Aos 70 anos, selo Blue Note enfrenta o futuro

Célebre selo de jazz enfrenta vendas baixas e mudanças no mercado fonográfico

New York Times |

Em uma recente comemoração do aniversário de 70 anos do Blue Note Records, realizado no Dizzy's Club Coca-Cola, o saxofonista Lou Donaldson tocava Alligator Boogaloo, sucesso de 1967 que se tornou sua marca registrada. Norah Jones, que estreou na gravadora em 2002 com um disco que vendeu mais de 10 milhões de cópias, se misturava aos outros convidados no bar. E presidindo a noite de festa estava Bruce Lundvall, que dirige a gravadora há 25 anos.

Donaldson, Jones e Lundvall representam momentos importantes ao longo da história da gravadora de jazz mais célebre de todos os tempos. Fundada em 1939 pelo emigrante alemão Alfred Lion, a Blue Note construiu um catálogo que inclui praticamente todas as principais figuras da música: de pioneiros como Sidney Bechet a mestres modernos como Wayne Shorter.

Hoje fazendo parte de uma grande corporação, enfrentando problemas como o arriscado mercado da música e o fantasma da aposentadoria iminente de seu presidente, a Blue Note entra em um momento crucial de sua história. Diversificando seus negócios através de outros estilos musicais, a gravadora chegou no que Lundvall chama de sofisticada área do pop adulto. No ano passado, o álbum campeão de vendas da gravadora foi Lay It Down, do Al Green, que vendeu mais de 175 mil cópias. O segundo lugar foi do álbum ao vivo de Wynton Marsalis e Willie Nelson, que alcançou as 100 mil cópias vendidas.

O dilema atual da Blue Note é como a gravadora poderá continuar como o célebre selo de jazz e, ao mesmo tempo, sobreviver como um negócio rentável. Uma das primeiras coisas que Alfred Lion me disse foi: O que você vai fazer para ser comercialmente viável?, recordou Lundvall recentemente em seu escritório. Esta é uma pergunta que repercute ainda mais hoje.

Identidade

Guitarrista Lionel Loueke lançou sua estreia em CD pela Blue Note no ano passado

Por muitos anos a Blue Note funcionou com um orçamento apertado sob a direção convicta de Lion e seu amigo de infância Francis Wolff. Em seu apogeu no pós-guerra, o selo inundou o mercado com álbuns que definiram a era hard-bop e ajudaram a documentar uma vanguarda emergente.

Não existe uma gravadora, em nenhum outro lugar do panteão dos selos de jazz, com tamanha majestade ou realeza de linhagem, disse o saxofonista Greg Osby, cujo contrato com a Blue Note durou 16 anos.  

Lundvall assumiu o comando da gravadora em 1984, depois de passar mais de duas décadas com a CBS Records e também por um curto período como presidente da Elektra. Quando assumiu, a Blue Note havia passado por um período de estagnação que durou muitos anos, ocorrido após a compra de sua empresa mãe pela EMI. Sob a presidência de Lundvall, a gravadora assinou contratos com as cantoras de jazz Dianna Reeves e Cassandra Wilson, além de outros instrumentalistas renomados - como o tenor saxofonista Joe Lovano e o guitarrista Lionel Loueke, que lançou seu álbum de estreia no ano passado.

Acho Bruce Lundvall parecido com Alfred Lion, por acreditar nos músicos, além de ter um dom enorme de reconhecer quando alguém está no ponto, disso o pianista Bill Charlap, completando: A Blue Note não é mais aquele pequeno selo independente. Ela é agora uma subsidiária da EMI. O músico está em turnê com a Blue Note 7, uma banda de tributo ao aniversário da gravadora. 

A identidade da Blue Note mudou com o álbum de estreia com influências do folk de Norah Jones, que vendeu mais de cinco milhões de cópias no ano que seguiu seu lançamento (número que dobrou desde então). De repente o selo estava recebendo propostas de artistas de outros estilos musicais como Anita Baker, considerada por Lundvall uma artista boa demais para deixá-la passar. Mais tarde, o selo firmou contratos com artistas do folk-rock como Amos Lee e Wood Brothers, além do dueto retro-pop Bird and the Bee.

Estendemos nosso alcance para além do jazz, porém continuamos muito fiéis ao jazz, afirmou Lundvall, citando Loueke e outros contratos a serem assinados ainda neste ano. E uma coisa é certa: isto será desta maneira enquanto eu estiver aqui.

Catálogo lucrativo

Mas, apesar de aclamado pela crítica, o álbum de Loueke vendeu apenas seis mil cópias ¿ e estes números são bastante altos para um lançamento de jazz. Com os artistas sérios do jazz, nossa meta é atingir cobrir os custos com as vendas ou ter um lucro pequeno. Você mantém os orçamentos sob controle, faz o melhor trabalho de marketing possível e mantém os artistas enquanto eles vão se desenvolvendo.

O resultado ideal desse tipo de investimento é formar um catálogo, pedra angular do legado e do negócio da Blue Note (No ano passado, o álbum de John Coltrane de 1957, Blue Train , vendeu 15 mil cópias, enquanto Maiden Voyage , álbum de Herbie Hancock de 1965, vendeu 10 mil cópias. Dados fornecidos pela empresa Nielsen SoundScan). Mas, embora no passado o catálogo fosse responsável por cerca da metade do faturamento da Blue Note, esta parcela já chega a um terço atualmente. Segundo Lundvall, isto ocorre porque os álbuns já estão disponíveis há muito tempo.

No ano passado, o selo fez uma rodada de anulações em catálogo: qualquer título que tivesse vendido abaixo de 350 cópias no período de 12 meses estaria em situação vulnerável. Fãs do jazz ficaram alarmados ao constatar que diversos títulos significativos estavam na lista. Lundvall disse entender o protesto: Agora estou monitorando esta ação como um falcão, pois algumas coisas fugiram do meu controle da última vez.

Segundo o executivo, os álbuns eliminados do catálogo ainda estão sendo oferecidos em formato digital. Existem promoções destes títulos através de serviços online como o iTunes e o Rhapsody. Além disso, em comemoração ao aniversário de 70 anos da gravadora, a Amazon acabou de introduzir a exclusiva série de CDs sob encomenda Back From the Vault, com mais de 200 títulos fora de catálogo.

Quando indagado sobre como seria o futuro da Blue Note sem Lundvall, o saxofonista Osby, que hoje tem seu próprio selo, respondeu: Minha resposta é: eu não sei. Ele é o último sobrevivente, é como Clint Eastwood. E quando ele se aposentar eu não consigo ver o futuro.

É claro que ninguém da EMI vê este fato da mesma maneira. Lundvall disse que iria montar uma empresa de consultoria depois de se aposentar. Não quero ficar sentado em casa ou cortando a grama. Não quero virar um daqueles guardas que ficam ajudando as crianças a atravessar a rua. Quero continuar fazendo o que faço.

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