A nova mixtape de Emicida, faixa a faixa

O rapper explica cada uma das 18 músicas de seu novo trabalho

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial do iG Cultura |

Augusto Gomes
Emicida: nova mixtape acaba de ser lançada
"E Agora?" – “Agora nós tem carro, casa, comida,/ e vai cantar que não dá pra vencer na vida?”, indaga Emicida nos primeiros versos de Emicídio. Com esse desafio, busca quebrar o tabu de que o rap deva retratar apenas as mazelas da periferia, mesmo que seus autores tenham avançado na escala social. “Eu nem tenho carro ainda, mas tenho opção de ter”, ele diz. “Que o rap fale da favela, mas seja maduro o suficiente para dizer que é possível vencer e superar as dificuldades.”

"Cê Lá Faz Ideia" – Essa rima fala dos sentimentos de um cidadão negro quando um taxista se recusa a transportá-lo por medo de ser assaltado, ou quando um cidadão branco atravessa a rua ao vê-lo de longe. “Algumas coisas nunca mudam”, afirma a letra, num lamento, antes de narrar casos de discriminação racial, assumir o “ódio” que provocam e desaguar no eloquente refrão: “Cê lá faz ideia do que é um vidro subir, alguém correr, quando avistar você?/ não?/ cê não faz ideia, não faz ideia, não faz ideia, não faz”.

"Rinha (Já Ouviu Falar?)" – Aqui começa o bloco em que Emicida revisa o próprio passado e o compara com o presente. O tema é a fase das batalhas de MC e da rinha de freestyle que acontecia em Interlagos, onde ele começou a se destacar. “Foi uma prova concreta de que o rap se fortalece mais pelas margens da cidade que qualquer lugar. Hoje a rinha acontece na rua Augusta, fiquei triste quando veio para o centro. Pegar o que a gente tem de melhor e levar para o centro é uma perda, uma derrota na guerra.”

"Isso Não Pode Se Perder" – Desenvolvendo o mote de Rinha, aborda criticamente o momento em que o rap troca os espaços improvisados de apresentação ao ar livre pelo ambiente fechado das casas noturnas. “As pessoas veem como uma conquista, mas não é. Sua personalidade é moldada com base no que você ouvia aos 15 anos. Ficar restrito a casas noturnas para maiores de 18 anos mata a próxima geração do hip-hop.”

"Santo Amaro da Purificação" – Aqui, Emicida trata do sincretismo religioso em que sempre viveu. “Acho o nome da música bonito, só depois descobri que é a cidade onde nasceu o Caetano Veloso”, ri. Mas é sua mãe, Jacira, quem assume a explicação: “Fomos budistas, católicos, frequentamos o Brasil para Cristo. Se convidar a gente vai”. Hoje estudante de diáspora africana e dos orixás do Candomblé no Instituto Cultural Cachoeira, ela lembra: “Estudei em convento, era só rezar e apanhar. Queriam que eu fosse freira, e saí de lá virada no cão. Para eles tudo é pecado, eu tinha essa birra com Deus”.

"Então Toma" – “É um rap sobre o rap”, explica Emicida. “Lendo o poema A fúria da Beleza, da Elisa Lucinda, fiquei pensando em como as coisas bonitas são violentamente bonitas. Quis falar de conquistas, de como é ter suas coisas.” Diz a letra: “Não tá entendendo, tio/ modéstia nunca foi meu forte memo/ em vez de reclamar (…) eu fui trabalhar e arrumei espaço pro meu rap”.

"Emicídio" – “Quem ganha mais com a miséria?/ os políticos, o Datena ou o rap?”, fulmina Emicida na faixa mais cortante da mixtape. O propósito é ampliar o discurso do rap e reconhecer que, para isso, o movimento precisa se analisar e se autocriticar. “Muitas pessoas se acostumam a dizer que as coisas não acontecem em certos lugares da sociedade. Fui na Globo, participei do Jô Soares e do Altas Horas, de programas que todo mundo fala que tenho que pagar pra entrar. Comigo não foi assim. Reclamar é um lugar muito cômodo, ‘as coisas não viram porque vim da favela’. Os políticos aparecem de tempos em tempos, retratam miséria e sofrimento e somem. Datena faz isso o tempo todo. E a gente, no rap, está fazendo a mesma coisa.”

"Santa Cruz" – “Essa fecha o bloco de raps sobre o rap.” O tema é a batalha de freestyle que frequentava quando adolescente – e que acontece até hoje, todos os sábados, na estação Santa Cruz do metrô, na zona sul paulistana, para interessados de todas as idades e locais.

