Diretor independente trabalha nos projetos "Obá, Obá, Obá", que une Copa do Mundo a músicas de Jorge Ben Jor, e "Híbridos", sobre cultos religiosos no País; Leia entrevista

Especializado em filmes musicais de estética delicada e em cenários inusitados, como o famoso vídeo do Arcade Fire tocando dentro de um elevador , o cineasta francês Vincent Moon, nome artístico de Mathieu Saura, passa uma de suas maiores temporadas no Brasil trabalhando em projetos que afirmam sua empolgação pelo País.

"Gosto do Brasil porque, em minha opinião, é o país mais rico que já visitei, em termos de diversidade de cultura. E isso continua a mudar, e irá por um tempo. O equilíbrio entre a diversidade de culturas locais e a unidade da identidade é um aspecto muito fascinante", diz ao iG .

Jorge Ben Jor e o País do futebol

Durante a Copa do Mundo, Moon está envolvido com a captação de imagens para "Obá, Obá, Obá", que tem na equipe os também franceses Benjamin Rassat e Pierre Barouh. Em 1969, Barouh dirigiu "Saravah", documentário musical que registrou um encontro promissor entre o samba, a bossa-nova e a MPB em sessões com Pixinguinha, João da Baiana, Paulinho da Viola, Baden Powell e uma jovem Maria Bethânia.

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Vincent Moon capta imagens para o filme 'Obá, Obá, Obá'
Benjamin Rassat/Divulgação
Vincent Moon capta imagens para o filme 'Obá, Obá, Obá'

Quase que como uma continuação de "Saravah", mas com direção de Rassat, em "Obá" os cineastas revisitam o repertório de Jorge Ben Jor na voz de artistas locais pouco conhecidos, sem deixar de aproveitar o clima proporcionado pela Copa do Mundo com gravações pelas cidades-sede do Mundial. O futebol é um tema de músicas de Ben Jor, como “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)” e  “Fio Maravilha”.

Algumas das bandas nacionais que participam são a mineira Graveola e o Lixo Polifônico, que interpreta "Porque É Proibido Pisar Na Grama", a banda amazonense Os Tucumanus tocando "Cinco minutos", a Orquestra de Câmara do Amazonas, sob regência de Marcelo de Jesus, interpretando “Errare Humanum Est”, entre outros artistas.

"Híbridos"

Depois da Copa do Mundo e do fim dos compromissos com Benjamin Rassat e Pierre Barouh, Vincent Moon ficará dedicado ao longa "Híbridos", realizado em parceria com Priscilla Telmon. Moon cuida da captação das imagens enquanto que Telmon faz o som e as fotografias still.

O projeto é focado em retratar rituais religiosos de várias regiões do Brasil. Uma empreitada diferente para Moon, que passou anos empenhado em mostrar expressões musicais em projetos como a série "Take Away Shows", que gravava e dirigia para o site francês La Blogothèque, e a coleção "Petites Planètes", que o fez viajar o mundo registrando como a música é feita em diversos países.

Em "Híbridos", Moon se debruça na busca de rituais. "É um projeto sobre o sincretismo do sagrado em diferentes camadas da sociedade brasileira", define, explicando que esta é a primeira vez que pretende ficar tanto tempo no Brasil. Por enquanto, ele conta que estabeleceu o prazo de um ano para captar "do candomblé ao xamanismo, a espiritualidade em todos os níveis".

Vídeos independentes

Vincent Moon trabalha de maneira independente (apesar da vasta experiência que lhe garantiria bons patrocínios) e dos documentários musicais bem conceituados em seu currículo. "Burning", sobre a banda Mogwai, "An Island", sobre o Efterlang, "Miroir Noir", sobre o Arcade Fire, e "This Is Not a Show", do R.E.M, estão entre eles.

"Continuo trabalhando de maneira independente porque gosto da liberdade que isso dá. Como não faço esses filmes para ficar rico ou famoso, tenho a oportunidade de desenvolver minha própria linguagem sem nenhum aspecto comercial envolvido", explica. Suas produções estão na internet, gratuitamente, como uma característica regular de seu trabalho.

Conexões com o Brasil

As ligações de Vincent Moon com o País são vastas. Além de trabalhar em "Obá, Obá, Obá" e "Híbridos", anteriormente gravou performances de artistas nacionais que entraram para o projeto "Collection Petites Planètes", disponíveis no site do diretor .

O Brasil aparece em várias séries, como as sessões de "Sons do Rio de Janeiro", que contaram com Elza Soares, Ney Matogrosso e outros artistas; "Sons de São Paulo", com Tom Zé e outros; "Brasil Zona Norte", com Gaby Amarantos e mais nomes.

Em 2013, voltou para o País para fazer a série "Sons do Brasil", captando performances de Yamandu Costa, Criolo, Raízes Caboclas, Roberto Menescal e mais nomes. "Sou obcecado pelo Brasil." Com tantas imersões para dentro da cultura brasileira, não há como duvidar de uma obsessão tão prolífica e benéfica deste inquieto parisiense de 34 anos.


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