Agnaldo Timóteo: 'Querem que eu seja um pretinho bem-acomodado'

Cantor conversa com o iG sobre sexualidade, política, ditadura militar, grande mídia e rivalidades na MPB

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Marcela Tavares
"Eu sou o maior cantor romântico do Brasil na atualidade", afirma Agnaldo Timóteo em entrevista ao iG
Uma das estrelas do festival “Salve o Compositor Popular!” , o também vereador paulistano Agnaldo Timóteo fala em entrevista ao iG sobre o show de domingo, a sexualidade em suas canções, a rivalidade entre “emepebistas” e “cafonas”, os tempos de praticante de luta livre e chofer de Angela Maria, sua maleabilidade política da ditadura militar a Dilma Rousseff.

iG: O que você vai cantar no Sesc?
Agnaldo Timóteo: Vou cantar músicas que nosso produtor considera que eram polêmicas, mas passaram batidas e não foram questionadas pelos militares. Eu sempre explico: nunca agredi ou desrespeitei os militares, e os militares nunca me desrespeitaram, deixaram eu viver minha vida, nunca se meteram comigo. Por isso passaram batidas “A Galeria do Amor” (1975), “Perdido na Noite” (1976), “Amor Proibido” (1974) etc. São todas músicas de duplo sentido.

iG: Por que você diz que são de duplo sentido?
Agnaldo Timóteo: A Galeria Alaska era onde se encontravam os homossexuais e as mulheres lésbicas, que hoje se chamam de GLTB, sei lá o quê. Era um lugar que tinha teatros, e as pessoas bonitas transitavam por lá sempre procurando alguém, os homossexuais homens e mulheres sempre procurando parcerias para ir curtir a vida. Uma noite cheguei na minha casa cheio de dinheiro de uma temporada em São Paulo, debrucei aquela dinheirama toda na minha gaveta. Não é como hoje, que o show do Roberto Carlos custa R$ 500 mil, o da Ivete Sangalo custa R$ 500 mil e o meu custa R$ 35 mil e, se não tem R$ 35 mil, eu vou por R$ 25 mil. Naquele tempo nossos shows eram muito baratinhos, mas mesmo assim eu ganhei muito dinheiro. Olhei pra um lado, olhei pro outro, não tinha ninguém pra dormir comigo. Peguei meu carro do ano, lindo, cor de ouro e fui passear, fui paquerar na Galeria Alaska. Lá vi o ambiente e fiz a música.

iG: Ou seja, é uma canção gay, não exatamente de duplo sentido.
Agnaldo Timóteo: É uma canção de amor, uma canção de amor que também vai ao encontro dos homossexuais, uma canção gay (declama): “Na galeria do amor é assim/ muita gente à procura de gente/ onde a gente que é gente se entende/ onde pode se amar livremente”. “Amor Proibido”, da saudosíssima Dora Lopes, é uma música de amor, que está evidentemente inserida também nas histórias das pessoas que vivem seus romances não muito convencionais.

iG: Não pode ser que a ditadura não o incomodasse por não perceber isso?
Agnaldo Timóteo: Não, porque eu sempre fazia de uma maneira respeitosa. Não fazia nada para agredir. Aqui nós tínhamos essa ditadura militar, e lá em Cuba nós tínhamos a democracia do Fidel Castro. Todo mundo que era contra os militares aqui era puxa-saco de Fidel Castro lá. Qual é a diferença? Eu sempre me posicionei de maneira muito contundente contra essa farsa. A ditadura do Fidel Castro lá, sim, a ditadura dos militares aqui, não? Que negócio é esse? Talvez isso também tenha, sei lá, me beneficiado, porque eu não era, como não sou, desrespeitoso com nenhum sistema de governo. Fui Maluf quando houve a eleição indireta para presidente, briguei pelo Maluf. Hoje eu não faria mais isso, porque outro dia ele provou que não merecia que eu houvesse brigado por ele. Briguei muito, quase arruinei a minha vida, não só a minha carreira. Agredi o doutor Roberto Marinho, e quando vi que estava errado tive que pedir perdão a ele.

Divulgação
Agnaldo Timóteo entre Dilma Rousseff e Lula: "Essa mulher não pode ser antipática", diz cantor
iG: Por que quase destruiu sua carreira? Por razões políticas?

