A música paraense tem essa carga de originalidade

Marcelo Damaso, organizador do festival Se Rasgum, fala ao iG sobre o evento e a cena musical do Pará

Sabrina Duran, especial para o iG Cultura |

Divulgação
Marcelo Damaso
iG: Como você vê a música produzida hoje no Pará?
Marcelo Damaso: Belém sempre teve uma vocação muito forte para uma música rítmica, dançante, contagiante. A música paraense tem essa carga de originalidade. A lambada surgiu daqui, né? Foi com um radialista que tocava umas cúmbias na rádio e dizia ´eu vou colocar essa lambada agora pra vocês´, lambada no sentido de chicotada. O mestre Vieira já fazia isso com a guitarrada, que é uma evolução do chorinho. Essa é a tendência da música paraense, o que não impede que tenha um cena roqueira com bandas como Delinquentes e Madame Saatan. A música paraense vai do metal ao carimbó.

iG: E essa mistura é a marca do festival.
Marcelo Damaso: Sim, a liga é essa. Acho que hoje em dia as pessoas estão mais esclarecidas e isso tem a ver com o amadurecimento musical. Eu não ouço mais rock o dia inteiro, ouço outros ritmos, música latina, música brasileira.

iG: Acha que o público paraense ajuda a criar essa liga?
Marcelo Damaso: O público paraense é inacreditável. Ele é o meu maior combustível para continuar fazendo o festival. No ano passado, no mesmo dia em que teve Comunidade Nin-Jitsu e Pato Fu, eu coloquei o Pinduca (cantor e compositor de carimbó). Eu fiquei com medo. Pensei: caralho, que vai ser isso, meu irmão? Que merda que eu arrumei (risos). Mas vi uma festa linda, patricinha, mauricinho, moicano, punk, headbenger dançando carimbó. E outra: pra tudo o paraense faz festa. Belém é uma cidade muito afastada e muito carente disso. O público aqui é muito parecido com o de Recife, é muito festeiro.

iG: Por falar em Recife, há quem diga que Belém é o novo Recife em termos de produção e criatividade musical. O que você acha disso?
Marcelo Damaso: Isso não deixa de soar como um elogio. Eu adoro a cena de Recife. Mas acho que é outro contexto. O rock brasileiro estava sem identidade, saindo daquela coisa dos anos 80, e precisava de uma coisa nova, que o Chico Science conseguiu colocar de uma forma que nunca mais vai mudar, que é misturar ritmo regional com guitarra distorcida. Acho que esse foi o primeiro passo para o público começar a se ligar que ser retão, radical, não tem nada a ver.

iG: Qual a diferença entre Recife e Belém, então?
Marcelo Damaso: Recife teve um movimento que foi pensado, embora tenha acontecido de forma natural. Aqui em Belém não teve nenhum movimento forte. O que houve foi outra coisa, tem a ver com a indústria fonográfica dos dias de hoje (em Belém), que é o tecnobrega. O tecnobrega se alimenta, se vende e se banca e dá uma aula de independência para o Brasil e o mundo inteiro. Mas isso é outro contexto. Acho que seja uma nova Recife porque a imprensa precisa de uma nova cidade pra falar isso pra que não seja só Rio e São Paulo.

iG: O Se Rasgum promove a integração entre estilos aqui em solo paraense, onde esse movimento parece ser mais propício. Acha que o Se Rasgum funcionaria em algum outro lugar do país, no sul ou sudeste, por exemplo?
Marcelo Damaso: Rolaria muito. Eu estava trocando uma ideia com o Diogo (Soares), do Los Porongas, e ele foi num festival no Circo Voador (RJ) e viu que na programação tinha uma porrada de bandas que ia tocar aqui. Ele falou pro organizador do evento de lá trocar uma ideia comigo pra fazer um Se Rasgum no Circo Voador. Aí eu já comecei a viajar, pensei em botar o Mestre Vieira junto com o Do Amor, Nina Becker com Gabi Amarantos, Autoramas com Pio Lobato. Acho que dá pra fazer isso no Brasil inteiro.

iG: Já está escrevendo esse projeto?
Marcelo Damaso: Agora vou para o Rio bater um papo com o organizador do festival. Tenho muita vontade de fazer isso.

iG: Quais artistas paraenses você considera exponenciais agora?
Marcelo Damaso: O Félix (do Félix y Los Carozos, ex La Pupunha) é uma aposta muito grande. Ele é um cara talentoso, carismático, um band leader como eu nunca vi. Gosto das composições dele, ele é muito apaixonado pelo lance de guitarrada. Gosto muito do Projeto Secreto Macacos. São aqui de Belém, são diferentaços, instrumental pesado, contratempos, um pós-rock com metal, eu acho bom pra caramba.

iG: No primeiro dia de festival vi a molecada cantou junto com a Dona Onete (cantora e compositora de carimbó, 71 anos). Hoje vai rolar Odair José com Dead Lovers. Essa mistura de gerações é proposital?
Marcelo Damaso: O lance da redescoberta é outro braço do festival. A gente está formando um público que vem pra cá consumir o som do Lê Almeida, do Graforréia Xilarmônica e do Madame Saatan, mas que pode sair daqui fanzaço das músicas do Odair. Minha missão com isso é que as pessoas abram mais a sua mente para a música pop, que não fique achando que Odair José está restrito à cozinha brasileira. Ele faz parte da música popular brasileira, ele é muito pop, tanto quanto o Otto. Aliás, acho ele até muito mais importante que o Otto – que está numa fase muito boa, lançou um disco muito bom. O lance de colocar os antigos no festival começou no ano passado com o Pinduca.

iG: Tem algum artista das antigas que queira muito trazer?
Marcelo Damaso: Queremos trazer o Erasmo Carlos, mas não conseguimos grana ainda. Mas ele virá, com certeza. Se não vier sozinho, virá no festival no ano que vem. Isso é uma meta pra mim, sou muito fã dele. Tenho caixa de CD e tudo. Não vou trazer o Roberto Carlos nunca porque é impossível (risos). Então trago o Erasmo, que acho muito mais rock.

iG: E pra terminar, de onde vem o nome Se Rasgum?
Marcelo Damaso: A gente tem duas versões. A versão que eu conto quando estou sem paciência (risos) é que se rasgum é um grito de periferia (com sotaque caboclo) de se rasgar, de se divertir. E o nome mesmo, é porque... cara, é uma história muito ridícula, mas história ruim é boa de contar. A gente foi um fim de semana pro litoral, na casa do Gustavo (Rodrigues), ficamos bebendo, falando um monte de merda, e o Randi (Rodrigues) contou a história de um amigo nosso que era jurado de uma quadrilha junina gay. Os homens eram todos gays e as mulheres todas sapatonas. E tinha uma velha que era quem incentivava a galera, botava todo mundo pra dançar. Aí eles dançando e a velha, com um sotaque beeem caboclo do Pará, dizia “bora, seus frescum, dançum, se rasgum!”, querendo que eles agitassem mais (risos). A gente riu pra caralho dessa história. Era um nome pra não dar muita explicação, era só pra ser engraçado, era só pra ser uma piada. Quando a gente foi ver, a galera já estava dizendo “tu vai pra festa da Se Rasgum?”. Aí já não dava mais pra mudar (risos).

    Leia tudo sobre: Se Rasgum

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG