As 20 músicas mais importantes de Bob Dylan

Cantor e compositor traduziu em canções tanto fatos marcantes do cotidiano dos EUA como desilusões pessoais

Gabriel Innocentini, especial para o iG |

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Bob Dylan grava seu primeiro álbum, em 1961
"Song to Woody" (1962)
Única composição de Bob Dylan em seu disco de estréia, que custou apenas US$ 402. A canção é uma homenagem a Woody Guthrie, “a verdadeira voz do espírito americano”, segundo Dylan. Lendário compositor folk, Guthrie, que tinha um violão talhado com a frase “this machine kill fascists”, foi a maior inspiração do começo de carreira de Dylan. Acompanhado apenas pelo violão, ele diz: “Eu canto esta canção para você, mas isto não é o bastante, pois não há muitos homens que fizeram o que você fez”.

"Blowin’ the Wind" (1963)
Dylan levou apenas 10 minutos para compor uma de suas canções mais conhecidas. Apesar de ter se tornado o hino dos direitos civis na tumultuada década de 1960, ele não gostava da canção. “Quantas estradas um homem precisa andar/Até ser chamado de homem?”. As indagações se acumulam, utilizando imagens bíblicas, como a da montanha lavada pelo mar. “A resposta está soprando no vento”, diz o refrão.

"A Hard Rain’s A-Gonna Fall" (1963)
“Eu saberei minha canção muito bem antes de cantá-la”. Ao ouvir isso, o poeta Allen Ginsberg acreditou que já podia passar a batuta para Dylan. Na época, foi interpretada como uma metáfora da crise dos mísseis em Cuba e da ameaça de guerra nuclear. Dylan refutou, insistindo que o sentido da letra estava além do contexto político. Como afirmou o músico folk Pete Seeger, “Hard Rain” “vai durar mais do que qualquer outra canção que ele tenha escrito”.

"Don't Think Twice, It’s All Right" (1963)
Uma das composições mais populares de Dylan, composta para seu primeiro grande amor Suze Rotolo, a garota sorridente na capa do álbum “The Freewheelin’ Bob Dylan”. Dylan não gostou quando ela o abandonou para estudar na Itália. “Não é uma canção de amor. É uma afirmação que talvez se possa fazer para se sentir melhor”, disse. “Eu dei meu coração, mas ela queria minha alma/Mas não pense duas vezes, está tudo bem”, diz a letra.

"The Times They Are A-Changin’" (1964)
“Venham senadores, congressistas/Escutem o chamado”. Dylan não poderia ser mais claro: combinando o evangelho de Lucas com o contexto político, esta é uma de suas mais celebradas canções de protesto. Todos que não podem ajudar devem sair do caminho, sejam escritores, professores ou pais. Era a hora dos jovens. “Ninguém poderia ser melhor porta-voz da nossa geração do que esta canção”, disse Joan Baez, porta-bandeira dos piquetes e das passeatas.

"The Lonesome Death of Hattie Carroll" (1964)
Hattie Carroll era uma faxineira negra de 51 anos, assassinada a bengaladas pelo fazendeiro William Zantzinger. “Hattie Carroll” é apontada como a melhor canção de protesto já escrita por Dylan. Ele faz o ouvinte tomar parte da tragédia, depois de narrar que Carroll não tinha feito nada a Zantzinger, condenado a apenas seis meses de prisão. “Esconda bem a cara nesse lenço/Pois agora é hora para suas lágrimas”, canta ao final.

"Subterranean Homesick Blues (1965)"
Um choque para os conservadores e puristas da comunidade folk: esta foi a primeira canção de Bob Dylan acompanhado por uma banda elétrica. Um rock (e um rap) para ninguém botar defeito, tão importante que a abertura do documentário “Dont Look Back”, com Dylan segurando cartazes com os versos da canção, é considerada um dos primeiros clipes da história. “Você não precisa de um metereologista/Para saber de que lado o vento sopra”. Naquele período, Dylan apontava a direção em que o rock deveria tocar.