Agnaldo Timóteo: Não, porque a democracia tem dois vieses. Se você está de bem com quem está no poder, tudo bem. Se você bate de frente, tudo mal. A democracia é uma ditadura parcial. O regime militar é uma ditadura imparcial, porque dança todo mundo. Fui o primeiro a vir a público na tribuna da Câmara Municipal de São Paulo para dizer que havia um grande equívoco em relação à Dilma Rousseff, que ela era extremamente simpática. No dia em que eu estava com Lula lá no palácio e ele pegou o telefone e disse “Dilma, sobe aqui pra conhecer o Agnaldo Timóteo”, ela chegou com um sorriso mais bonito que o da Elke Maravilha. Essa mulher não pode ser antipática, fui o primeiro a proclamar que ela é uma mulher simpática. Hebe Camargo fez uma entrevista horrorosa com ela.

iG: Por quê?
Agnaldo Timóteo: Horrorosa, perdeu a oportunidade de perguntar o hoje, o ontem, o amanhã. Perdeu a oportunidade de fazer uma entrevista iluminada, de falar sobre o que ela fez no passado, sua posição política. Foi terrível, “eu vou ajoelhar pra você”. Tenha piedade, meu Deus do céu, acho que vou falar pessoalmente com ela. Não se pode perder uma oportunidade como essa. Fiz agora um disco iluminado em homenagem à Dilma e a todas as mulheres, “A Força da Mulher”, no qual regravei “Maria”, do Johnny Mathis, “Michelle”, em homenagem à mulher do Barack Obama, “Roberta”, em italiano, “Aline”, em francês, três em francês – “Manoela”, “Natalie” e “Maria Bonita”, e sete em português. Só músicas com nome de mulher.

iG: Você está gostando do governo da Dilma?
Agnaldo Timóteo: Há uns dias pedi uma audiência com Delfim Netto e conversamos sobre a Dilma. Ele disse, de uma maneira irretocável: “Agnaldo, ela é muito inteligente e muito trabalhadora, vai ser uma grande surpresa para este país”. Espero que o Delfim esteja certo. Eu torço pra isso, porque o Lula foi um show de presidente, um show, e espero que ela dê continuidade.

iG: Plateias como a do Sesc não costumam ter preconceito contra sua música?
Agnaldo Timóteo: Não! Quando fiz a minha cirurgia de próstata fui fazer um show no Sesc da zona leste. Você não tem ideia do que aconteceu, milhares de senhoras com lenços dizendo que rezaram por mim. Continuo brilhando, pra dizer todo dia: tô vivo, tô vivo, tô vivo. Porque eles matam a gente em vida, e eu não quero que me matem.

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Sobre sua personalidade forte: "Eles não gostam disso, querem que eu seja um pretinho bem-acomodado".
iG: Eles quem?

Agnaldo Timóteo: A grande mídia, todas as redes. Quer um exemplo? Fui à gravação do primeiro programa da Hebe Camargo na RedeTV, aluguei black-tie, escolhi tudo belíssimo. Sabe quantas vezes apareci? Nenhuma. Mostraram quase todo mundo, 200 vezes o Roberto Justus, menos eu. Eles nem me queriam lá, só fui porque fui convidado pelo dono da empresa. Eles querem nos matar, e eu não deixo.

iG: Mas por que querem matar você?
Agnaldo Timóteo: Primeiro porque sou muito carismático, tenho personalidade muito forte, você não tem dúvida disso, né? Quando tenho que me manifestar, faço de acordo com a minha sensibilidade, e não de acordo com o que diz William Bonner. E eles não gostam disso, querem que eu seja um pretinho bem-acomodado, que não discorde de nada, igual ao Jair Rodrigues, igual ao Roberto Carlos. Não. Então a grande mídia sempre quer me destruir, mas vai ter que esperar um pouquinho.

iG: Estamos falando de preconceito?
Agnaldo Timóteo: Não há dúvida. Tudo aquilo que faço, se tivesse sido feito pelo Chico Buarque, era outro papo. Quando cheguei na tribuna e falei “alô, mamãe”, levaram na gozação, ninguém percebeu que eu estava dizendo para meus nobres colegas de onde vim, como vim e por que vim. Contei minha história, e entrei na porrada, fizeram chacota. Imagina se fosse Chico Buarque ou Caetano Veloso. “Gênio, gênio!” Mas tenho que conviver com isso.

iG: Qual seria o preconceito? De estilo musical, de cor, do quê?
Agnaldo Timóteo: Da cor não acredito. Não acho que seja pela minha etnia, e sim pelo meu temperamento, pela minha conduta. Eles não me perdoam, porque sou muito independente. Sou apaixonado pelo Lula. Não era assim, cansei de dar porrada no PT, falar mal do Lula, até que fui percebendo o monstro de homem público que ele se tornou. Quando falo com Lula, nos falamos como dois colegas de trabalho, porque sou torneiro mecânico e ele também. Eu tenho 74 anos, ele é mais jovem que eu. As pessoas não se veem no espelho, elas querem ver outras pessoas.

