Funk e sertanejo dominam a música em 2013

Por iG São Paulo , especial por Paulo Terron |

compartilhe

Tamanho do texto

Nas rádios, apenas 11 entre as 50 canções mais executadas foram de artistas internacionais

Não houve muito espaço para a música estrangeira no gosto do brasileiro em 2013. Tanto nas rádios quanto na internet, estudos de audiência mostram que o sertanejo e o funk dominaram os ouvidos do país.

Segundo estimativas da Crowley Broadcast Analysis do Brasil, empresa que monitora transmissão de áudio, apenas 11 entre as 50 canções mais executadas em rádios nacionais foram de músicos internacionais (Bruno Mars e Rihanna emplacaram duas faixas cada um, mas a posição mais alta foi o 6º lugar de “Don’t Worry Child”, do Swedish House Mafia).

Divulgação/TV Globo
O cantor Luan Santana

"Ruim mesmo era quando ocorria o contrário”, diz João Augusto, proprietário da gravadora Deck, presente no top 20 da Crowley com duas músicas do cantor Naldo Benny: “Amor de Chocolate” (5º) e “Se Joga” (20º) . “Era difícil aceitar que um país musical como o nosso se visse dominado por música feita no exterior, especialmente músicas saxônicas que carecem do suingue que temos de sobra.”

Os dois primeiros lugares na apuração da Crowley foram garantidos pelo sertanejo: o primeiro, com os veteranos Bruno & Marrone e “Vidro Fumê”; o segundo, o “universitário” Luan Santana com “Te Esperando”. Esse sucesso confirma os dados da pesquisa “Tribos Musicais”, do Ibope, divulgada em outubro, mostrando que 58% dos ouvintes brasileiros de rádio preferem o sertanejo.

“Na nossa percepção e números, a música sertaneja domina as rádios e as vendas pelo menos desde os 90 de forma consistente, e chegamos a dizer que, com estes números, a MPB é, na verdade, sertaneja”, diz o presidente da Sony Music, a gravadora de Bruno & Marrone, Alexandre Schiavo. “É o gênero musical que mais se escuta, vende e gera público de shows em todo Brasil. Como sabemos vários artistas sertanejos chegam a fazer mais de 250 shows em um único ano. Um número altíssimo comparado com o resto do mundo.”

Mas a variação de música pop que nasceu do funk também ocupou postos altos. “Show das Poderosas”, de Anitta - que começou a carreira no funk carioca, mas adotou um estilo mais radiofônico quando assinou com a Warner Music -, ficou em 3º lugar. Na mesma onda “funk pop”, “Amor de Chocolate”, de Naldo Benny, aparece em 5º lugar.

AgNews
Anitta foi um dos destaques da música brasileira em 2013

“Quando Naldo distribuiu o primeiro disco com a Deck, o movimento de funk pop ainda era muito incipiente no Rio de Janeiro e no resto do Brasil”, explica João Augusto sobre o sucesso de Naldo. “Havia uma clara distância entre o funk que se fazia então e o que se faz hoje. Naldo soube captar o espaço que havia para ele desenvolver a música que tinha em mente – e fez isso com maestria. Foi pioneiro e veio com uma produção muito bem feita, de nível internacional. Isso o ajudou a alcançar todo o sucesso popular que vimos.”

Para Augusto, o sucesso de Naldo também aponta para um mercado crescente no Brasil: o da música digital. “Isso se deve ao fato de as vendas digitais envolverem vários acessos que hoje são permitidos às diversas classes de consumidores, sem distinção de poder aquisitivo”, explica. “Naldo sempre esteve entre os primeiros vendedores, do iTunes às plataformas de streaming, em aparições no YouTube e outros. É um dos fenômenos desses meios.”

E não são só os artistas que se destacaram durante 2013: a própria venda de música na internet e os programas de assinatura por streaming como Rdio, Napster e Deezer são vistos como um ponto positivo para o ano, como lembra o presidente da gravadora Universal, Jose Antonio Eboli.

Divulgação/Globo
Naldo teve duas músicas entre as mais executadas nas rádios em 2013

“Quanto à decepção creio que podemos mencionar a não chegada da moeda local para o iTunes e alguns dos serviços citados acima, que também irão trabalhar com dólares”, ele completa.

Segundo um relatório da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), a música digital já representava mais de 28% do mercado de música brasileira em 2012. “(O ano foi) muito positivo, não só em vendas, mas também para se ver que o jogo de amarelinha (vai errando, vai saindo), que imperava na música brasileira, está dando lugar a uma saudável convivência de vários estilos, o que condiz muito mais com o tamanho e as diferentes culturas de nosso país”, opina João Augusto sobre o atual momento da indústria musical.

“Foi um ano difícil, por um lado, por ter levantado vários desafios, como a distribuição de música por meios físicos, a divulgação pelos veículos convencionais, e muitas outras questões. Mas 2013 ajudou-nos a olhar à frente e tomar decisões que irão impactar o mercado de forma positiva daqui para frente. Para resumir, sobrevivemos.”