"Mr. Tambourine Man" (1965)
Sucesso dos Byrds, “Mr. Tambourine Man” é uma das composições mais conhecidas de Bob Dylan. Inspirado pelo guitarrista Bruce Langhorne, que sempre tinha um pandeiro debaixo do braço, Dylan compôs essa canção, interpretada como uma ode ao LSD. Dylan negou, afirmando que só experimentou a droga meses depois de escrevê-la. Ela abre o lado B, o acústico, do disco “Bringing It All Back Home”. Em sua versão, Zé Ramalho trocou o Tambourine Man do refrão por Jackson do Pandeiro.

"It’s All Over Now Baby Blue" (1965)
Inspirada por baladas inglesas, esta é uma das canções de fossa mais populares do repertório de Bob Dylan. Ele tem compaixão o bastante até para avisar a garota que o amante roubou os cobertores. Nas versões ao vivo, Dylan faz a gaita gemer. Sua voz anasalada soa confiante e arrogante o tempo todo. Em “Jack Ass”, do disco "Odelay", Beck sampleou “Baby Blue” na versão do Them, grupo irlandês comandado por Van Morrison.

Divulgação
Bob Dylan nos anos 1960
"Like a Rolling Stone" (1965)
Para muitos, a melhor canção da história do rock. Bob Dylan abandonou as pretensões literárias depois de escrever esta faixa, que abre “Highway 61 Revisited”. O que era um conto gigantesco foi reduzido a seis minutos de música. Al Kooper tocou teclado por acaso na gravação. O historiador e crítico Greil Marcus acredita que esta é uma canção sobre liberdade. Um conto hippie, digamos. “Like a Rolling Stone” era tão inovadora que Frank Zappa quis abandonar a música depois de ouvi-la. Ela continua tão nova quanto em 1965 e já foi tocada 1816 vezes nos shows.

"Positively 4th Street" (1965)
Este é Bob Dylan com raiva. O alvo pode ser tanto Joan Baez quanto Suze Rotolo. O título faz referência a uma rua no Greenwich Village, bairro onde transitavam escritores beats, músicos folk e os mais variados malucos de NY. Poucas vezes uma canção pop foi tão cáustica: “Eu gostaria que apenas uma vez/Você pudesse estar no meu lugar/Você saberia o saco que é/Ver você”. Ao ouvir esta canção, Joni Mitchell acreditou que a música pop americana havia amadurecido.

"Visions of Johanna" (1966)
Esta canção foi apontada como um dos argumentos quando Bob Dylan foi indicado ao Nobel de Literatura. Um dos versos mais celebrados é “Mas Mona Lisa deve ter tido o seu blues da estrada”. Esta mistura da obra-prima de Leonardo Da Vinci com cultura popular é de fazer inveja a Caetano Veloso. Composta no mítico Chelsea Hotel, “Visions of Johanna” está no álbum duplo “Blonde on Blonde”.

"I Want You" (1966)
Alegre e divertida, “I Want You” permanece um enigma com sua letra surrealista. O “dançarino com paletó chinês” pode ser Brian Jones e a musa inspiradora talvez seja a modelo e atriz Edie Sedgwick. Saber dessas fofocas não ajuda a compreender a canção, executada com a ajuda de The Band. Ela é a trilha sonora do melhor momento de “I’m Not There”, o filme de Todd Haynes - quando Charlotte Gainsburg e Heath Ledger passeiam pela cidade. O grupo Skank tem uma versão em português (“Tanto”).

"All Along the Watchtower" (1968)
Sempre arredio em elogiar os outros, Dylan reconheceu a superioridade da versão de Jimi Hendrix sobre sua própria interpretação. Apesar disso, esta é a música mais tocada em seus shows (1928 vezes). “Deve ter um jeito de sair daqui”, canta logo na abertura. Depois do acidente de moto que quase o matou em 66, Dylan se recolheu numa fazenda em Woodstock para criar os filhos em paz. No entanto, era difícil para um rockstar como ele se manter distante da agitação.

"Knockin’ On Heaven’s Door" (1973)
Além da peculiaridade de ter sido feita para um filme (“Pat Garret And Billy The Kid”, western de Sam Peckinpah), esta é uma das poucas canções em que o vocal de Dylan recebeu o acréscimo de reverb no estúdio. Na época, ele cantava num tom mais grave do que no começo de carreira. Pode ser interpretada como uma canção pacifista durante a Guerra do Vietnã, mas é bom lembrar que aqui temos Dylan entregando o distintivo de Xerife da Contracultura.