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Agnaldo Timóteo durante cerimônia de posse dos 55 vereadores de São Paulo, em 2009.
iG: Vai cantar “Os Brutos Também Amam” (1972), que Roberto e Erasmo Carlos fizeram para você?

Agnaldo Timóteo: Essa música tem o nome dos dois, mas quem fez foi o Roberto, porque eu pedi. “Frustrações” (1973) foi só Erasmo, éramos vizinhos no Rio, fui à casa dele e pedi. Mas “Os Brutos Também Amam” eu fui lá, contei a história, com quem estava vivendo, que me chamou de bruto, disse que eu era ignorante, e Roberto fez pra mim.

iG: Era a sua história então?
Agnaldo Timóteo: É, e a música que levei pro Gonzaguinha e ele deu pra Maria Bethânia? Fui, contei a minha história, “ô, Gonzaguinha, eu moro com uma figura maravilhosa, estou alucinadamente apaixonado, mas vou acabar tendo que mandar embora. Faz pra mim uma música com o nome ‘Um Grito de Alerta’?”. Ele suprimiu o “um” e fez “Grito de Alerta” (1979). Ficou pronta, mostrou pra Maria Bethânia, ela gostou, ele deu pra ela, ela foi pra novela da Globo, quem fez sucesso? Ela. A música é a minha vida, a minha cama, a minha paixão, a minha história que levei ao Gonzaguinha, e ele deu à Bethânia. Com Roberto Carlos, nós tínhamos intimidade, contei pra ele com quem eu estava vivendo – não vou falar pra você –, e ele fez.

iG: Era um homem?
Agnaldo Timóteo: Fui lá, contei pra ele que eu era apaixonado e que a maravilha com quem eu dormia havia me esculachado e me chamado de ignorante. Não me pergunte se era Watusi, Paulo César, Adriana, Eduardo, não me pergunte. Era alguém que dormia comigo e por quem eu era apaixonado, e ponto final.

iG: Minha xeretice é porque seria legal saber que Roberto Carlos era um cara pra frente, que não tinha esse tipo de preconceito.
Agnaldo Timóteo: Não tenha dúvida, mas ele deveria ser mais pra frente. Deveria ser mais politicamente participante, mais audacioso, pelo prestígio e pela independência que tem. Mas cada um tem seu estilo de vida.

iG: E qual é a história de “Frustrações”?
Agnaldo Timóteo: Estava cheio de dinheiro e me senti frustradíssimo por ser famoso, no esplendor da carreira, chegar em casa cheio de grana e não tinha uma pessoa com quem eu fosse dormir, que me fizesse bem, me deixasse mais relax, apertasse meu calcanhar, fizesse carinho nas minhas pernas. Peguei meu carro e pedi pro Erasmo fazer (canta com vozeirão): “Quando me perguntam pela rua como vai a minha vida ou coisa assim/ respondo calado/ não se iluda, companheiro, se aparento ter dinheiro/ mas pensei em merecer coisa melhor/ amante, amado”.

iG: É na capa desse disco que você está sozinho num estádio de futebol vazio, não é?
Agnaldo Timóteo: Num estádio vazio, não, eu tô no Maracanã, menino! Aquilo é o Maracanã!

iG: É uma imagem de solidão?
Agnaldo Timóteo: Não, é porque outra das minhas grandes frustrações é que nunca joguei futebol, e eu registro isso naquele long-play. Eu não me permito solidão. Eu pego meu carro, vou pra rua e paquero. Minha casa agora tá entupida de gente, moram aqui o Lucas, o outro Lucas, o Michael e o Marcos. Eles fazem a alegria da minha casa.

iG: A história de você ter sido motorista de Angela Maria é real, ou é folclore?
Agnaldo Timóteo: Não, não, não. Angela Maria foi fazer uma apresentação em Belo Horizonte, e eu era o Cauby Peixoto mineiro. Ela no hotel, aguardando para ir ao local do show, me ouviu cantar e perguntou: “Quem é este rapaz?”. “É o Caratinga.” Era o meu apelido, eu era lutador de catch lá em Belo Horizonte.

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Agnaldo discursa em campanha de Paulo Maluf à prefeitura de SP, em 2004: "Hoje eu não faria mais isso."
iG: Lutador…?

