"Vinicius de Moraes tinha fama de bom de copo, mas era mesmo bom de garfo"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Livro recupera receitas preferidas do artista e detalha sua relação com a comida; leia entrevista com a chef Daniela Narciso, uma das autoras do projeto

"Ajudo bastante em casa pois sou bom cozinheiro". O verso do poema "Auto-retrato" já revelava que Vinicius de Moraes se sentia muito confortável na cozinha. Mas a paixão do autor por comida nunca foi tão conhecida como o gosto pela bebida, em especial o uísque - algo que o livro "Pois Sou Bom Cozinheiro", lançado pela Companhia das Letras, pretende mudar.

Veja o especial sobre o centenário de Vinicius de Moraes

"Ele ficou com fama de bom de copo, mas acho que era mesmo bom de garfo: gostava mais de comer do que beber", brincou a chef Daniela Narciso, uma das autoras, em entrevista ao iG. "Ele comia tudo com vontade, com prazer, falava, indicava restaurante. Todo amigo guarda alguma receita dele."

Divulgação
Livro reúne receitas e histórias de Vinicius de Moraes

O livro, que reúne receitas e histórias gastronômicas do poetinha, foi ideia de sua filha, Luciana, que fez uma ampla pesquisa sobre a presença de referências culinárias na obra do pai. Por sua experiência no mercado editorial, Daniela foi convidada a entrar no projeto logo no início.

Em 2011, a morte de Luciana fez com que sua companheira, Edith Gonçalves abraçasse o projeto e o finalizasse ao lado de Daniela. "Houve um período de luto para todo mundo, mas sabíamos que tínhamos que tocar o livro. A vontade da Luciana era essa, tanto que a última ligação que fez antes de morrer foi para a editora", contou a chef.

O trabalho das autoras incluiu entrevistas com familiares e amigos, consultas a antigos livros de receitas e um mergulho na obra do autor: de livros e canções até cartas. "A ideia era remontar o cenário gastronômico da vida do Vinicius, fazer uma espécie de biografia a partir da comida."

"Pois Sou Bom Cozinheiro" está dividido em três seções. A primeira fala sobre Vinicius em casa, desde a infância, quando brincava com os irmãos em volta da mesa, até a vida adulta. A segunda seção é sobre Vinicius na rua - os lugares em que morou, os restaurantes que frequentava e os jantares na casa de amigos. Na terceira seção, dedicada à obra, as autoras convidaram chefs famosos para interpretar citações culinárias do poetinha.

Assim, Flávia Quaresma transformou um verso sobre uma grávida com "desejo súbito de alcachofra" em uma receita de risoto de alcachofrinhas baby. Para Claude Troisgros, o texto dado foi: "E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?"

Ele optou, então, por uma clássica receita francesa de frango recheado que fica horas cozinhando em fogo baixo. "Dá tempo de preparar, fazer amor e voltar para comer", justificou.

Vinicius de Moraes, o poetinha. Foto: AEO escritor, compositor e músico Vinicius de Moraes completaria 100 anos neste sábado (19). Foto: DivulgaçãoVinicius de Moraes e Helô Pinheiro. Foto: DivulgaçãoO poeta Vinicius de Moraes. Foto: DivulgaçãoVinicius e a filha, Georgiana de Moraes. Foto: DivulgaçãoVinícius de Moraes (1913 ¿1980). Principais obras: Poemas, sonetos e baladas (1946) e Livro de sonetos (1957). Modernismo. Foto: ReproduçãoTom Jobim e Vinicius de Moraes. Foto: Divulgação

A participação dos chefs permitiu a inclusão de algumas receitas modernas, já que muitas presentes nos primeiros capítulos são de 1960 a 1980. Quando necessário, Daniela fez adaptações: "Hoje a manteiga tem menos gordura, a farinha tem menos glúten...tudo isso influencia", afirmou a chef. Em uma receita de bolo, o número de ovos foi reduzido de 32 para seis.

Segundo Daniela, até os 40 anos Vinicius foi "inconsequente" quanto à alimentação, chegando a contrair diabetes por causa da quantidade de açúcar que costumava ingerir. "Ele tinha muita receita de doce, era um formigão mesmo. Mergulhava o pastel de carne e a empadinha no açucareiro", afirmou.

Além da doença, a morte de amigos como o chileno Pablo Neruda o inspirou a mudar de hábitos, tirando, por exemplo, o creme de leite do espaguete ao funghi, um de seus favoritos. Não por acaso, em "Amigos Meus", ele pregou uma "dieta relativa" durante a semana para "se esbaldar nos domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos...”

O projeto "Pois Sou Bom Cozinheiro" ganhará nova fase a partir de 28 de novembro, quando restaurantes dos chefs que participaram do livro servirão menus inspirados no poetinha - numa comemoração ao centenário do artista.

O festival começará no Bar da Dona Onça, em São Paulo, com refeição preparada pela chef Janaina Rueda. Ao custo de R$ 119 (a cada duas pessoas, um livro será dado de presente), será possível experimentar a sobremesa preferida do autor: papo de anjo. A entrada será sopa de feijão com macarrão de letrinha e o prato principal será picadinho com arroz e farofa - ou, como Vinicius preferia, "arroz soltinho e farofinha".

Abaixo, fica uma receita de "linguicinha frita":

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Reproduzido do livro 'Pois Sou um Bom Cozinheiro', da Companhia das Letras


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