A herança do mangue beat de Chico Science

China, Stela Campos e Chiquinho Moreira avaliam importância do músico

Augusto Gomes, iG São Paulo |

Em 1994, o lançamento dos álbuns Da Lama ao Caos , de Chico Science e Nação Zumbi, e Samba Esquema Noise , do Mundo Livre S/A, estremeceu a música brasileira. Diretamente de Recife, surgia uma música profundamente brasileira, mas ao mesmo com fortes influências do que era feito lá fora. O choque foi comparável ao provocado pelo Tropicalismo, um quarto de século antes. O movimento era o mangue beat.

A importância de Science no cenário da música pernambucana pode ser medida por esse depoimento do cantor China. "Em 1996, vi Chico Science e a Nação Zumbi no Abril Pro Rock. Eles tocaram com Gilberto Gil, era quase de manhã quando entraram no palco. Foi o show mais importante da minha vida. Voltei para casa e falei para meu irmão que queria formar uma banda. E não fui o único que fez isso", conta.

Divulgação
A banda pernambucana Mombojó
A banda, Sheik Tosado, foi formada pouco depois e lançou seu disco de estreia em 1998. Junto com ela, veio toda uma leva de novos artistas. "Para mim foi sensacional ver um cara no palco que morava num bairro perto do meu, falava igual a mim", afirma. "Modéstia à parte, se hoje a gente é referência em música para o Brasil todo, é por causa do mangue beat. Nos anos 80, Recife não tinha nada".

E a influência, diz China, não ficou só em Pernambuco. "Acredito que não existiria Marcelo D2, por exemplo, sem o Chico Science. Antes dele, o rock nacional tinha vergonha de buscar influência em sons brasileiros. O Chico mudou isso", avalia. "Hoje o rock brasileiro é muito mais rico e verdadeiro, se comparado com os anos 80. Mas é claro que não estou falando de NX Zero e Fresno", ri.

Para Chiquinho Moreira, tecladista da banda Mombojó, outra das características marcantes não só de Chico Science, mas do mangue beat como um todo, é a diversidade. "Uma das principais ideias do movimento era justamente não se prender a uma estética musical. Não precisa ter alfaia ( instrumento de percussão ) para ser mangue", afirma. "Além disso, é uma música ligada às nossas raízes, mas ao mesmo tempo aberta a influências do mundo todo".

Essa filosofia musical, ao mesmo tempo "mundial e próxima", é o grande legado do mangue beat no som do Mombojó, na opinião de Chiquinho. A banda, que lançou dois dos mais elogiados álbuns dos anos 2000 ( Nadadenovo , de 2004, e Homem Espuma , de 2006), prepara-se para colocar seu terceiro disco nas lojas, Amigo do Tempo . "Estamos no finalmente", brinca. "Deve sair em abril, mas não tem como prever com certeza".

Outra lição deixada pelo mangue beat é que em música "tudo é permitido". Essa é a avaliação de Stela Campos, cantora paulista que viveu alguns anos em Recife nos anos 90. "A influência deles foi mais indireta. Nunca pensei em inserir elementos regionais no meu trabalho, por exemplo. Mas a música de Chico definitivamente ampliou meus horizontes, meu leque de referências. Eles me apresentaram muita coisa", conta.

Stela conheceu Chico Science em 1993. "Na época, eles ainda não haviam lançado o primeiro disco. Fiquei muito impressionada. Chico Science era um showman nato, havia criado uma postura de palco toda própria. Ninguém tinha visto aquilo antes", lembra. "Cheguei em Recife meio que restrita à fusão do jazz com o indie rock. Saí de lá com a noção de que tudo era permitido".

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