Agnaldo Timóteo: ...De catch, luta livre. Eu era lutador da ACM, Associação Cristã de Moços. Praticava luta livre tradicional, lutava nos ringues com lutadores profissionais, fazia espetáculo. Usava cabelo liso, fazia um espetáculo, era bom nisso. Então, quando Angela chegou à Rádio Inconfidência, foi ao meu encontro e disse: “Olha, se você for para o Rio você vai fazer sucesso”. No outro dia peguei dinheiro com alguns amigos meus, paguei a pensão, peguei o ônibus e fui embora pro Rio (ri).

iG: Foi bater na porta da Angela Maria?
Agnaldo Timóteo: Não, não, eu fui bater na porta de um primo em Cascadura. Dormi lá uma noite, a dona falou que eu não podia ficar, ele me levou pra uma hospedaria, fui à luta. Um dia o homem da Angela Maria disse que ela precisava de um motorista e perguntou se eu não queria dirigir pra ela. Fui dirigir pra Angela Maria, aí buscava a comida da Angela Maria, a roupa, o calçado. Levava pra televisão, ela tinha um programa chamado “A Estrela Canta” na TV Tupi. Enfim, fui o maravilhoso motorista da Angela Maria.

iG: E ela sabia que seu motorista era um artista talentoso...
Agnaldo Timóteo: Ela me recomendou pra gravadora dela, Copacabana. Fui lá, fiz um teste, o babaca que me atendeu falou: “Agnaldo, você canta bem, mas nós temos Agnaldo Rayol, Moacyr Franco e Wanderley Cardoso. Como é um pedido da Angela, pode ser que alguém se interesse, mas nós já temos esses cantores”. Fui embora, daqui a pouquinho a Odeon me chamou, estava com tudo prontinho, “surge um astro”. E esse astro está no ar há 47 anos (gargalha).

iG: Há aquela história de que os artistas mais populares sustentavam a gravação de discos de Chico, Caetano, Elis…
Agnaldo Timóteo: Claro, nós é que dávamos o lucro, eles naquele tempo não vendiam. Uma vez peguei o Milton Nascimento, que é uma doce e maravilhosa figura. Ele estava na avenida Copacabana esperando um táxi. Botei no meu carro, já era um belo carro importado, e fomos pra Odeon. Tocou no rádio uma música do Nilton César (canta, quase gritando), “à Índia fui em férias passear…”, Milton falou: “Minha Nossa Senhora, que absurdo” (gargalha), na minha cara! E eu fazia parte daquele grupo que cantava essas coisas, né? Milton ficou apavorado com a gravação do Nilton César, que realmente não era uma boa música.

iG: Como você reagiu?
Agnaldo Timóteo: Não, bobagem, Milton Nascimento, com aquele sorriso… O sorriso dele no primeiro long-play era sorriso de Deus, eu não podia brigar com um negão daquele.

iG: Mas de fato havia uma barreira entre as duas turmas?
Agnaldo Timóteo: Você sabe que eu tinha ódio da cobertura que davam pra esse pessoal da esquerda. Eles eram rotulados como cantores de esquerda. Todos gostavam de dólares, de ser milionários, mas eram de esquerda. Então eu tinha pavor daquilo. Uma vez fiz uma entrevista no “Pasquim” e fui extremamente grosseiro com Caetano Veloso. Quando o conheci pessoalmente quase morri de vergonha, é uma pessoa tímida, agradável. Falei mal de Maria Alcina. Quando conheci, só faltei beijar os pés de Maria Alcina e pedir perdão. Esses erros cometidos lá no início da carreira hoje não cometo mais, fui me moldando.

iG: Eles devem ter cometido com você também, não era recíproco?
Agnaldo Timóteo: Não, eles nunca foram grosseiros comigo.

iG: A história do Milton não foi diretamente com você, mas…
Agnaldo Timóteo: Mas eu nem o condeno pela sua reação, porque realmente a música era chocante (canta), “à Índia fui em férias passear…”. Realmente não era como gravar (canta) “there is a house in New Orleans/ they call the rising sun…”.

iG: Mas a gente não ouve essas pessoas elogiarem Agnaldo Timóteo publicamente.
Agnaldo Timóteo: Hoje eles não precisam me mencionar, eu sou o maior cantor romântico do Brasil na atualidade. Tenho convicção absoluta do que represento.

iG: Não precisam, mas poderiam.
Agnaldo Timóteo: Ah… Eu não o digo, não o proclamo por vaidade, mas sim por absoluta convicção. Eu sei como sou no palco. Dou o mesmo lá natural que dava em 1965 no Rio Hit Parade, com a maior facilidade.

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