Nova geração de produtores musicais procura romper com "sonoridade pasteurizada"

Por Susan Souza , iG São Paulo |

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Nomes como Adriano Cintra, Boss in Drama, Gorky e Mancha Leonel usam estúdios montados em casa para criação de discos

Com a diluição da influência das grandes gravadoras sobre o mercado fonográfico, o Brasil vê surgir uma nova geração de produtores musicais independentes. Formados, em geral, de maneira autodidata e com estúdios próprios, esses profissionais engajam-se em trabalhos mais pessoais e flexíveis. 

O produtor Adriano Cintra. Foto: Reprodução/FacebookO produtor Péricles Martins, conhecido como Boss in Drama. Foto: Reprodução/FacebookO produtor Mancha Leonel. Foto: Kiko Steinhoff/DivulgaçãoO produtor Rodrigo Gorky. Foto: Reprodução/Facebook

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Os novos profissionais trabalham fora dos grandes estúdios, mas com equipamentos compatíveis com o padrão do mercado, e usam a internet para estudar, ampliar as referências musicais e produzir de maneira veloz, porém especializada, de acordo com o tom próprio de cada artista.

A aplicação do "Faça Você Mesmo"

Como parte dessa nova geração, o produtor e DJ Péricles Martins, conhecido por seu nome artístico Boss in Drama, segue a tendência de ter um estúdio dentro em casa, onde, por exemplo, o funkeiro Mr. Catra gravou os vocais da faixa "Tropa de Elite". Na maioria dos casos, o aprendizado em produção vem da prática, a partir de trabalhos pessoais ou com amigos. "Comecei a produzir para mim mesmo, gravei meus próprios vocais e lancei meus discos", conta ao iG. Péricles também produziu a cantora Karol Conka.

O produtor Adriano Cintra, conhecido por seus trabalhos como músico nos grupos Cansei de Ser Sexy, Thee Butchers' Orchestra e Madrid, produziu faixas do mais recente disco do Jota Quest, de Marcelo Jeneci, da cantora Tiê e os próprios projetos-solo. "Comecei a produzir antes de ter um computador. Gravava minhas bandas com um gravador de fita K-7", conta. O primeiro disco do CSS foi gravado por ele mesmo na garagem de casa. "Quando tive acesso à tecnologia mais avançada, foi uma revolução."

O produtor e DJ Rodrigo Gorky, que faz parte do grupo Bonde do Rolê, acredita que o processo de produção independente no Brasil até "andou meio devagar". "Só agora começaram a se tocar de que não precisa ir ao estúdio gravar e gastar uma nota. Você pode gravar em casa, com tranquilidade, sem aquela pressão." No entanto, o destaque profissional do produtor seria mais difícil nesse cenário "caseiro". "Antigamente, era mais difícil começar a produzir, mas era mais fácil de se destacar. Hoje, é mais fácil aprender a produzir, mas é mais dificil ter espaço", avalia.

"Com a crise das grandes gravadoras, todo artista teve de começar a se produzir por um período. Isso acabou fazendo com que algumas pessoas começassem a sacar mais de produção antes mesmo de saber se queriam produzir", conta Mancha Leonel, também produtor e proprietário da Casa do Mancha, casa noturna em São Paulo que também funciona como estúdio. Foi lá que produziu, por exemplo, a cantora Stela Campos e o grupo The Soundscapes. "O acesso aos equipamentos está muito tranquilo. O mesmo microfone que o Rick Bonadio usa no estúdio dele eu posso alugar para gravar aqui também."

A responsabilidade do produtor

Em uma gravação, o produtor musical é a pessoa que sugere mudanças e em quem o artista deve confiar. É a pessoa que está sendo paga para "sempre trazer o melhor para a música", como define Gorky. A sensibilidade para isso vem de um arquivo de referências pessoais e externas. "Se você é um produtor, você não fica enclausurado. Vai ver shows, conversar com as pessoas, ver como os outros trabalham. Isso é repertório", diz Mancha.

"Escuto o que o artista quer fazer e acrescento alguma coisa, uma ideia nova para o trabalho. Sou o cara que fala se seria melhor cortar o refrão, duplicar uma parte para soar mais legal. Sair do lugar-comum", define Gorky sobre seu método de trabalho. "É preciso conversar com o artista, cada caso é um caso", diz Adriano Cintra. "Depende do quanto o artista está aberto a ouvir e aceitar. Produzir é o trabalho dos sonhos", completa.

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"Os produtores vão começar a aparecer mais e ter mais responsabilidade pelo sucesso ou fracasso dos artistas. É ele que dá o tom da música, que guia. Acho que cada vez mais vai ser como uma parceria, um artista produzido por outro artista", analisa Péricles. Além da parcerias, os produtores são um indicativo sonoro de o que se pode esperar de um trabalho. "É importante virar uma referência para um tipo de som. Se um artista quiser lançar algo dançante com referência de música brasileira, ele sabe que posso fazer isso."

Resistência a mudanças

Segundo Adriano Cintra, o mercado nacional estaria mantendo um padrão "pasteurizado" de produção musical, poucas vezes desafiado, mas perto de mudar. "Tem muita gente fazendo coisas menos preocupadas com o lado comercial e pensando no lado artístico, só falta mudar a cabeça do povo da indústria. Não estou desmerecendo, mas é que se prenderam a um esquema (de músicas) para tocar em rádios e novelas. Os produtores mudaram, agora o que tem de mudar é a cabeça das pessoas da indústria."

No mercado internacional, saber o nome do produtor de um hit parece mais intuitivo do que no Brasil, muito por causa da própria divulgação feita pelas grandes gravadoras em cima destes profissionais. Quando Rihanna, Madonna ou outro artista popular lança uma canção, em geral o nome do produtor vem junto, escrito até mesmo nos créditos do videoclipe. "Na música pop internacional, o nome do produtor é como se fosse o selo de qualidade. Isso está prestes a acontecer aqui", acredita Péricles.

Com o dinamismo promovido por esses empreendedores da música independente, fórmulas desgastadas de sucesso tendem a ser cada vez menos repetidas. "Acho que o produtor milagreiro que transformava uma banda de araque em um sucesso nacional não tem mais espaço", diz Mancha Leonel. "Não existe tanta demanda para esse tipo de produção, porque o público hoje está mais interessado em honestidade quando ouve uma música do que em perfeição (de grandes estúdios)."

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