Semana David Bowie: uma vida em 10 canções

Por iG São Paulo , por Paulo Terron, especial para o iG | - Atualizada às

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Cantor será tema de exposição em São Paulo a partir de sexta-feira; veja e ouça músicas marcantes de sua carreira

Nada em David Bowie é simples. E, como diz o clichê, o músico britânico realmente é um camaleão – não só visualmente, também musicalmente. Em cerca de meio século, este inglês de 67 anos foi do som típico das bandas sessentistas à voz do sábio ancião do rock.

Infográfico: As várias faces de David Bowie

E, diferentemente de outros artistas, Bowie teve a habilidade e o talento para variar de estilo e sempre acertar na mosca, muitas vezes marcando época e dando origem a movimentos inteiros.

David Bowie e a mulher, Iman, em 2011. Foto: Getty ImagesDavid Bowie e o guitarrista Jeff Beck, em 2010. Foto: Getty ImagesDavid Bowie e o filho, Duncan Jones, em 2009. Foto: Getty ImagesKate Moss, David Bowie e Iman, em 2005. Foto: Getty ImagesDavid Bowie em show no festival da ilha de Wight em 2004. Foto: Getty ImagesDavid Bowie em show no festival da ilha de Wight em 2004. Foto: Getty ImagesDavid Bowie em show na Inglaterra em 2003. Foto: Getty ImagesDavid Bowie em show na Inglaterra em setembro de 2003. Foto: Getty ImagesDavid Bowie em show em outubro de 2002. Foto: Getty ImagesDavid Bowie em setembro de 2002. Foto: Getty ImagesDavid Bowie em show em julho de 2002. Foto: Getty ImagesDavid Bowie em show em homenagem a Nova York em 2001. Foto: Getty Images

Foi assim no glam de "Ziggy Stardust", no começo dos anos 1970, e mais para frente, na mesma década, quando se cobriu de influências alemãs (estéticas e sonoras) para se recriar como artista experimental e vanguardista. Ou quando se apropriou da black music norte-americana para criar uma soul music totalmente nova. E até mesmo quando jogou para ganhar, na fase comercial de "Let’s Dance", David Bowie não nivelou por baixo, dando um ar exótico à música popular radiofônica.

“A carreira de Bowie tem muito mais topos brilhantes do que subterrâneos enraivecedores”, escreve o biógrafo David Buckley em "Strange Fascination – David Bowie, The Definitive Story".

Ouvindo a obra, é difícil contrariar essa afirmação. Exatamente por isso, a lista abaixo é uma amostra variada e, ainda assim, limitada do que o cantor produziu até hoje. Afinal, com David Bowie, a sensação de “o melhor ainda está à frente” nunca desapareceu.

A partir da sexta-feira (dia 31), David Bowie será tema de uma mostra no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, que exibirá cerca de 300 itens relacionados ao artista.

"Space Oddity"

Em 1969, ano em que o homem chegou à lua, David Bowie lançou um de seus hinos. A história do astronauta Major Tom, que se impressiona com as belezas do espaço e depois acaba se perdendo nelas, também é reflexo do impacto de "2001: Uma Odisseia no Espaço", filme lançado por Stanley Kubrick no ano anterior. Tanto George Martin (o lendário produtor dos Beatles) quanto Tony Visconti (produtor e parceiro de longa data de Bowie) se recusaram a produzir a canção, sendo que o segundo disse que a faixa era uma “tentativa barata” de faturar com a chegada da Apollo 11 à Lua, além de considerar que o vocal era apenas uma “tentativa de imitação de John Lennon”.

Ouça também: “Memory of a Free Festival”, lançada no mesmo disco, "David Bowie" (1969), a primeira música a contar com a guitarra de Mick Ronson, futuro integrante da banda Spiders from Mars.

"The Man Who Sold the World"

Lançada no final de 1970, no disco de mesmo nome, esta faixa mostra uma mistura de ficção científica – na letra, o personagem se encontra com uma cópia dele mesmo – e, mais tarde, o próprio Bowie diria que era uma interpretação das angústias que ele tinha em relação a outro lado de sua personalidade. A canção ganhou novo significado (e teve a popularidade renovada) ao ser regravada pelo Nirvana no álbum "MTV Unplugged in New York City" (1994), em uma versão que Bowie chamou de “direta” e “muito honesta”.

Ouça também: “The Supermen”, que mostra um David Bowie mergulhado nos trabalhos do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, apesar de mais tarde o cantor confessar que não entendia direito o trabalho dele. Segundo Bowie, o riff de guitarra foi criado por Jimmy Page (apesar de ele não ter tocado na gravação).

"Ziggy Stardust"

A música tema do personagem mais icônico de Bowie, lançada no álbum "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars" (1972). A guitarra de Mick Ronson é tão marcante e universal que a faixa é executada até hoje por gente tão distante quanto Guns N' Roses, Seu Jorge e Of Montreal. Em termos de letra, foi uma fase intensa para o artista, que se viu confuso quanto à própria identidade. “Eu não conseguia me decidir se estava escrevendo os personagens ou se eles estavam me escrevendo, ou se éramos um só”, explicou à revista "Rolling Stone".

Ouça também: “Time”, de Alladin Sane (1973), que mostra David Bowie em modo cabaré, altamente influenciado por Jacques Brel, Kurt Weill e Bertolt Brecht.