"Velhos Amigos" – Leandro homenageia seus amigos, aos quais dedica nominalmente “esta canção” – sim, o rap pode ser mais falado que cantado, mas para Emicida ele é canção, é música popular brasileira. “Fulano casou/ sicrano morreu/ beltrano mudou, desapareceu/ um virou pastor/ outro se perdeu”, enumera. Homenagem à parte, ele diz que não costuma lotar seu palco de amigos e companheiros, como é comum no rap nacional. “Vejo lá muita gente que não faz nada. Querer subir no palco é legal, mas, pô, faz alguma coisa!”, brinca.

"Rua Augusta" – A faixa mais lírica do CD fala da rua paulistana central onde faz grande parte de seus shows atuais, mas a aborda identificando-se com a ótica das prostitutas que trabalham nas calçadas: “Contando as horas com casaco de visom/ do olho a cor tá combinando com o batom/ atenta nas buzinas ela vai pelo som/ escrevendo sua história com neon”. O desafio, aqui, é à misoginia no rap e na sociedade: “Muita gente tem a vida delas como fácil, mas não é. Os caras passam jogando ovo, pedra, estão sujeitas a tanta coisa”.

"I Love Quebrada" – “É um filme de passear pelo morro, pelas coisas boas do morro. Várias pessoas nunca foram para Nova York e usam aquelas camisetas ‘I love New York’, eu amo o lugar de onde vim”, diz. “Como diz o (rapper) Funk Buia, o leão não escreve, quem conta a história é o caçador. O maior sonho da gente é ver a favela ser retratada por dentro.” É o que faz I Love Quebrada: “Não que eu queira fugir daqui/ eu quero é viver de renda pra pretinha bonitinha de sainha apertada/ de preguinha, curtinha, toda emperiquitada”.

"Eu Gosto Dela" – “Parece música de amor, mas fala de como as mulheres mudam de humor. Acho que é de humor, não de amor”, ele ironiza o rap mais romântico da mixtape, todo formulado com rimas em “ina”e “ona” (“menina”, “mandona”, “valentona”, “ilumina”, “amazona”, “bonitona”, “maracujina”, “bela dona”, “popstar Madonna”, “brigona”, “sabichona”, “ave de rapina”, “brincalhona”).

" Só Mais Uma Noite" – “É a música que eu mais ouço”, classifica a faixa funkeada que fala da noite e do mal-estar que às vezes acomete o artista no palco. “Às vezes você vê que a plateia não está nem aí, você pensa: ‘Foda-se, é só mais uma noite’. Tem momentos que simplesmente eu não queria ir. Falam do Tim Maia, mas fico pensando nos bastidores dele…”, confessa, beliscando o lado duro do showbizz, que a maioria dos artistas prefere esconder. “Como diz a música do Ivan Lins cantada pela Claudia (Pois É, Seu Zé), ‘ultimamente ando matando cachorro a grito/ e a plateia aplaudindo e pedindo bis’. A plateia só quer ser feliz, mas você, se fizer um show ruim, vai ser apedrejado pelo resto da vida.”

"De Onde Cê Vem?!" – “É sobre a época dos bailes na Vila Zilda. Virou uma gomenagem aos Racionais, ao início do rap.”

" Um Final de Semana" – “Escrevi essa para minha mãe. Nunca passo na casa dela, não dá tempo.”, diz Emicida, para espanto de Jacira. “Hum”, ela reage, como quem não acredita muito. Diz que ainda não ouviu o disco. “Ando ocupada estudando folclore”, desvia. “Ela não tá nem aí, viu?”, provoca Leandro. “Mas vai com a minha camisa no show.”

"Novo Nego Veio" – “Nessa eu falo sobre ser pai. Teve moleque que me disse que ouviu e chorou.” Repete-se o tema da falta de tempo para a família, agora em relação à filha bebê. “Ela acorda às 6 horas da manhã, não chora, fica reclamando. É espaçosa pra caramba. Se eu não acordo, fica pegando na minha cara até eu acordar.”

"Avua Besouro" – Foi composta sob inspiração do filme Besouro, do qual Leandro só viu o trailer. “É sobre um capoeirista da Bahia que ninguém vencia, sobre o cara ser vencedor. Os guetos precisam de heróis, coloco isso na música para canalizar o ódio para uma coisa que construa algo.”

"Beira de Piscina" – “É a mais sincera, sem medo de ser feliz. Tenho uma briga interna comigo mesmo, de querer escrever uma música tranquila, que tranquilize as pessoas. Vinicius de Moraes tinha um milhão de problemas, mas vê se aparece um deles em Tarde em Itapuã. Meu pai morreu, se eu fizer música sobre isso todo mundo vai se identificar. Com sentimento ruim é muito fácil compor”, filosofa. “Na beira da piscina é onde a entrevista do próximo disco vai começar”, gargalha.

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