A relação de Nick Cave com o Brasil

Ex-mulher e amigos relembram passagem do roqueiro na década de 1980

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

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Nick Cave com os arranha-céus de São Paulo ao fundo, há 30 anos
Nick Cave não era o artista mundialmente aclamado de hoje quando veio tocar no Brasil com sua banda, The Bad Seeds, em 1989. Atraíra alguma atenção na virada dos anos 70 para os 80 como líder da banda pós-punk (e underground) The Birthday Party, e com os Bad Seeds havia lançados discos de respeito no circuito “art rock”, como Kicking Against the Pricks (1985) e Tender Prey (1988). O que a princípio seria uma passagem rápida por um país distante acabou por mudar o curso de sua vida, a ponto de Nick vir morar no Brasil entre 1990 e 1993.

Em São Paulo, aproximou-se dos jornalistas Bia Abramo e Thomas Pappon, da (hoje extinta) revista musical Bizz. Bia o apresentou à amiga Viviane Carneiro, que trabalhava na editora Abril e iniciou um romance com Nick entre noitadas no templo underground da época, o Espaço Retrô. “Decidimos que eu ia morar com ele na Inglaterra, mas logo fiquei grávida, e Nick mesmo falou que era melhor virmos para o Brasil”, conta Viviane, que vive em Londres e hoje é psicoterapeuta. Em 1990, foram morar na Vila Madalena, e em São Paulo nasceu Luke, que hoje tem 19 anos e planeja ser cientista.

The Good Son foi muito inspirado na primeira viagem de Nick ao Brasil”, ela lembra, referindo-se ao disco de 1990 que começa com uma canção de inspiração religiosa em português, "Foi na Cruz". “Muitas músicas de Henry’s Dream (de 1992) ele escreveu aí.”

Segundo Bia Abramo, o Brasil foi importante para o músico num momento em que ele havia passado por uma desintoxicação de heroína. “O Brasil era um bom lugar para isso, a heroína era muito rara aqui. A gente não saía em público, se reunia para fazer som, ouvir som. Era caseirinho, acho que a ideia dele era mesmo dar uma recolhida. Era São Paulo pré-internet, foi mesmo um recolhimento, uma hibernação”, diz a jornalista.

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Nick Cave canta com a The Bad Seeds em Sydney, na Austrália, no ano passado
“Quando conheci Nick ele estava clean, não estava tomando drogas pesadas. No fim da nossa relação ele começou a pegar pesado de novo”, lembra Viviane. “Não acho que tenha ido ao Brasil se limpar, não é bem assim. Não estava tomando heroína, o que não quer dizer que não estava bebendo um monte e fazendo outras coisas”, ri. “Olhando para trás, foi difícil para ele. Tinha a coisa de não falar português, não conseguiu ficar muito independente. A gente era tão jovem, foi um momento muito legal para nós.”

Segundo Bia, o artista não se ligou especialmente ao Brasil: “Não se interessava pelo rock brasileiro, nem pela música brasileira. Nick ficou muito ressentido com o Brasil, não só por causa da imprensa burra e babona, mas também porque não rolaram mais shows aqui. Os tempos eram mais esquisitos que hoje”.

O cantor e Viviane se mudaram para Londres em 1993, e ficaram juntos até pouco antes do lançamento de Murder Ballads (1996), que se tornaria seu disco mais bem-sucedido comercialmente até então. Adiante, viriam novos trabalhos festejados pelos críticos musicais, como The Boatman’s Call (1997) e Abattoir Blues/The Lyre of Orpheus (2004).

Viviane diz que não leu A Morte de Bunny Munro (editado lá fora no ano passado). “Não li, nem tenho a menor vontade de ler. Sei do que se trata e, apesar de ser um personagem, acho difícil ficar lendo uma pessoa com quem fui casada falando sobre fantasias sexuais que nós tínhamos”. Atualmente, o artista prepara, para setembro, o lançamento do segundo disco com a banda Grinderman, que montou paralelamente aos Bad Seeds.

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