Banda de heavy metal iraquiana vai aos EUA

Integrantes da Acrassicauda eram perseguidos em Bagdá e conseguiram asilo temporário em Nova Jersey

New York Times |

Foi um milagre heavy metal. A Acrassicauda passou por situações infernais como uma banda de rock em Bagdá durante a guerra. Seu estúdio de ensaios foi bombardeado. Seus membros foram rotulados como adoradores do diano e receberam ameaças de morte por tocarem músicas ocidentais. Depois eles passaram anos de purgatório como refugiados na Síria e Turquia, matando o tempo e sonhando em tocar na terra dos livres.

Depois de tudo isso, na noite de domingo, dois dias depois da chegada do último membro da banda aos Estados Unidos, eles tiveram o que qualquer fã de metal pode chamar de paraíso: abraços e cumprimentos no camarim do Metallica no Prudential Center, em Newark, Nova Jersey. Talvez nem tivesse sido necessário que James Hetfield, vocalista do Metallica, os surpreendesse depois do show lhes dando uma de suas guitarras, uma ESP preta, onde escreveu "Bem-vindos à América". "Isso é por vocês manterem a fé", disse Hetfield, acrescentando ao sumir em um corredor com sua equipe: "escrevam bons riffs".

A fé da banda Acrassicauda no rock 'n' roll foi registrada no documentário "Heavy Metal em Bagdá", lançado em 2007. O filme retratou os membros como roqueiros comuns e tenazes em meio a circunstâncias extraordinárias e eles continuam a personificar estes papéis em suas novas vidas.

A salvo nos Estados Unidos, Acrassicauda quer continuar fazendo música / NYT

O governo americano lhes concedeu status de refugiados, que permite que eles peçam green cards em um ano, e o Comitê Internacional de Resgate os colocou em um modesto apartamento de um quarto em Elizabeth, Nova Jersey, onde até então não há pôsteres do Metallica ou do Slayer nas paredes, mas algumas guitarras empilhadas em um canto. "Isso é mais do que poderíamos esperar ou sonhar", disse Firas Al-Lateef, 27, o baixista, que chegou há quatro meses.

No camarim depois do show do Metallica, Al-Lateef ria em descrença juntamente com os outros dois membros da banda, Faisal Talal, 25, o cantor e guitarrista, e Marwan Riyadh, baterista, que foi o último a chegar. (O outro guitarrista, Tony Aziz, que completa 30 na quarta-feira, estava em Michigan trabalhando para trazer familiares do Iraque e os jovens balançavam as cabeças a respeito do azarado momento escolhido pelo amigo). Este foi apenas o segundo show de rock que assistiram, depois de ver a banda Testament na Turquia.

Mas eles dizem saber os outros desafios que irão enfrentar, ao tentar manter seu compromisso de tocar música e concorrer no mercado do metal. "Nós somos ótimos no processamento", disse Riyadh, 24, que antes usava o nome Marwan Hussain. "Ir até o Alto Comissariado da ONU e ficar na fila por três ou quatro horas. Somos bons nisso. Mas musicalmente, precisamos de treino".

Pode não haver muitas bandas de metal de Bagdá, mas como refugiados os membros da Acrassicauda (se pronuncia "a-crass-a-cau-da" e deriva do nome de uma espécie de escorpião negro) não estão sozinhos e poucos conseguiram superar as mesmas dificuldades.

Dos cerca de 2 milhões de refugiados iraquianos em todo o mundo, apenas 13 mil foram aceitos nos Estados Unidos no ano fiscal de 2008, que terminou no dia 30 de setembro, e outros 17 mil devem chegar em 2009. Um oficial do Departamento de Estado afirmou que nos últimos 18 meses, apenas 47 dos refugiados iraquianos que entraram nos Estados Unidos eram músicos.

"Eles tiveram sorte de conseguir vencer o sistema", disse Bob Carey, vice-presidente de políticas migratórias do Comitê Internacional de Resgate. "Isso se deve em parte à perseverança, alguns de seus defensores e um pouco de sorte".

A principal defensora da Acrassicauda tem sido a Vice, revista e companhia de mídia do Brooklyn responsável pelo documentário "Heavy Metal em Bagdá". A Vice é mais conhecida por criticar a cultura pop do que por sua ajuda humanitária, mas tem trabalhado incansavelmente em nome da banda há um ano e meio.

"Nós os expusemos e colocamos suas vidas em risco", disse Suroosh Alvi, fundador da companhia. "Eles receberam ameaças do Iraque enquanto moravam na Síria. Nós temos uma responsabilidade".

Os membros da banda insistem que não receberam nenhum tratamento especial de nenhuma agência governamental.

(Reportagem de Ben Sisario)

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