Na internet, segundo o YouTube, os vídeos mais vistos no Brasil mostram que outra tendência se confirma: além do sertanejo e do fenômeno pop Anitta, a nova geração do funk tem dominado a web. Entre os dez clipes musicais, quatro são de funk: três da facção paulista ostentação (“Na Pista Eu Arraso, do MC Guimê; “O Bonde Passou”, do MC Gui; e “Mais Amor, Menos Recalque”, do MC Daleste) e um da carioca passinho (“Passinho do Volante”, do MC Federado & Os Leleks).

“O ano foi uma loucura”, diz Hugo Máximo de Alencar, fundador da Máximo Produtora, que administra a carreira de MC Guimê. “Começou de uma forma que a gente esperava, já tinha projetado que seria desse jeito, mas acelerou mais do que a gente esperava em relação ao sucesso, carreira, visibilidade. Estamos trabalhando faz 3 anos para acontecer tudo isso.”

Curiosamente, os vídeos de funk ostentação são produções independentes, que chegaram aos milhões de visualizações de forma espontânea. “Somos uma gravadora, distribuidora e editora”, conta Alencar sobre o formato adotado para a carreira de Guimê. “É enxuto, trabalho muito com a internet, vendendo as músicas pelo iTunes. E faço a divulgação, como foco maior na internet mesmo.”

A estratégia deu certo e é um exemplo claro da explosão do estilo. Segundo o empresário, a rotina de apresentações ao vivo do MC Guimê é uma boa representação do que ocorreu com o ostentação em 2013. “Ele para só no dia 23 (de dezembro), pediu férias - porque de segunda a segunda está tendo show.” Até 17 de dezembro foram 502 shows em 2013, sendo que o ano ainda não havia se encerrado para o MC. Em 2014, MC Guimê deve ser dedicar à divulgação da faixa que gravou para a Copa do Mundo - “País do Futebol” (que tem participação do rapper Emicida) - e à gravação de um disco físico.

Reprodução/Instagram
O MC Guimê

“Vai ser mais como presente para os fãs dele”, diz Alencar. “Não esperamos vender um milhão de cópias, como poderia ser no virtual. A gente viu que um disco físico não tem mais tanta função na carreira de um artista. Tivemos experiência com outro artista, saímos de cara com um físico e não deu resultado nenhum.”

No extremo oposto da música, o inesperado sucesso da renascida indústria dos discos de vinil surpreende – ainda que seja pequena no Brasil. A única fábrica desse formato na América Latina é a carioca Polysom, reativada em 2009. “Esta é uma das melhores notícias de 2013. O crescimento é inexorável e potencialmente grande”, diz João Augusto, que, além de proprietário da Deck, é consultor da fábrica brasileira. “Prevê-se que a Polysom encerrará o ano com mais de 100% de crescimento na fabricação. E os locais de vendas têm angariado cada vez mais adesões.”

Os números do Ecad também ajudam a confirmam os dados da pesquisa “Tribos Musicais”, do Ibope. Compositores da música sertaneja – Victor Chaves (da dupla Victor & Leo) e Sorocaba (Fernando & Sorocaba) dividem espaço com medalhões do segundo estilo musical mais popular do Brasil, a MPB.

A liderança de Roberto Carlos não surpreende a direção da Sony Music, que a atribui não só ao sucesso de “Esse Cara Sou Eu” (21º lugar na apuração da Crowley, mesmo tendo sido lançada em novembro de 2012), mas a todo o repertório de sucessos do cantor. “O Roberto Carlos tem se mantido durante vários anos no topo da arrecadação até mesmo sem música”, diz o presidente da gravadora, Alexandre Schiavo. “Para se ter uma ideia, apenas nestes últimos anos, o Rei vende cerca de meio milhão de unidades de CDs do seu catálogo a cada ano. Um número incrível em qualquer mercado de música.”

Schiavo diz ainda que “Esse Cara Sou Eu” também fará parte do muito esperado CD de inéditas do músico, o primeiro desde Pra Sempre (2003), que pode sair até o fim de 2014. “Mas ele está em um momento de muito trabalho e energia, com várias ideias de projetos pela frente, além de um EP em espanhol junto com a turnê internacional de 2014”, diz o executivo.

Segundo a Sony Music, o EP de Esse Cara Sou Eu, comercializado a R$ 9,90, vendeu 1,8 milhão de cópias em menos de dois meses. Mesmo se incluídos os compositores estrangeiros na estatística do Ecad, pouco muda e a dominação nacional continua: Katy Perry entraria logo abaixo de Roberto Carlos, Michael Jackson acima de Djavan – e o beatle Paul McCartney ficaria em 11º.

Leia tudo sobre: músicaretrospectivaretrospectiva 2013

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas