A música fora do armário de Zeca Baleiro

"Vocês Vão Ter Que Me Engolir" é o título do pacote que une dois novos discos do cantor maranhense

Pedro Alexandre Sanches, especial para o iG Cultura |

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O cantor maranhense Zeca Baleiro
“Vocês vão ter que me engolir”, disse o maranhense àqueles que ele julgava desprezá-lo. O maranhense, chamado Zeca Baleiro, tem 44 anos e é músico desde a adolescência, mas só nos últimos 13 anos conseguiu difundir suas criações Brasil afora – a partir de São Paulo (onde se radicou em 1991), e não do estado natal. "Vocês Vão Ter Que Me Engolir" é o título, um tanto sarcástico, com que ele batizou o pacote com que resolveu comemorar a efeméride nada redonda de 13 anos de presença no showbizz desde o advento do CD "Por Onde Andará Stephen Fry?", em 1997.

O pacote faz o gênero “multimídia”, para usar um termo de feitio modernoso, daqueles que Zeca demonstra detestar. Envolve dois CDs lançados sob patrocínio único e exclusivo de seu próprio selo, Saravá Discos. Um é uma coletânea de temas antes dispersos por aí, chamada "Trilhas – Música para Cinema e Dança". O outro, "Concerto", segue o já desgastado formato “CD ao vivo”, mas com uma diferença crucial: nenhuma das 14 canções ali agrupadas havia jamais sido gravada por sua voz.

A edição de dois discos de uma vez (como ele já ensaiara em 2008, com os dois volumes quase simultâneos de "O Coração do Homem-Bomba") significaria sua admissão de que o produto CD não é algo tão sagrado como foi no passado? “Não, para mim é tão sagrado quanto sempre. Mas eu tinha o cuidado de esperar dois anos entre um disco e outro, e não é mais assim. Hoje o público que tiver que absorver um CD vai absorver em quatro meses. Depois de seis meses, já está velho para a imprensa”, descreve a realidade dura destes tempos pós-gravadoras.

Outra parte do combo apresenta o Baleiro escritor, em "Bala na Agulha (Reflexões de Boteco, Pasteis de Memória e Outras Frituras)", uma compilação de textos algo ranzinzas, algo nostálgicos, escritos por ele em seu blog entre os anos de 2006 e 2010. Quem patrocina, desta vez, é a Ponto de Bala Editora, produtora mantida em sociedade por ele e sua empresária, Rossana DeCelso. Outro livro a caminho é "A Vida É um Souvenir Made in Hong Kong", uma coleção de letras de canções preparada na Universidade Federal de Goiás.

E há, ainda, o trabalho com teatro infantil em "Quem Tem Medo de Curupira?", em cartaz no Teatro do Sesi, do qual Zeca é autor, codiretor musical (com Érico Theobaldo) e compositor da trilha sonora.

Projetos de envolvimento colateral aos quais caberia o epíteto “vocês vão ter que nos engolir” são a produção do novo disco do cantor e compositor Odair José e a direção musical do documentário "Eu Não Sou Cachorro, Não", de Helena Tassara, baseado no livro homônimo em que o jornalista Paulo César de Araújo esmiuça os preconceitos da autointitulada MPB contra a canção (realmente) popular rotulada como “cafona”. “É um projeto audacioso da Helena, vai haver uma turnês de shows com oito desses artistas, como Cláudia Barroso”, antecipa.

E sobre o disco de Odair? “Vai se chamar 'Praça Tiradentes'. Serão só músicas novas dele, uma minha com ele, uma do Arnaldo Antunes e do Carlinhos Brown, uma do Chico César. Produzi aqui, com a minha banda”, conta, no escritório da Ponto de Bala, no Alto de Pinheiros. “Foi emocionante, Odair me disse: ‘Rapaz, eu achava que nunca mais ia gravar’. Ele fez um arranjo meio Penny Lane, dos Beatles, para a canção do Arnaldo e do Brown. Arnaldo ouviu e queria chorar”, entusiasma-se.

