Banda de nômades canta no Rio a liberdade do estilo de vida do Saara

Tinariwen, que tocou no Back2Black, surgiu em acampo de refugiados apoiado por Kadafi e tem Bono Vox e Santana como fãs. Banda ouve fitas cassete em gravadores comunitários

Luisa Girão, iG Rio de Janeiro |

Roberto Filho/AgNews
Banda de nômades vive no deserto e é admirada por músicos ocidentais
Tuaregue, em árabe, significa “abandonados pelos deuses”. Mas o povo nômade - com trajetórias de vida envolvidas com as lutas políticas pela libertacão do Mali, no noroeste da África - não dá sinais de descrença na fé. Pelo menos é assim com o grupo Tinariwen, que se apresentou no festival Back2Black, vestido com roupas típicas do deserto, nesta sexta-feira (26), na Estação Leopoldina, no Centro do Rio.

Seguidor da religião mulçumana, o grupo tem uma forte ligação com a espiritualidade. Mesmo após uma longa viagem, dois dos cinco integrantes da banda não deixaram de seguir o Ramadã e ficaram de jejum até o pôr do sol, no dia da apresentação. “É uma prática muito importante para gente, onde renovamos a nossa fé”, explica no camarim o baixista Eyadou Ag Leche, porta-voz da banda, antes do show.

Através de suas letras, o quinteto berbere expressa o anseio pela liberdade e independência do seu povo. “Buscamos isso há mais de mil anos. O camelo, a mulher e a natureza são a base da vida nômade do tuaregue”, afirma Eyadou. A figura feminina é importante para o grupo étnico porque eles veneram Tin-Hinan, a rainha ancestral dos tuaregues.

A banda surgiu no começo dos anos 1980, em um campo de refugiados rebeldes mantido no Mali com auxílio do líder líbio foragido Muamar Khadafi. Em 2001, o primeiro CD da banda “The radio tisdas sessions”, foi lançado, e o Tinariwen foi convidado para participar de festivais de renome internacional, como o Glastonbury e Coachella.

Roberto Filho/AgNews
Tinariwen começou em um campo de refugiados apoiado por Muamar Kadafi
De lá para cá, a banda ganhou fãs de peso, como Bono Vox, Robert Plant, Carlos Santana e Thom Yorke, do Radiohead. Mesmo com todas as letras cantadas no dialeto berbere. “Estou cantando a minha música, passando a minha cultura. Por que não fazer isso na nossa língua?”, diz Eyadou.

Música em fitas cassete no deserto

Quando esteve pela primeira vez em Paris, há 10 anos, Eyadou ficou impressionado com as novidades e as diferenças em relação ao cotidiano no meio do Saara, como os arranha-céus, inimagináveis na paisagem de horizontes infinitos do deserto. “Foi difícil acreditar no quão diferente era a cidade. Quando voltei do show, tentei explicar para as pessoas na minha terra o que eram os prédios enormes", conta.

Ainda lembra maravilhado da primeira vez que entrou na FNAC em Paris e se deparou com dezenas de milhares de álbuns. “Imagine que no deserto não temos FNAC ou lojas de CDs, nem mesmo computadores para piratearmos música na internet”, ri Eyadou.

Por morar no deserto, o grupo étnico de nômades do Saara, não tem tanto acesso a músicas ocidentais. Eles escutam música através de fitas cassete copiadas e reproduzidas em gravadores comunitários. Por isso que a banda nunca tinha escutado falar nos Rolling Stones até 2008, quando fez a abertura do show dos ingleses em Dublin, na Irlanda. O mesmo vale para grandes nomes ocidentais, como os Beatles.

“Podíamos até já ter escutado a sonoridade de suas músicas, mas não sabíamos quem eram”, afirma ele, que consciente da diferença entre as culturas do deserto e dos grandes centros urbanos, considera "essa troca interessante".

O baixista ainda comentou as recentes manifestações no mundo árabe. “Sei que há uma grande opressão do governo, mas nossa característica nômade está sendo respeitada. Enquanto não construirem muros nas fronteiras do Mali, Níger, Líbia, Argélia e Burkina Faso, está tudo bem. Não temos pátria, a natureza é o que nos move."

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