"Tangled Up in Blue" (1975)
Obra-prima presente no clássico “Blood On The Tracks”. Ao todo, Dylan afirmou ter levado mais de uma década para transformar seus sentimentos nessa canção, definida por um crítico como “um Proust de cinco minutos e meio”. Ela pode ser entendida como a história de amor e ódio com Sara Lownds, um balanço do tempo em que “a revolução estava no ar”. No final, ele mostra sabedoria o bastante para cantar: “Sempre sentimos o mesmo, tínhamos apenas um ponto de vista diferente”.

"Not Dark Yet" (1997)
“Time Out Of Mind” é o álbum posterior ao grave problema no pulmão que quase levou Dylan à morte. “Not Dark Yet” trata de envelhecimento e morte, temas constantes no disco. Esta é uma de suas composições mais delicadas e desoladas: “Ainda tenho as cicatrizes que o sol não curou”. A voz áspera e rouca de um Dylan envelhecido vai contando as derrotas e as tristezas de uma vida já perto do fim: “Ainda não está escuro, mas está chegando lá”.

"Love Sick" (1997)
“Estou andando/Por ruas mortas/Andando/Com você na minha cabeça”. A canção de abertura de “Time Out Of Mind” tem um ar sombrio, como se Bob Dylan fosse um fantasma rodeado por fantasmas. Nada agradável, mas ele não tinha outros terrenos para visitar nessa época de cansaço, vazio e solidão. A combinação do sintetizador com a guitarra cria um clima claustrofóbico, auxiliado pela voz detonada de Dylan. Nos shows do White Stripes, Jack White tocava guitarra e teclado na versão desta música.

"Things Have Changed" (2000)
O Nobel não veio, mas esta canção assegurou o Oscar para Bob Dylan. Trilha sonora de “Garotos Incríveis”, “Things Have Changed” é o retrato de Dylan na velhice: um sujeito amargo e ressentido que dá de ombros para o mundo, mas ainda guarda o espírito libertário da adolescência. “Eu costumava me importar, mas os tempos mudaram”. Não chega a espantar, vindo de um sujeito que já aos 24 anos gritava: “Quando você não tem nada, você não tem nada a perder”.

Dylan tem muitos pontos altos, mas numa carreira tão longa seria impossível não ter alguns pontos baixos. A revista Time compilou aquelas que, na sua opinião, são as 10 piores músicas da carreira do músico. Confira:

"All the Tired Horses"
A faixa de abertura do álbum "Self Portrait" (1970) tem dois versos repetidos ao longo de três minutos por um coro de cantoras, e nada de Dylan.

"Sarah Jane"
Do disco "Dylan" (1973), é uma música com produção péssima. Dylan parece estar cantando em direção a um microfone colocado do outro lado do estúdio.

"Street Rock"
O cantor participou de uma faixa do rapper Kurtis Blow e quis encaixar palavras demais no refrão.

"Ninety Miles an Hour (Down a Dead End Street)"
A performance de Dylan é contida, esquecível e, pior de tudo, não convence na música de "Down in the Groove", de 1988.

"We Are the World"
Bob Dylan não compôs a música (isso ficou a cargo de Michael Jackson e Lionel Ritchie), que tinha boas intenções, mas ela precisava ser tão piegas?

"Tight Connection to My Heart"
Lançada no álbum "Empire Burlesque" (1985), é uma canção pop sem alma, com péssimos backings vocals e um clipe que tenta fazer de um Dylan com ombreiras um símbolo sexual.

"They Killed Him"
Tem um coro de crianças. Não precisa dizer mais nada.

"Forever Young"
É uma música doce, escrita por um pai para seu filho (Jakob Dylan), mas estamos falando de um compositor de enorme talento escrevendo versos dignos de um cartão de aniversário.

"Wiggle Wiggle"
Lançada no péssimo "Under the Red Sky" (1990), soa como a música-tema de um daqueles programas de TV viajantes amados por bebês ou usuários de drogas.

"Rainy Day Women #12 & 35"
Não é de todo terrível, mas teve a má sorte de abrir "Blonde on Blonde" (66), uma obra-prima do século 20. Dizem que Dylan não estava sóbrio quando a escreveu e provavelmente continuava assim quando definiu a lista de faixas para inclui-la.

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