Canisso, da banda Raimundos: "Tínhamos medo de o disco não ter repercussão"

Por Susan Souza , iG São Paulo |

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Após 12 anos sem gravar material novo, grupo lança o álbum "Cantigas de Roda" de forma independente, com produção bancada por doação de fãs em site de financiamento coletivo

"Foram 12 anos de sofrimento." Assim o baixista Canisso desabafa ao iG sobre o período em que os Raimundos ficaram sem lançar um disco de estúdio. "Quando a banda finalmente se solidificou nessa formação atual, a gente matava um leão por noite. As pessoas iam aos shows para colocar o último prego no caixão."

Raimundos volta com o disco "Cantigas de Roda". Foto: Patrick Grosner/DivulgaçãoRaimundos volta com o disco "Cantigas de Roda". Foto: Patrick Grosner/DivulgaçãoRaimundos volta com o disco "Cantigas de Roda". Foto: Patrick Grosner/DivulgaçãoRaimundos volta com o disco "Cantigas de Roda". Foto: Patrick Grosner/Divulgação

Com Canisso, Digão (vocal e guitarra), Marquim (guitarra) e Caio (bateria) na formação, o oitavo e novo disco dos Raimundos, "Cantigas de Roda", foi bancado por fãs que colaboraram em um site de financiamento coletivo. O projeto superou o alcance da meta inicial de R$ 55 mil reais e, ao final de um mês, o grupo havia arrecadado pouco mais de R$ 123 mil.

Com produção de Billy Graziadei (vocalista e guitarrista da banda norte-americana Biohazard), o disco ainda tem participações do rapper Cypriano, do próprio Billy Graziadei, do cantor e sanfoneiro pernambucano Zenilton e do rapper Sen Dog, do Cypress Hill.

O Raimundos de "Cantigas de Roda" continua soando como o grupo de sempre, mas atualizado para a era da internet, com participação direta dos fãs e a vontade evidente de se mostrar finalmente reestabelecido após a ruptura com o ex-vocalista Rodolfo Abrantes, em 2001.

Por enquanto, "Cantigas de Roda" foi disponibilizado na internet apenas para os fãs que apoiaram o financiamento coletivo. O lançamento nas lojas online para o público em geral acontece na primeira quinzena de março.

Leia abaixo a entrevista com Canisso.

iG: Por que você acha que as pessoas aderiram tão bem ao financiamento coletivo do disco?
Canisso: Foi uma grande surpresa. Colocamos nossa expectativa bem baixa porque tivemos medo de não conseguir (a meta). Se você pede uma quantia e não alcança, você é obrigado a devolver o dinheiro. Colocamos uma quantia baixa só para cobrir custos de logística, hotel, essas coisas. Nós tínhamos nos planejado para bancar o projeto com shows, fazer uma 'caixinha'. Com o financiamento coletivo foi legal porque deu margem para trabalhar mais.

iG: Como surgiu o convite para ter Billy Graziadei na produção?
Canisso: Conheci o Billy no (festival) Monsters of Rock. Depois disso, reencontrei na época do Rodox (projeto do ex-vocalista dos Raimundos, Rodolfo Abrantes), mas perdi contato. Passou um bom tempo e já estávamos terminando a pré-produção das músicas quando nos encontramos com o Binho Nunes, que mostrou uma demo da banda dele, Beef-Killers, que o Billy deu um tapa. (Na demo) vimos que o Billy deu um 'upgrade', tinha um trabalho primoroso ali. Convidamos sem muita pretensão, ele topou e disse que era fã da banda.

iG: Após 12 anos sem lançar um disco de inéditas, qual é o significado desse novo trabalho?
Canisso: Sempre quisemos lançar um trabalho novo, mas tínhamos medo de o disco não ter repercussão. O processo de fazer um disco é muito suado, tem sangue e lágrimas, e fazer meio sem saber se vai ter divulgação é como trabalhar de graça, jogar pérolas aos porcos. Tentamos segurar até o ponto de sentir que a banda já tinha recuperado um pouco do espaço para ter um retorno. Os fãs próximos criaram uma comunidade (nas redes sociais) cobrando um disco. Sentimos que tínhamos recolocado a banda na cena, voltamos a tocar praticamente no Brasil inteiro e chegou o momento certo.

iG: Como foram esses 12 anos?
Canisso: Foram anos de sofrimento. Saí em 2002 e só voltei em 2007. Nesse meio tempo, houve outras formações, mas ficou o estigma que marcou o fim (da banda) com a saída do antigo vocalista. É uma história de luta. Gostamos de dizer que quando a banda finalmente se solidificou nessa formação atual, a gente matava um leão por noite. As pessoas iam aos shows para colocar o último prego no caixão. No Twitter, você via as pessoas falando antes do show: 'Vamos ver o que eles têm a oferecer'. Todo mundo tinha uma ressalva para ver o trabalho. O legal era ver essas opiniões mudando depois dos shows.

iG: As letras estão mais comportadas agora?
Canisso: Amadurecemos bastante, mas tem muito ainda daquela 'putaria safada' dos Raimundos, os temas polêmicos recorrentes na nossa história. E tudo saiu muito fácil, não nos obrigamos a imitar o passado, foi coincidência, não foi forçado.

iG: Em comparação à época em que vocês começaram, o cenário de rock mudou muito?
Canisso: Bastante. Divulgávamos o som por fitas cassete, era a moeda de troca das bandas. Tenho até hoje gavetas cheias de fitas de bandas. Não tinha internet, a divulgação "underground" era feita por fanzine, era rústica. Hoje não tem espaço para ousadia, a gravadora quer que a banda chegue com 90% do trabalho pronto, tem a tendência de só apostar no que está praticamente certo. Se a gente tivesse aparecido hoje como éramos no começo, não teríamos espaço. Seria arriscado investir em uma banda com letras polêmicas, fora do esquema radiofônico. Com certeza iam querer tirar os palavrões das letras. A impressão que tenho é que hoje é difícil uma banda mais polêmica ter espaço.

iG: Hoje em dia como é a relação de vocês com o Rodolfo?
Canisso: Não tem nenhuma. A última vez que nos vimos foi no saguão de um aeroporto. Ele escolheu um caminho e eu o respeito.

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