Novas canções de funk abordam temas como manifestações e aborto

Por Susan Souza , iG São Paulo | - Atualizada às

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Com letras politizadas, estilo se contrapõe ao funk proibidão e ao ostentação, que falam de mulheres, dinheiro e poder

Esqueça letras que apenas exaltam violência, drogas, mulheres, dinheiro, carrões. O funk paulista tem reencontrado sua raíz engajada e agora trata de questões como aborto e protestos. Os temas são rimados por jovens como MC Garden, 19 anos, criado na zona sul de São Paulo. 

"Muita gente achava que era rap, mas o que eu faço é funk com conteúdo", disse o cantor ao iG. Garden é um dos principais nomes do novo "funk consciente" ou "funk realidade", vertente que se concentra em letras ácidas de protesto - bem diferentes das composições dos proibidões cariocas e do funk ostentação.

MC Garden. Foto: DivulgaçãoMC Dimenor DR. Foto: DivulgaçãoMC Danado. Foto: DivulgaçãoMC Daleste. Foto: Divulgação/Facebook

"Crianças de 12, 13 anos escutam funk. Esse negócio de bunda, dinheiro e essa ilusão (refere-se às letras do funk ostentação) não são uma realidade que uma criança tem que escutar", diz o MC, que surpreende o ouvinte com letras que tratam de temas polêmicos, como o caso Amarildo, e questões internacionais, como o conflito na Síria.

Uma das principais faixas de MC Garden é "Isso É Brasil", cuja letra diz: "Pensadores tentaram avisar, mas você fingiu que não viu/ aqui a bunda vale mais que a mente, infelizmente esse é o Brasil".

As rimas engajadas têm sido observadas por artistas como Gabriel, O Pensador e Emicida. Ambos já convidaram Garden para fazer participações recentes em seus shows.

MC Garden recentemente gravou o clipe de "Feticídio", faixa do disco "Isso É Brasil". Na letra, o jovem funkeiro se posiciona contra o aborto: "Agora pare e pense, jovem/ antes de agir assim/ virar os 'zóinho' foi bom/ agora é bom tu assumir".

Banido do YouTube

Líderes políticos, religiosos e a polícia estão no alvo das rimas diretas de MC Garden, que também não economiza nas críticas em seus clipes. O canal do cantor no YouTube chegou a ser removido e MC Garden não sabe o motivo. "O Rafinha Bastos tinha contatos (no YouTube) e conseguiu recuperar o canal", conta.

"Quando tive meu DVD censurado e retirado das lojas, passei por algo muito parecido. O trabalho do Garden é sensacional e precisa chegar ao público", disse ao iG o humorista Rafinha Bastos.

Funk ostentação "nasceu" do realidade

Muitos dos funkeiros que hoje são conhecidos por cantar funk ostentação - subgênero que exalta carros, dinheiro, baladas, bebidas e mulheres - já foram adeptos do funk consciente (também conhecido como funk de protesto ou realidade). Esse é o caso do MC paulistano Dimenor DR, de 19 anos.

"Me identifiquei com o ostentação e faço o estilo que o povo gosta. Mas se você usar a criatividade e um tema legal, mesmo que seja de protesto, o negócio 'bate'", conta. Uma das faixas que mostram Dimenor cantando funk consciente é "Pensamentos Trancados", que ele gravou com o MC Daleste, morto durante um show em julho deste ano.

Compor letras engajadas não se encaixa no perfil de muitos funkeiros, que alegam não gostar de "falar de problemas". Dono do hit "Daquele Jeito", o paulistano MC Danado, 32, prefere a temática do funk ostentação.

"O povo está cansado de falar de pobreza e funk de protesto é hipocrisia. Prefiro falar de coisas boas, positivas. Quem tem de cuidar (da pobreza) é o governo", declara. "Meu negócio é ostentação e valorização da mulher."

Funk de protesto x funk ostentação

"Seria uma simplificação colocar de um lado a ostentação e do outro o protesto, até porque há muito de protesto na ostentação, de querer consumir agora aquilo que sempre foi privilégio dos ricos", avalia o antropólogo Hermano Vianna, autor dos livros "O Mundo Funk Carioca" e "O Mistério do Samba".

Para Renato Barreiros, um dos diretores do documentário "Funk Ostentação - O Filme", "o funk é um gênero musical que fala dos problemas sociais, das alegrias, das coisas que se vê na rua. Não se pode ter preconceito com o funk, que é uma expressão da periferia e tem que falar sobre tudo mesmo".

Barreiros ressalta que seja ostentação, proibidão ou consciente, o funk não tem a presença das grandes gravadoras, algo que poderia tirar a independência das letras. "O MC não se preocupa se (a música) vai ou não para a rádio ou se a gravadora vai aprovar. É uma expressão, tem a ver com poesia."

Origens do funk

Apesar de usar o mesmo nome que o funk norte-americano, o funk brasileiro é harmonicamente diferente e carrega influências de ritmos diversos, como rap, hip hop, MPB, electro e da música eletrônica.

As primeiras manifestações aconteceram no Rio de Janeiro na década de 1980. A partir de então, deu origem a subgêneros como o proibidão e o funk melody. O DJ Marlboro é tido como um dos responsáveis pela criação do funk carioca. 

Fora do Rio, o gênero ganhou uma outra vertente na Baixada Santista, com letras de cunho social conhecidas como funk realidade (ou consciente, de protesto), que dialogam com a proposta do rap engajado.

Nos anos 1990, os bailes funks se popularizaram e nomes como Claudinho e Buchecha levaram o estilo para fora das periferias. A dupla alcançou grande sucesso na mídia com músicas mais acessíveis e de pegada pop.

Na cidade de São Paulo, a manifestação mais popular atualmente é o funk ostentação, que troca os temas sociais pelas letras que rimam sobre festas, noitadas com os amigos, mulheres bonitas e artigos de luxo.

A internet reina como o principal canal de divulgação do cenário funkeiro do País, pois oferece alcance amplo e conteúdo sob demanda, além de não exigir investimentos muito altos por parte dos artistas independentes.

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