Zeca não é explícito sobre o sentido por trás da proposição “vocês vão rer que me engolir”. Deve dizer respeito à estrutura que ele ergueu para si, desatrelado do hoje ruinoso circuito da “grande” indústria fonográfica. Casado e pai de duas crianças (de 10 e 12 anos), diz que já gira sozinha a roda cujos impulsionadores são a Ponto de Bala e a Saravá – e, obviamente, sua veia poética e musical, herdeira de nomes como Noel Rosa e Zeca Pagodinho, Ismael Silva e Itamar Assumpção.

Talvez o sentimento oculto na gag "Vocês Vão Ter Que Me Engolir" englobe ainda a identificação do garoto interiorano de Arari com os cantores ditos “cafonas”, tanto quanto uma rejeição difusa a seu nome, perceptível, por exemplo, por sua ausência das TVs mais comerciais, mas também pelo desinteresse de setores, digamos, hype (como os que ele critica na crônica Cruzada Hype, em Bala na Agulha) da cidade que elegeu para viver.

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Zeca Baleiro: música, literatura, teatro
“Compenso minha falta de habilidade como lobista com excesso de trabalho”, afirma, antes de ligar o tema a uma de suas manifestações indigestas, em 2007, quando ironizou acidamente o choque expresso por Luciano Huck num texto de jornal, porque seu relógio Rolex fora roubado num sinal de trânsito. “Queria ver Luciano Huck escrevendo um texto tão indignado caso presenciasse uma chacina no Capão Redondo”, escreveu ao painel de leitores da Folha de S.Paulo.

A reação contrária a tal afirmação que mais o assustou, diz, foram comentários do tipo “tem que matar esses nordestinos”, direcionados a ele, o maranhense que criticou a indignação seletiva, e autodirigida, de Huck. “Não tenho nada pessoal contra o cara, ele faz bem o que faz, que é capitalizar a miséria dos brasileiros”, volta à carga. À véspera das eleições, Zeca se define avesso à política, mas não deixa de se assumir fã de Lula nem de declarar voto em Dilma Rousseff “por estratégia” e “porque detesto esse tucanato que está aí”.

Dono de discos de ouro pelas vendagens de seus primeiros três álbuns e, mais tarde, pelo afiado disco em dupla com o cearense Raimundo Fagner, Zeca aprecia ser ferino e provocador em letras de canções, como acontece na inédita "Armário", de "Concerto". “Não posso, não posso/ já falei que não posso/ não é que eu não queira/ mas é tão difícil pra mim/ é claro que eu quero/ quero mais que tudo/ mas sinto tanto medo/ (...) já que eu não posso sair do armário/ quero que você entre no armário também”, agulha a letra crítica à homossexualidade não-assumida. Seria autobiográfica a historinha narrada em tom de comédia? “Não é, é uma brincadeira”, ri. “Fiz há uns cinco anos, mostrei para o Edson Cordeiro e ele começou a cantar nos shows. Mas gosto da ambiguidade que gera o fato de eu mesmo cantar.”

Uma característica distintiva de Zeca em nosso cenário atual é a de ele cobiçar, sim, o sucesso, mas sem nutrir medo ou ojeriza por experiências musicais passadas tidas como “malditas”, ou no mínimo obscuras, da música. As releituras presentes nos novos CDs incluem temas de artistas diversos, selecionados a quilômetros de distância da obviedade e das regras de mercado, como Walter Franco ("Respire Fundo"), Gilson ("Chuva"), Camisa de Vênus ("Eu Não Matei Joana d’Arc"), Lula Côrtes ("Desengano") e Tetê Espíndola (na forte canção de identidade matogrossense "Cunhataiporã").

Garimpagem musical para lá do fast-food musical não dá ibope no mercado mainstream, mas sempre foi uma especialidade de Zeca Baleiro – num arco que vai do paulista Chorão ao carioca Martinho da Vila, da mineira Wanderléa ao capixaba Sérgio Sampaio, do pernambucano Luiz Gonzaga ao carioca Luiz Ayrão, do goiano Odair José ao baiano Assis Valente. Quem tem medo dos curupiras, quem tem medo do curupira maranhense?

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