"Rebel Rebel"

O último hino da fase glam rock de Bowie, a faixa foi lançada em "Diamond Dogs" (1974) – mas havia sido composta um ou dois anos antes, o que explica a diferença gritante entre ela e a maior parte desse disco, um trabalho que foi inspirado no livro "1984", de George Orwell. "Rebel Rebel" certamente tem um dos riffs de guitarra mais marcantes da música popular, reconhecível de cara.

Ouça também: “Big Brother”, que deixa clara a mensagem de "Diamond Dogs", claramente baseada no livro "1984".

"Young Americans"

Em mais uma de suas clássicas reinvenções musicais, David Bowie mergulhou nas influências de black music e produziu algo novo com "Young Americans" (1975). A faixa título é um resumo do experimento do trabalho, sendo que o arranjo dos vocais de apoio – feito pelo então novato Luther Vandross – é até hoje tido como referência de complexidade e eficiência. Como “Young Americans” foi uma das primeiras músicas do disco a ser gravada, Bowie logo se atentou ao talento de Vandross, que guiou boa parte dos arranjos.

Ouça também: gravando "Young Americans" em Nova York, Bowie conseguiu convocar o ídolo John Lennon para o estúdio. Em um desses dias nasceu a parceria "Fame" – e a voz do ex- beatle é claramente ouvida nos backing vocals.

"Heroes"

A faixa do disco de mesmo nome, lançado em 1977 e parte da “trilogia de Berlim”, foi composta por Bowie e Brian Eno e gravada no agora lendário estúdio Hansa (onde, mais de uma década depois, o U2 gravaria "Achtung Baby"). Além disso, foi lançada em versões variadas: em francês, inglês, alemão e em edições com mais de um idioma, um grande exemplo da explosão criativa pela qual o músico estava passando naquele momento. A letra, sobre amantes em lados diferentes do Muro de Berlim, foi inspirada por uma cena que Bowie viu da janela do Hansa: o produtor Tony Visconti beijando a namorada, a cantora Antonia Maas, próximo do Muro.

Ouça também: entre as opções de sonoridade mais pop do período alemão de Bowie estão "Sound and Vision" (de "Low", 1977) e "Look Back in Anger" ("Lodger", 1979).

“Ashes to Ashes”

A segunda menção ao Major Tom (de “Space Oddity”) aparece aqui – e ele é citado como “um viciado”. Entretanto, ao longo dos anos, David Bowie fez questão de diminuir a importância da letra, sempre referindo-se a ela como apenas uma brincadeira infantil com rimas. O então revolucionário clipe que mostra o músico na água, em uma praia, com cores que parecem saídas de um pesadelo, ajudou a puxar a canção para o primeiro lugar da parada britânica –algo que não ocorria desde “Fame”.

Ouça também: “Fashion”, do mesmo disco, "Scary Monsters (and Super Creeps)" (1980), que foi usada durante a cerimônia de encerramento das Olimpíadas de Londres – em um segmento sobre a moda britânica.

"Modern Love"

Certamente uma das músicas mais executadas de David Bowie, a faixa faz parte de "Let’s Dance" (1983), trabalho que marcou uma tentativa de guinada musical para o lado comercial. Funcionou. Além disso, a música tem o mérito de juntar dois guitarristas lendários em sua gravação: Nile Rodgers (que também a produziu) e Stevie Ray Vaughan.

Ouça também: "Let’s Dance", que foi outro grande sucesso do álbum de mesmo nome – e é a única música de Bowie a ter chegado ao primeiro lugar das paradas tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra.

"The Hearts Filthy Lesson"

A música – já soturna por natureza, dentro do universo conceitual de "Outside" (1995) – ganhou um novo sentido depois de ser usada pelo diretor David Fincher no encerramento de "Se7en – Os Sete Crimes Capitais", lançado no mesmo ano. Em termos sonoros, a canção é influenciada por grupos como Nine Inch Nails e Marilyn Manson, apresentados a Bowie pelo guitarrista Reeves Gabrels.

Ouça também: em “I’m Afraid of Americans”, de "Earthling" (1997), Bowie vai ainda mais fundo na influência que sofreu do Nine Inch Nails – e até colocou o líder da banda, Trent Reznor, no clipe da faixa.

"Where Are We Now?"

O mundo já havia se conformado com a aposentadoria de David Bowie quando ele postou, sem aviso, em 2013, esta música na internet – algo que a cantora Beyoncé faria mais tarde, no mesmo ano, lançando um disco inteiro no iTunes sem divulgação. Mais do que isso, a letra de “Where Are We Now?” mostra um artista reflexivo, fazendo referências a momentos do passado e se questionando a respeito do presente. Em especial, Bowie canta sobre a situação de Berlim, na Alemanha, durante o período da famosa trilogia "Low" / "Heroes" / "Lodger" e a cidade hoje. Na capa de "The Next Day" (2013), o álbum que se seguiria, ele foi mais longe – usando uma versão alterada da capa de "Heroes".

Ouça também: em "New Killer Star", de "Reality" (2003), David Bowie faz um comentário abstrato sobre os Estados Unidos pós-11 de Setembro. Ele já morava em Nova York na época dos ataques terroristas e nunca mais saiu de lá.


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