Ney Matogrosso: "Que as manifestações não se afastem por causa dos black blocs"

Por Susan Souza , iG São Paulo |

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Cantor lança o disco "Atento aos Sinais" e conversa com o iG sobre política, Aids e biografias não-autorizadas

Aos 72 anos, o versátil e sincero cantor Ney Matogrosso trabalha na divulgação de mais um disco, "Atento aos Sinais", o 35º da carreira, somando-se os álbuns com o grupo Secos e Molhados, tributos e gravações ao vivo.

Em entrevista ao iG, além de falar sobre o novo álbum, que tem canções de Criolo e Paulinho da Viola, Ney reflete sobre assuntos diversos, como Copa do Mundo, manifestações e a polêmica das biografias.

Capa do disco "Atento aos Sinais", de 2013. Foto: DivulgaçãoNey Matogrosso na arte de "Atento aos Sinais". Foto: Marcelo FaustiniNey Matogrosso. Foto: Divulgação/Marcos IssaSecos e Molhados. Foto: DivulgaçãoNey Matogrosso em 'Olho Nu', de Joel Pizzini. Foto: DivulgaçãoNey Matogrosso no documentário 'Olho Nu', de Joel Pizzini. Foto: DivulgaçãoNey Matogrosso. Foto: Photo Rio NewsNey Matogrosso em 'Luz nas Trevas'. Foto: DivulgaçãoNey Matogrosso em 'Luz nas Trevas'. Foto: DivulgaçãoNey no show de "Beijo Bandido". Foto: Augusto GomesNey Matogrosso em 2006. Foto: Augusto GomesNey Matogrosso canta na França em 1989. Foto: Jorge Rosenberg / iGCom um visual mais sóbrio, Ney se apresenta em 1987. Foto: Jorge Rosenberg / iGNey em 1985, no primeiro Rock in Rio. Foto: AENey Matogrosso em 1973, ao lado dos Secos & Molhados. Foto: AENey Matogrosso durante entrevista em São Paulo. Foto: Jorge Rosenberg, especial para o iGNey Matogrosso. Foto: Augusto GomesNey Matogrosso canta em São Paulo. Foto: Augusto Gomes

Em "Atento aos Sinais", Ney interpreta canções de Arnando Antunes com Lenine, Pedro Luís, Paulinho da Viola, Itamar Assumpção, Criolo e autores menos conhecidos. "Achei que para o disco tinha de ter foco em novos compositores."

Ney Matogrosso tornou-se conhecido à frente do grupo Secos e Molhados, no começo dos anos 1970. Na época, sua expressividade musical e teatral contrastavam com o período político endurecido pelo regime militar.

Ousado, o camaleônico artista nascido em Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, criou um estilo próprio: andrógino, provocativo, subversivo e tropical. "Eu vivo apenas com meus próprios meios/ Eu vivo em penas com meus sentimentos", canta em "Homem de Neanderthal", música lançada em 1975.

Leia abaixo a entrevista exclusiva com Ney Matogrosso:

iG: Como foi a seleção de músicas para o novo disco?
Ney Matogrosso: Achei que para o disco tinha de ter foco em novos compositores, são sete músicas de autores menos conhecidos. Venho fazendo esse repertório há muitos anos, em shows, desde 2009. Bom que nunca houve obstáculo entre o público e o repertório novo.

Marcelo Faustini
Ney Matogrosso no novo disco "Atento aos Sinais"

iG: Quais são os discos favoritos de sua carreira?
Ney Matogrosso: Os dois do Secos e Molhados eu gosto muito. Gosto do primeiro disco (solo) "Água do Céu Pássaro" (1975), que tem "Homem de Neanderthal". Gosto do disco "Seu Tipo" (1979), "As Aparências Enganam" (1993), "Vagabundo" (2004), "Batuque" (2001), "Beijo Bandido" (2009) e do novo. Ouço criticamente e acho que é um bom resultado de repertório e de sonoridade.

iG: No novo disco você regravou "Freguês da Meia-Noite", do Criolo. O que acha do trabalho dele?
Ney Matogrosso: Gosto muito. É rap, mas não é um rap tradicional. O Criolo tem um toque jazzístico que faz o trabalho me parecer mais atraente. Assim que ouvi o disco pela primeira vez, tive vontade de cantar essa música.

iG: O que você acha de outros estilos em moda no Brasil hoje, como funk e sertanejo universitário?
Ney Matogrosso: Não tem como fugir, está disseminado. Não me chama a atenção, mas quando surgem umas duplas que nunca vi, assisto e vejo as diferenças, as duplas que dançam mais. Embora não tenha preconceitos contra nenhum estilo musical, nada me chamou a atenção a ponto de eu cantar como a Maria Bethânia fez com a música "É o Amor" (de Zezé di Camargo e Luciano). Mas pode ser que um dia eu encontre uma música (para regravar).

iG: Neste ano, Renato Russo e Cazuza ganharam shows holográficos. O que você acha de "reviver" artistas mortos com essa tecnologia?
Ney Matogrosso: Para falar a verdade, nunca vi um holograma, mas sei do que se trata, vi falando na TV. Acho isso meio estranho, porque parece que você está vendo uma alma. Mas é uma tecnologia que está disponível e que vai ser cada vez mais usada. Não parece muito realista, eu acho estranho.

iG: Você se importaria se escrevessem biografias não-autorizadas sobre você?
Ney Matogrosso: Já tenho uma biografia feita ("Ney Matogrosso: Ousar Ser", por Bene Fonteles) e acho que não tem muito para acrescentar àquela. Em princípio, não vejo problemas, mas depende do que for escrito. O autor não poderia piorar ou inventar as coisas.

iG: Como avalia o atual momento político do Brasil, das manifestações que aconteceram neste ano?
Ney Matogrosso: Não só o Brasil, mas o mundo está se debatendo e nós entramos no movimento do mundo. Acho que tocar para a frente faz parte, é o processo. Vamos ter de conviver com isso e espero que (as manifestações) continuem presentes, que não se afastem das ruas por causa dos black blocs.

iG: O que você acha da Copa do Mundo por aqui em 2014?
Ney Matogrosso: Tenho a impressão de que vamos passar muita vergonha, porque o Brasil não está preparado para receber essa quantidade de gente. Para o Rio será ainda pior no próximo (referindo-se às Olimpíadas de 2016). Essa cidade vai virar um 'salve-se quem puder', não tem estrutura. A não ser que se bote milhões de pessoas dormindo na praia, como foi com a vinda do Papa (na Jornada Mundial da Juventude, em julho deste ano).

iG: O que você faz para se manter criativo e cheio de vitalidade?
Ney Matogrosso: Tenho uma cabeça aberta, acredito que tudo está no lugar certo. Tento ficar sintonizado com o mundo em que estou vivendo, e não achando que antes era melhor. Em alguns aspectos, posso até dizer que era, mas não interessa, é passado, não vai mudar.

iG: Recentemente, você declarou que não sabe como escapou de contrair o vírus HIV nos anos 1980. Como você acha que as pessoas estão lidando com a Aids?
Ney Matogrosso: As pessoas estão lidando como se não existisse o vírus no mundo. Sabe-se que tem tratamento, mas acho uma loucura optar por ter uma doença a não contrair o vírus, arriscar-se a ficar doente e não optar por se precaver. Quando conto minha história, na época não tinha a ameaça, ninguém usava camisinha, era só para quem não queria ter filho. Quando fiz o teste e vi que não tinha sido contaminado, nunca mais parei com a camisinha. As pessoas sabem que a doença continua a existir, mas fazem questão de ignorar. Nós (referindo-se à geração sexualmente ativa nos anos 1980) vimos nossos amigos mortos em um ano com a doença, sem alternativa. Agora ninguém vê isso acontecer, acho que por esse motivo não consideram tanto.

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