Ato de ouvir música não é mais exclusivo

Apesar da volta do vinil, ouvinte não se dedica a escutar um álbum e transita sem freios entre passado, presente e futuro

Marco Tomazzoni, iG São Paulo | 23/04/2010 11:10

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Se a febre do vinil já chegou na Europa e Estados Unidos há alguns anos, esse “revival” começou a ganhar destaque no Brasil com a reinauguração, em fevereiro, da Polysom, atualmente única fábrica de vinis da América Latina. Comprada pela Deckdisc, a Polysom já colocou no mercado os últimos álbuns dos artistas do casting da gravadora, como Fernanda Takai, Pitty e Nação Zumbi. A notícia foi recebida com alegria pelo artista plástico Paulo Dud, 57 anos, fundador do Loucos por Vinil, evento realizado em Embu das Artes, na Grande São Paulo, que reuniu em sua última edição, em abril, cerca de 2 mil colecionadores e entusiastas de LPs na cidade.

 

 

 

Com 7 mil discos em sua coleção, Dud baixa na internet um álbum ou outro para conhecer coisas novas, mas só compra vinis e usa a web como ferramenta para trocar informações e pesquisar produtos raros com amigos e donos de lojas “Esse retorno é importante porque preserva a tradição do vinil, aquele ritual de olhar a capa, tirar o disco, manipulá-lo, pôr a agulha. E é um público que se renova, são garotos de 17, 19 anos que descobrem coisas na discoteca do pai ou da mãe e acabam se interessando por Nara Leão e Chico Buarque.”

Foto: Getty Images Ampliar

Vinil: Brasil tem única fábrica da América Latina

Alheio a essa discussão de plataforma, o maestro Júlio Medaglia, 72 anos, insiste que a discussão não passa por tecnologia, e sim pela cultura massificante imposta pelas grandes gravadoras. Um dos organizadores dos célebres festivais da Record, na década de 1960, Medaglia acredita que o problema da música no Brasil e no mundo hoje é de “inteligência”. “O que se produz no Brasil é uma porcaria, não é música de qualidade, e sim algo para gostar um pouquinho e jogar fora logo. Acham que o público é idiota. As gravadoras não têm mais diretor artístico, só de marketing, e é o mesmo cara que vende salsicha na Alemanha e avião na Austrália.”

Segundo ele, há um descompasso entre o avanço da qualidade técnica e da composição, um dilema que o “século 21 vai ter que lidar”. O maestro reconhece que a internet é o “maior arquivo de ideias na face da Terra” e, pela grande quantidade de informação disponível, tem esperança que as novas gerações percebam o estado as coisas e tomem uma atitude. “A juventude vai começar a despertar. Ainda é muito incipiente, se não já teriam apedrejado as estações de rádio e TV.” Se ele escuta música? “Não, adoro o silêncio. A única música vem das maritacas no quintal da minha casa; quando chove, elas fazem verdadeiras sinfonias.”

O desabafo de Júlio Medaglia, de certa forma, também está relacionado com a mudança que a tecnologia e a web impuseram ao ato de ouvir música. Há não muito tempo, os fãs sentavam na frente do aparelho do som, colocavam fones de ouvido e escutavam as canções de seu artista favorito. Hoje, a situação quase sempre não é assim. O disco fica rolando ao fundo, enquanto o ouvinte malha na academia, escreve emails, lê jornal, vê televisão ou joga videogame. Tudo, talvez, ao mesmo tempo, quem sabe no mesmo aparelho.

“É verdade”, reconhece Alex Corrêa, ao se reconhecer nesse quadro. “Nesse exato momento, estou conversando com você, lendo tweets, respondendo emails e ouvindo o novo disco do LCD Soundsystem. Como minha mãe sempre disse, quando a gente faz várias coisas ao mesmo tempo, uma delas acaba sendo mal feita. No caso, o disco do LCD saiu prejudicado (risos).” Mas nem sempre é assim. O final de semana, garante, é a chance de tratar a música como ela “merece”. “Pego meus fones, me desligo do mundo e ouço os discos que mais me interessaram nos últimos dias.”

Élson Barbosa, que é o moderador da comunidade da revista Bizz no Orkut, com 3,5 mil membros, argumenta que esse comportamento multitarefa do ouvinte pode ser um reflexo da gratuidade da música, e a consequente perda do valor agregado a ela. “Mas acho que quem trata a música dessa forma também o faria em qualquer outra época”, aposta. “Ainda ouço música com o máximo de atenção – no iPod, ouvindo todos os detalhes possíveis. E nunca apago um disco sem tê-lo escutado pelo menos três vezes (se eu não gostei) ou umas dez (se eu gostei). O disco tem que ser muito ruim para não merecer esse mínimo de atenção.”

Foto: Divulgação

O maestro Júlio Medaglia: "Adoro o silêncio. A única música vem das maritacas do quintal"

E como se a oferta de álbuns novos não fosse grande o bastante, a internet, pela primeira vez na história, traz a possibilidade de se ter praticamente boa parte do que já foi produzido mundialmente ao alcance do mouse. O impacto dessa quantidade de informação ainda é difícil de ser medido. Em entrevista recente, Nick Hornby deu uma pista: “O rock agora é como a literatura: existe uma biblioteca estabelecida. Você ouve o que está sendo feito hoje, e se dá conta de que algumas coisas se parecem com Jimi Hendrix ou Pink Floyd, e volta a escutar esses músicos”.

Esse procedimento, de fato, é válido. Afinal de contas, um passo básico para conhecer melhor qualquer artista, seja ele escritor, ator ou músico, é descobrir suas influências e investigá-las. Só que nem sempre o ouvinte ultrapassa essa etapa inicial. “A ideia da internet é tornar acessível todo e qualquer tipo de conteúdo, mas acho que as pessoas (assim como eu) acabam dando mais valor para o novo. Todo mundo quer estar atualizado, né?”, aponta Alex. “Acredito que hoje haveria uma mobilização maior se a Lady Gaga morresse do que se o Johnny Cash renascesse. Não que eu concorde.”

O resultado que essa esquizofrenia e a febre pela novidade terão ao longo dos anos ainda é incerto. Nada impede que um artista não consiga misturar Johnny Cash com Lady Gaga, ela própria um amálgama do que mais deu certo nas últimas décadas e, por isso, um case de sucesso interplanetário. “Tudo pode virar referência. Se uma banda conseguir costurar várias coisas e ainda assim produzir algo novo e com uma cara própria, tanto melhor”, aposta Elson. Os ouvintes do futuro vão ter o mundo no bolso, fones no ouvido e uma realidade multifacetada. É torcer para que eles consigam discernir uma coisa da outra. E que não saiam destruindo estações de TV por aí.

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