Autobiografias de Keith Richards e Patti Smith saem no Brasil

Livros "Vida" e "Só Garotos" trazem revelações sobre trajetória dos dois astros do rock

Augusto Gomes, iG São Paulo |

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Keith Richards
O primeiro é o guitarrista da auto-proclamada maior banda de todos os tempos e, ao longo de quase meio século de carreira, virou o símbolo vivo do lema "sexo, drogas e rock'n'roll". A segunda é conhecida como "a poetisa do rock", por sua mistura única da literatura de Rimbaud e Baudellaire com a agressividade do punk. Em comum, os dois só tinham o fato de serem lendas da música. Tinham: agora, ambos acabam de ter suas autobiografias publicadas no Brasil. O primeiro é Keith Richards, dos Rolling Stones. A segunda é a cantora Patti Smith.

A autoria de "Vida" é creditada a Keith Richards, em parceria com o escritor e jornalista James Fox, amigo do músico há mais de trinta anos. Se comparado com "Só Garotos", de Patti Smith, é um livro comum, que segue a cartilha das autobiografias do rock. O primeiro capítulo dá o tom do livro. Nele, Richards relembra um episódio ocorrido em 1975, quando ele quase foi preso por posse de drogas no sul dos EUA. Entorpecentes e polícia, obviamente, são temas recorrentes nas 672 páginas do livro (o músico é autor de uma das frases mais famosas do rock: 'nunca tive problemas com drogas, só tive problemas com a lei').

Mas, para os fãs dos Rolling Stones, é mais interessante ler o que Richards conta sobre sua relação com Brian Jones (morto em 1969, em circunstâncias até hoje misteriosas) e Mick Jagger - o retrato que o guitarrista pinta de seus dois colegas de banda não é nada lisongeiro. Mas não há rancor nessas observações, já que Richards fala sobre si mesmo com o mesmo rigor que fala dos outros. E, no meio de tantas histórias, está sempre presente o seu amor pela música. Sua empolgação ao escrever sobre o processo de composição e seu modo de tocar guitarra, por exemplo, é evidente.

É uma leitura fundamental para quem se interessa por música. Quem não está familiarizado com a obra dos Rolling Stones, no entanto, pode achar "Vida" cansativo - ler páginas de páginas sobre a descoberta da afinação aberta ou como usar o gravador cassete como captador e amplificador de violões é fascinante para quem ama canções como "Honky Tonk Women" e "Street Fighting Man", mas definitivamente não interessa ao leitor casual. Esse terá que depender apenas das peripécias de Richards - e elas não faltam na movimentada vida do músico - para chegar ao final do livro.

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Patti Smith
"Só Garotos" é completamente diferente. Em primeiro lugar, porque Patti Smith é uma escritora de verdade - Richards é apenas um ótimo contador de histórias. Seu livro tem qualidades literárias suficientes para interessar até quem nunca ouviu um disco sequer dela, tanto que a obra ganhou o National Book Awards de 2010, um dos mais importantes prêmios literários dos Estados Unidos, na categoria não ficção. O foco da história é a relação de Patti com Robert Mapplethorpe, fotógrafo famoso por seus retratos com forte teor homoerótico.

Os dois se conheceram em Nova York nos anos 1960. Ambos mal tinham dinheiro para pagar o aluguel ou comprar comida, mas mesmo assim estavam firmemente decididos a serem artistas - ele pintor, ela escritora. O nome "Só Garotos" vem de uma frase que os dois ouviram na rua. Uma mulher queria tirar uma foto deles, porque achava que eles eram artistas. Seu marido a fez mudar de ideia. "São só garotos", falou. É disso que o livro trata: a transformação de dois jovens com necessidade de se expressar em artistas que mudaram a fotografia e o rock nos anos 1970.

O prefácio, em que Patti Smith conta como recebeu a notícia da morte de Mapplethorpe (em 1989, vítima de complicações decorrentes do vírus da Aids), já mostra todo o seu talento como escritora. As páginas seguintes podem não ter as inúmeras peripécias da vida de um Keith Richards, mas contam uma história comovente.

Além das recém-lançadas "Vida" e "Só Garotos", há uma série de outras autobiografias de astros do rock disponíveis no Brasil. Uma das melhores é "Eu Sou Ozzy", de Ozzy Osbourne, lançada no início deste ano. Em matéria de consumo de drogas, sua vida não deve em nada à de Keith Richards. A diferença é o bizarro senso de humor com que ele narra suas histórias. Mesmo quando fala sobre fatos assustadores, como o episódio em que arrancou a cabeça de um morcego vivo a dentadas, o ex-líder do Black Sabbath consegue ser hilariante.

Outras boas opções são "A Autobiografia", de Eric Clapton, e "Scar Tissue", do vocalista do Red Hot Chili Peppers, Anthony Kiedis. Entre os brasileiros, a leitura obrigatória é "Minha Fama de Mau", de Erasmo Carlos. O cantor Lobão também acaba de lançar a sua, intitulada "50 Anos a Mil" e escrita em parceria com o jornalista Claudio Julio Tognolli. Há ainda duas boas autobiografias que não ganharam tradução em português: "Slash", do ex-guitarrista do Guns n' Roses, e "The Dirt", da banda Motley Crue.

Serviço

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"Vida", de Keith Richards
"Vida", de Keith Richards
Editora Globo
672 páginas
Em "Vida", Keith Richards conta, de maneira crua e feroz, sua história, vivida de forma intensa no meio do fogo cruzado – desde a primeira infância, quando cresceu num bairro pobre ouvindo obsessivamente os discos de Chuck Berry e Muddy Waters, até o modo como levou a guitarra ao limite absoluto e uniu forças a Mick Jagger para formar os Rolling Stones.

"Só Garotos", de Patti Smith
Companhia das Letras
280 páginas
"Lembro de passear com minha mãe olhando vitrines e perguntar por que as pessoas não chutavam e quebravam aquilo". É com esse tom franco e irreverente - e ao mesmo tempo doce e poético - que Patti Smith revive sua história ao lado do fotógrafo Robert Mapplethorpe, enquanto os dois tentavam ser artistas e transformar seus impulsos destrutivos em trabalhos criativos.

"Eu Sou Ozzy", de Ozzy Osbourne
Editora Benvirá
416 páginas
Best seller mundial com as memórias de Ozzy Osbourne, um dos nomes mais importantes do rock, formador da banda Black Sabbath e pioneiro do gênero conhecido como Heavy Metal. Ozzy ajudou a moldar um estilo que, anos mais tarde, se tornaria conhecido no mundo todo e adorado por milhares de fãs.

"A Autobiografia", de Eric Clapton
Editora Planeta
400 páginas
Estas são as memórias de um sobrevivente, alguém que alcançou o ponto mais alto do sucesso, que teve tudo, mas de quem os demônios nunca largaram. Aos 60 anos, Clapton está curado do alcoolismo e está pronto para contar a história como ela é, sem esconder nada.

"Scar Tissue", de Anthony Kiedis
Ediouro
344 páginas
O cantor Anthony Kiedis viveu e vive sempre no limite. Sua vida é tão alucinada quanto suas músicas com os Red Hot Chili Peppers. Ele não esconde nada de sua jornada de drogas, sexo e rock and roll, nem sempre tão glamourosa quanto a imprensa musical vende.

"Minha Fama de Mau", de Erasmo Carlos
Editora Objetiva
360 páginas
O cantor e compositor conta suas divertidas memórias, da infância humilde à consagração como ídolo do rock. "Minha Fama de Mau" conta como o menino criado pela mãe numa casa de cômodos, superou todas as limitações e o preconceito da Zona Sul carioca, consagrando-se, junto ao amigo Roberto Carlos, como o porta-voz sentimental de milhões de pessoas.

"50 Anos a Mil", de Lobão
Nova Fronteira
600 páginas
"50 Anos a Mil" é a autobiografia do Lobão, que conta em um volume fartamente ilustrado a história do menino que queria ser jogador de futebol e acabou se transformando num dos grandes nomes do rock brasileiro. As músicas, os amigos, as confusões com a polícia - o grande lobo não poupa nada nem ninguém.

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