Banda Yuck revive o rock independente dos anos 1990

Grupo inglês é considerado uma das revelações do ano; leia entrevista ao iG

Tiago Agostini, especial para o iG |

Divulgação
A banda inglesa Yuck
Uma batida de baquetas e uma no bumbo, seguidas por uma introdução cheia de guitarras distorcidas que seguem até o começo de um riff agudo, estridente. Entra a estrofe, levada apenas por bateria e baixo, com os ruídos da guitarra se esvaindo aos poucos. A volta do riff funciona como pré-refrão, que explode, afinal, com uma melodia vocal urgente. O solo termina, há uma parada de bateria e você percebe, antes mesmo do último refrão, que está imerso numa alegria sem fim. "Get Away", primeira faixa do disco homônimo de estreia dos ingleses do Yuck, não é inovadora, mas traz um espírito juvenil tão sincero que, a menos que você não tenha sangue correndo nas veias, é impossível passar imune.

"Yuck", o álbum lançado em fevereiro pela Fat Possum Records, é um prato cheio para os fãs do indie rock dos anos 90. Há referências fartas, de Pavement a Sonic Youth, de Dinosaur Jr. a Teenage Fanclub, passando por Belle & Sebastian, My Bloody Valentine e Stone Roses. Até a formação é meio clichê: um guitarrista e vocalista esquisito (Daniel Blumberg), um guitarrista quietão (Max Bloom), uma baixista (Mariko Doi) e um baterista simpático (Jonny Rogoff). Não se espante: você já viu isso antes. Não que isso tire a graça da banda.

O Yuck se formou em 2009. Blumberg e Bloom já haviam tocado juntos na banda Cajun Dance Party, que lançou um disco elogiado em abril de 2008, "The Colourful Life". Após a banda acabar, os dois passaram a compor músicas no quarto de Bloom, até resolverem fazer shows. Primeiro recrutaram Doi, que eles conheciam da cena de Londres, e a banda se completou quando Blumberg conheceu Rogoff em Israel. Apesar das diferentes nacionalidades dos membros (Doi é japonesa, Rogoff americano), Bloom não vê influência dessas diferenças no som da banda. "A música transcende tudo, de onde você vem, todo seu passado. Você pode encontrar alguém no exterior e, se os gostos musicais são parecidos, se conectar com a pessoa instantaneamente", disse o guitarrista, por e-mail, ao iG .

A paixão pelos anos 90 parece ser recente entre os membros da banda – a idade deles, todos rondando os 20 anos, denuncia isso. Blumberg, em entrevista recente ao site Pitchfork , revelou que só foi conhecer Pavement, Smog e outras bandas há três anos. "Não lembro ao certo quando escutei Pavement e as bandas indies pela primeira vez, mas fiquei obcecado com os álbuns a ponto de achar que nunca mais iria ouvir nada na vida além deles", comenta Bloom. "Essa fase acabou."

A obsessão passou, mas o modelo permanece. Bloom relembra que um dos momentos emocionantes da curta carreira da banda foi dividir o palco com os escoceses do Teenage Fanclub, em 2010. "Foi especial tocar com uma de nossas bandas favoritas. E foi animador ver uma banda que ainda faz álbuns sensacionais tocando para plateias lotadas, com fãs antigos e novos. Me faz querer estar nesta posição um dia", comenta.

Getty Images
Daniel Blumberg, guitarrista e vocalista do Yuck, no festival South by Southwest, no Texas
"Minha vida é dominada por compor e fazer turnês, fico meio alheio ao que está ao redor", diz Bloom. Recentemente a banda tocou no festival South By Southwest, em Austin, no Texas, e já tem uma agenda cheia de shows nos Estados Unidos e na Europa até agosto, com passagem por festivais como Primavera Sound, na Espanha, e Glastonbury e Reading, na Inglaterra. "A única forma de saber se as coisas estão dando certo é quando vejo que os shows lotados e que as pessoas estão se divertindo", revela. Surpreso ao saber da boa recepção do álbum de estreia entre os fãs de indie no Brasil, o guitarrista demonstra interesse em vir ao país e manda um recado. "Uma banda brasileira chamada Top Surprise nos convidou para dividir um single certa vez. Se vocês estão lendo esta entrevista, ainda estamos interessados."

Se começa urgente com "Get Away", "Yuck" sabe variar bem os climas entre as músicas, com letras de amor simples e diretas. A capacidade da banda de mimetizar variações estéticas com personalidade impressiona. Por mais que você já tenha ouvido tudo isso antes, há um frescor no som deles que remete a uma das essências do rock n' roll: música jovem, feita por e para jovens. Nada de pretensão, apenas quatro amigos se divertindo.

Há uma teoria de buteco que diz que a cada 20 anos o rock se repete e se renova. Foi assim com o punk de Sex Pistols e Ramones no final dos anos 70, que usou a simplicidade e divertimento de Elvis e Buddy Holly para chutar para a cova a pretensão do rock progressivo e seus longos solos. Ou então com o grunge em 91, que juntou o punk com o peso do Black Sabbath dos 70 e reprocessou o barulho de bandas underground como o Pixies. Com seu disco de estreia, o Yuck traz um cartão de visitas: bem-vindo aos anos 10.

null

    Leia tudo sobre: músicayuck

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG