, porque dá medo. Ele está muito vivo, agora tem também a filha mais nova. Ficou bem triste com a minha avó, bem triste. Sentiu muito, deve ter ficado emocionado, porque falou com ela um dia antes, graças a Deus. Minha avó adorava ele, ela falou um monte de coisas importantes para mim, até em relação ao meu pai, que eu sempre dava uma reclamadinha...

E sua ideia de remontar Os Saltimbancos?
Outro dia sonhei com Os Saltimbancos. Tenho que conseguir um jeito, não sei como, mas vou fazer esse projeto, é sério. Vou fazer muito baseado no Saltimbancos que o Antônio Pedro dirigiu, de um jeito passe a mensagem maluca que Chico quis passar naquela época. Com certeza eu seria a diretora nesse caso, já nem ia nem mais participar. Tem que botar uma gata de verdade, hoje estou mais para diretora que para gata (ri).

Você tem acompanhado e gostado de algo de música brasileira?
Além do novo disco do Otto, que é maravilhoso? Depois disso não tem mais o que dizer. Até tem, tenho visto a Céu, é bacana, com conteúdo. Mas depois do Otto...

Leia a primeira parte da entrevista com Bebel Gilberto

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