Aos 43 anos, Tricky continua um provocador

Em entrevista ao iG, músico inglês comenta a glamourização da volência na música e fala sobre seu mais recente disco, "Mixed Race"

Thiago Ney, iG São Paulo |

Nos anos 1990, Tricky ajudou a criar um gênero musical, fez parte de uma bem-sucedida banda e ganhou elogios até de David Bowie. Para muitos artistas, a acomodação seria inevitável. Não é o caso de Tricky - aos 43 anos, o britânico continua um provocador.

Divulgação
O músico inglês Tricky, que lança no Brasil seu nono disco, "Mixed Race"

Nascido em Bristol (Inglaterra), Tricky fez parte do Massive Attack, banda que com o disco "Blue Lines" mostrou ao mundo o trip hop - música feita a partir de bases eletrônicas lentas, densas, dark, com vocais influenciados pelo hip hop e arranjos climáticos emprestados do dub jamaicano.

Era 1991: o Reino Unido vivia há anos sob o comando do Partido Conservador (primeiro com Margaret Thatcher, até 1990; depois, com John Major) e a economia do país caminhava para uma recessão. O trip hop funcionava como a trilha perfeita para jovens desacreditados.

Tricky não durou muito no Massive Attack. Deixou o grupo para lançar o álbum solo "Maxinquaye", um clássico contemporâneo. Soul, eletrônica, hip hop, dub: estava tudo ali. "Tricky chega para embaralhar a minha cabeça", escreveu Bowie à época, em uma revista. Essas influências estão ainda em "Mixed Race", o nono disco de Tricky, que ganha lançamento no Brasil (pelo selo Lab 344).

"Acho este disco muito mais forte", Tricky diz ao iG , por telefone, comparando com o álbum anterior, "Knowle West Boy" (2008). "Vivo coisas diferentes."

E começa a provocação:  "Música tem a ver com o seu ambiente, como você vive, como se relaciona com o mundo. Por isso não ouço mais hip hop. Os rappers são milionários, são a classe dominante. E querem cantar sobre violência, armas? É ridículo. Não dá para falar sobre como a vida é difícil quando você tem 10 milhões no banco."

Para Tricky, "Mixed Race" é um disco sobre dificuldades. "É um disco para pessoas que lutam para sobreviver." É um disco, ainda, em que as letras e as melodias se aproximam do hip hop. Como no single "Murder Weapon" e em "Guetto Stars".

"Sim, o hip hop ainda é uma influências, mas hip hop antigo, não o que se produz hoje. Não gosto do que Jay-Z está fazendo. Ouço hip hop francês, até russo. Não entendo nada do que eles está dizendo, mas me identifico mais do que quando ouço Jay-Z. Não sou milionário, não sou superstar, então não entendo o que Jay-Z está dizendo e vivendo."

Em "Mixed Race", Tricky chamou algumas cantoras para dar voz às suas letras. Como Frank Riley, que ele encontrou por meio de um anúncio ("Ela trabalhava em uma loja de roupas. Quando começou a cantar na audição, sabia que era perfeita") e Terry Lynn ("Um amigo me mostrou uma música dela e eu me apaixonei").

O disco foi produzido em Paris, onde Tricky vive - antes, havia morado nos EUA. "Para mim, Paris é melhor para trabalhar. Los Angeles tem um tempo ótimo, Nova York é cheia de coisas para fazer, são cidades que me tiram do estúdio. Em Paris, me concentro na música." Para o músico, ir ao estúdio é como "fazer ioga ou tai chi chuan. Muito relaxante".

Tricky criou e habita um universo à parte da música pop. "O problema é que hoje os músicos seguem o que as rádios estão tocando. Se estão tocando reggae, um monte de gente vai fazer reggae. Se estão tocando dance, vão fazer dance. Você não deve seguir as rádios; as rádios é que devem seguir você."

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