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Ana Carolina BR Multishow ao Vivo / Dois Quartos

Marco Tomazzoni |

Por Marco Tomazzoni

Com mais de cinco milhões de discos vendidos nas costas, Ana Carolina chegou a um ponto da carreira em que pode ter pleno controle de tudo que a cerca. O melhor exemplo disso é o CD e DVD Multishow ao Vivo: Ana Carolina ¿ Dois Quartos , mais um projeto da emissora, que antes disso lançou as bem-sucedidas empreitadas com Ivete Sangalo e Caetano Veloso. Ana não só assina o roteiro e direção musical do espetáculo, gravado em novembro no Credicard Hall, em São Paulo, mas também inaugura seu próprio selo, o Armazém.

Tanto cuidado, aliado ao belo cenário, iluminação e a direção de Monique Gardenberg, poderiam indicar um acerto na discografia da cantora, mas não é o caso. O principal culpado é o repertório do show, baseado no irregular Dois Quartos , álbum duplo lançado em 2006. Sem ter conseguido repetir o esmagador sucesso nas rádios de trabalhos anteriores, o disco continua sua sina ao tornar o show sem brilho e deixa a criatividade, esboçada em certos momentos do vídeo, esquecida em algum lugar.

Isso não transparece, claro, para os fãs enlouquecidos que compareceram às duas apresentações na capital paulista. Formada em grande parte por mulheres, a massa extravasa sua devoção desde o início, gritando Ana, eu te amo ainda no lado de fora, como mostra o making-of que acompanha o DVD. O delírio explode quando Ana adentra o palco, debaixo de uma chuva de prata.

O início acontece em grande estilo, com o pout-pourri  que une Cantinho, Fever e Eu Sou Melhor que Você. A letra descarada da primeira e da terceira (Todo homem tem voz grossa e tem pau grande, que é maior do que o meu, do que o seu, do que o de todos nós) é recebida com entusiasmo pela platéia, que comemora a traquinagem. Acompanhada só por baixo, estalos de dedo e pelas excelentes backing vocals (que iniciaram a carreira com Toni Tornado, na década de 1970), anima e abre caminho para a também polêmica Eu Comi a Madona.

A música provocou reações divididas na estréia da turnê em Belo Horizonte, por mostrar cenas supostamente homoeróticas no telão. No registro do show, só restaram inocentes imagens de pinups brincando de lingerie, que, hoje em dia, não chocam ninguém. A canção, por outro lado, provoca frisson no público, que grita gostosa e reage o tempo todo aos sussurros e às danças sensuais de Ana.

A empolgação geral, no entanto, se dilui em seguida, com Tolerância, Carvão e outras faixas de Dois Quartos . E aqui já aparece a opção equivocada em adotar cordas no show inteiro: ao invés de sofisticação, elas empobrecem e só deixam a mostra o quão piegas são as músicas. Nada te faltará, agressiva; Aqui, acompanhada por violoncelo; e a esperta Notícias Populares são honrosas exceções, mas não salvam o espetáculo, que não deixa de lado dois dos maiores hits da carreira de Ana, as versões pouco inspiradas de The Blowers Daughter (É isso aí) e La Mia Storia Tra Le Dita (Quem de nós dois).

O ponto alto é o bloco em que a cantora interpreta sambas de sua autoria. Além de mostrar um talento nato para o gênero, deixa evidente sua habilidade no pandeiro (ela engrena um duelo memorável com o percussionista) e mostra canções até então inéditas em sua voz, caso de Cabide, escrita por ela, mas que só havia sido gravada por MartNália. É a mesma situação de Eu que não sei quase nada do mar, escrita em parceria com Jorge Vercilo sob encomenda de Maria Bethânia e que tem sua estréia aqui.

Se há restrições quanto ao repertório e rumo musical de Multishow ao Vivo , o mesmo não se pode dizer de Ana Carolina ¿ a voz grave da cantora paira intocada por toda a apresentação, com o brilho e competência de sempre. No poema original de Mano Mello que inspirou Eu Comi a Madona, a pop star acabava a história saindo abraçada com Ângela Rô Rô. Isso, mais o depoimento elogioso de Cássia Eller que vem como bônus no DVD, ilustra e dá o último nó na árvore genealógica da cantora. Ana deve continuar, como declarou recentemente, a ser a voz de meninas que gostam de meninas da nova geração, mas se quiser, como suas antecessoras, conquistar lugar cativo na música brasileira, vai que ter arriscar mais.

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