Tiê: "Ou eu lançava um disco impactante ou eu não lançava nada"

Por Thiago Ney , iG São Paulo | - Atualizada às

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Cantora de 34 anos fala ao iG como enfrentou uma crise criativa para compor o álbum "Esmeraldas", que chega às lojas

O que fazer quando a inspiração não vem? Vai lavar louça e colocar roupa para secar. Com Tiê, pelo menos, funcionou.

A cantora de 34 anos que tem duas filhas, já lançou dois discos e comanda três produtoras (de vídeo/música) entrou em uma crise criativa e não conseguia encontrar nenhuma ideia para produzir o terceiro álbum. Até que foi "para a roça", em Esmeraldas (Minas Gerais), e, ali, decidiu transformar em letras atividades banais e observações do cotidiano. Assim nasceram músicas como "Máquina de Lavar": "Eu ligo a máquina de lavar/ Misturo a roupa suja de toda cor/ Enquanto eu olho tudo aquilo girar/ Me dá vontade do momento do elevador".

Crítica: Com “Esmeraldas”, Tiê lança disco bonito e marcante

Leandro HBL/Divulgação
A cantora Tiê, que lança o disco 'Esmeraldas'

"Máquina de Lavar" virou uma das 12 faixas de "Esmeraldas", disco que começa a ser vendido nesta terça-feira (23). É o terceiro de Tiê, que apareceu para o Brasil com "Sweet Jardim" (2009) e se consolidou como uma das principais cantoras do País com "A Coruja e o Coração" (2011).

"Ou eu lançava um disco impactante ou eu não lançava nada", Tiê conta ao iG, sobre a crise criativa que a pegou depois de "A Coruja e o Coração" . "Era uma questão importante para mim. Porque o segundo disco eu fiz mais solta. Nesse terceiro senti mais pressão de fazer algo impactante, forte, e como não me vinha nada, nenhuma ideia forte, eu fiquei bloqueada."

O bloqueio foi quebrado com a ajuda de gente como André Whoong, músico e produtor que participa de várias faixas, e David Byrne, co-autor de "All Around You", que fecha o disco. A cantora já tem três shows marcados (dois em São Paulo e um no Rio) para apresentar o álbum ao vivo (veja ao final do texto).

Abaixo, Tiê fala sobre "Esmeraldas".

A demora
"É um medo que eu sempre tive. No 'Sweet Jardim' (primeiro disco, de 2009), já me veio o medo: 'E quando não tiver mais inspiração?'. Porque eu nunca fui uma compositora de quantidade, tanto que meu primeiro EP tinha apenas quatro músicas, que era tudo o que eu tinha. No primeiro disco entraram dez, que era o que eu tinha. No 'A Coruja e o Coração' (segundo álbum, de 2011), também. E aí fiquei meio entalada, principalmente por críticas. Na época do segundo disco, estava com a Liz (a primeira filha) bebê, com dez meses, foi um processo legal, mas depois de um tempão fui sacar uma coisa: o primeiro disco tinha sido impactante para muita gente. Era mal cantado, mal contado, tudo muito na cara, cru. O segundo foi mais suave. O primeiro, por ser mais cara de pau, chamou mais atenção. O segundo vendeu mais, era pop, doce, mas para muita gente não ficou legal. E isso me preocupou para o terceido álbum."

A crise do terceiro disco
"Ou eu lançava um disco impactante ou eu não lançava nada. Era uma questão importante para mim. Porque o segundo disco eu fiz mais solta. Nesse terceiro senti mais pressão de fazer algo impactante, forte, e como não me vinha nada, nenhuma ideia forte, eu fiquei bloqueada e não queria fazer. Perguntei para a (gravadora) Warner: 'Posso fazer um disco de interpretação?'. Não, eles queriam algo autoral. Me sugeriram alguns produtores, mas não me vinha nada, então fui adiando."

Leandro HBL/Divulgação
A cantora Tiê

O disco apareceu
"No final do ano passado, estava estressada, cansada, e fui para a roça descansar, em Esmeraldas (MG), e ali me deu uma ligada. Veio a primeira música, 'Mínimo Maravilhoso'. Vieram a letra e a melodia. Fiz em cinco minutos. Queria algo visceral. O André (Whoong), meu parceiro, me mandou 'Meia Hora', e fiz a letra em seguida. E no começo de janeiro disse para a Warner: estou pronta para fazer o disco."

Os produtores
"A gravadora me sugeriu fazer com o Jesse Harris (produtor que já trabalhou com Norah Jones). Achei que as coisas dele eram um pouco chiques demais, queria algo mais sujo. O Adriano Cintra (músico e produtor) tinha acabado de produzir o disco da Naná Rizinni, e comecei a fazer a produção com ele. Então acabamos fazendo o disco numa espécie de co-produção entre o Jesse e o Adriano. Montamos os arranjos em São Paulo e depois finalizamos em Nova York, onde gravamos cordas, sopros."

Inspirações
"(Na época em que gravou o álbum) Estava ouvindo música clássica, então talvez tenha um lado épico no disco, não sei. E Dirty Projectors, Darwin Deez (que quase cantou no disco), Metronomy... São coisas que eu estava ouvindo. Mas não sei se são perceptíveis no disco."

Músicas
"(A letra de )'Máquina de Lavar' veio num momento em que fiquei sem ajudante, com marido e filhos em casa e fiquei louca, batendo roupa na máquina. Até falei para o meu marido: 'A melhor coisa que compramos na vida foi uma máquina de secar'. Porque chovia e as crianças ficavam sem roupa. Essa música parece uma piada, mas é o jeito que eu lavo roupa. E eu acho divertido colocar roupa no varal.
Já 'Vou Atrás', 'Meia Hora' tem umas camadas parecidas, mas estranhezas. Como 'Urso' e 'A Noite', que começou como Nico (cantora morta em 1988 que, entre outros trabalhos, participou do primeiro disco do Velvet Underground) e terminou como Elton John.
E 'Goldfish' tem esse nome por causa de uma cena do filme 'Eu, Você e Todos Nós', (em que um carro trafega com um aquário com um peixe dourado no capô). A versão original tem uma coisa meio Nancy Sinatra. E eu resolvi refazer essa música. Tinha uma guitarra que era meio Black Keys. Aí meu tirei, ficou mais mellow."

Ao vivo e em estúdio
"Nesse disco tive que me desapegar totalmente. No primeiro EP, havia mil coisas e eu não conseguia repetir ao vivo. No 'Sweet Jardim', queria que o ao vivo soasse exatamente como no disco. Mas nesse terceiro tive que desapegar. Tem coisas e tons que eu não vou conseguir cantar. Mas no disco soa como tem de soar. Já estamos testando o show."

Cantora solar
"O 'Sweet Jardim' é um pouco mais melancólico, já o segundo é mais solar. A minha voz tem uma leveza, então independentemente do que eu cante, não é uma voz forte, é doce, ajuda a deixar solar. A foto da capa é assim, mas eu estou séria. Tem uma coisa meio bipolar."

David Byrne
"Ele é de uma humildade incrível. O primerio contato fio via Mauro Refosco (percussionista brasileiro), que passou para o David Byrne o meu segundo disco. Depois ele viu um show meu e da Tulipa (Ruiz) em Nova York. Isso era 2011. Em 2013, quando fui gravar com a Naná, passei por Nova York e fui almoçar com o david Byrne. Fui meio cara de pau, disse para ele que estava em crise, não conseguia compor, me abri, pedi dicas, qualquer ajuda. Ele disse: 'Tá bom, vou pensar'. Dois dias depois, me mandou dois começos de música: um afoxé, que não é a minha praia, e outra, que é a que que entriou no disco ('All Around You', faixa que encerra o álbum). Não tinha letra, mas tinha nome, 'The Government Is All Around'.
Em janeiro peguei a música e o André (Whoong) fez uma parte para mim, com um clima mais leve, porque a do Byrne é mais soturna, com uma ideia sobre como estamos sendo sempre vigiados.
Liguei para o Tim Bernardes (da banda O Terno) e mandei com uma ideia de letra. Ele me devolveu com uma letra superdivertida e eu adaptei. E deu certo. Aí mandei a música para o Byrne e perguntei se ele queria gravar uma voz. Então o Byrne mandou uma letra que fala da mãe, de carinho, proteção. Achei bem bonito. Mandou no último dia de gravação, e ali fechamos o disco.

Tiê - São Paulo
Dias 15 e 16 de outubro, às 21h (no dia 15, com participação de Tim Bernardes; no dia 16, com Guilerme Arantes; ambos com Jesse Harris)
Sesc Vila Mariana (r. Pelotas, 141, Vila Mariana)
De R$ 6,40 a R$ 32

Tiê - Rio de Janeiro
Dia 22 de outubro, às 21h15
Teatro Net Rio, sala Tereza Rachel (r. Siqueira Campos, 143, Copacabana)
De R$ 80 a R$ 110

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