Vinicius fez poesia viva e apaixonada (e menor)

Por iG São Paulo , por Rodrigo de Almeida | - Atualizada às

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A conversão da tristeza em alegria, mesmo sabendo que a alegria se converte tantas vezes em tristeza, é a grande chave do que Vinicius escreveu. E cantou.

“Afinal, poetinha, quantas vezes você vai se casar?”, ouviu Vinicius de Moraes do amigo Antônio Carlos Jobim. Atônito com a inconstância amorosa do parceiro, o maestro desejava afrontá-lo. Com improviso, bom humor e sabedoria, suas marcas habituais, Vinicius respondeu: “Quantas forem necessárias”. Se cada dia tem sua agonia, como disse o apóstolo Paulo, para Vinicius a máxima era própria dos homens apaixonados: a cada paixão arrebatadora, não haveria uma razão para evitar casar – assim era ele.

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Atire a primeira pedra aquele que não recorreu à poesia, sua ou de outros, para encantar mulheres. Ou cantá-las simplesmente. Como poeta e letrista compositor, Vinicius levou essa característica masculina ao paroxismo. A diversidade de histórias amorosas protagonizadas pelo poeta era sua maior abundância. Não por desvio de caráter, leviandade ou infidelidade crônica. Era apenas seu estoque de generosidade e um quê de poesia mesmo quando se tornou apenas um letrista.

Vinicius de Moraes, o poetinha. Foto: AEO escritor, compositor e músico Vinicius de Moraes completaria 100 anos neste sábado (19). Foto: DivulgaçãoVinicius de Moraes e Helô Pinheiro. Foto: DivulgaçãoO poeta Vinicius de Moraes. Foto: DivulgaçãoVinicius e a filha, Georgiana de Moraes. Foto: DivulgaçãoVinícius de Moraes (1913 ¿1980). Principais obras: Poemas, sonetos e baladas (1946) e Livro de sonetos (1957). Modernismo. Foto: ReproduçãoTom Jobim e Vinicius de Moraes. Foto: Divulgação

Apenas, no caso, pode e deve ser lido entre aspas. Vinicius fez a opção de restringir-se às letras e canções deliberadamente – ainda que o atributo “poetinha” jamais deixasse de acompanhá-lo. Ele se despiu da formação sofisticada de Oxford, das interrogações metafísicas que sublinharam sua juventude, dos laços próximos com intelectuais como Octavio de Faria e Augusto Frederico Schmidtt e das leituras de Katherine Mansfield para lidar com coisas, digamos, mais prosaicas: mulheres sensuais, paixonites de verão, as pequenas sensações, o trivial, as emoções miúdas (mas sempre fatais).

Os companheiros de poesia se arrepiaram. Quando fez essa passagem, Vinicius de Moraes era um grande poeta. Vivia-se a profícua década de 1950. Mas exibia uma incômoda crise de identidade. Um de seus mais belos poemas, “O operário em construção”, acabara de ser publicado com louvor. Nomes como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga disputavam sua companhia – e cada um tentava arrastá-lo em uma direção.

Literatura inglesa com chope

Divulgação
O centenário Vinicius de Moraes

O poeta estava insatisfeito com tudo isso. Como lembra o biógrafo José Castello, ele buscava alguma outra coisa que não combinava com a imagem do diplomata de carreira com posto em Paris, com o homem de semblante introspectivo que compunha canções de câmara e enfrentava dilemas espirituais, com a estampa, enfim, de intelectual. Ele queria algo diferente e popular, e foi Tom Jobim o primeiro a lhe garantir esse algo. Muitos anos depois, o maestro soberano formularia uma definição do que lhes restava a fazer: “Eu tomo chope com o Vinicius e ele me desperta para a literatura inglesa”. Depois de Tom, viriam Baden Powell, Carlos Lyra, Pixinguinha, Toquinho, Edu Lobo, Francis Hime e, para fazer ciúme ao Tom, Chico Buarque.

Não se pode dissociar a opção dele pela música e pelo encanto fácil do povo da passagem primeira como poeta. Se for possível alguém cometer a heresia de definir qual das duas artes é a melhor, convém dizer que, na música, Vinicius foi um grande poeta. Só as almas pequenas, no entanto, gostam de classificar a poesia como um tom a mais no cânone cultural do que o letrista. É um dilema histórico, mas desnecessário.

Além de Drummond e João Cabral, o outro grande nome da tríade da poesia moderna brasileira é Manuel Bandeira. Em novembro de 1933, ele listava alguns livros recebidos e destacava o livro de estreia de um desconhecido, o sr. Vinicius de Moraes. O título: “O caminho para a distância”. A primeira impressão: “a fatalidade de uma vocação”. O noviço tinha apenas 19 anos e, no primeiro poema do livro, escrevia:

O ar está cheio de murmúrios misteriosos

E na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização...

Tudo está cheio de ruídos sonolentos

Que vêm do céu, que vêm do chão

E que esmagam o infinito do meu desespero

Através do tenuíssimo de névoa que o céu obre

Eu sinto a luz desesperadamente

Bater no fosco da bruma que a suspende

(...)

Usando e abusando do verso livre, o poeta queria distanciar-se do mundo e dos homens, alçando-se para as alturas místicas, superiores. “Forma e exegese”, publicado em 35, reforçou as características do primeiro livro. Mas os versos se tornaram mais longos, como se os versículos bíblicos fossem a sua forma preferida. Premiado, o livro lhe garantiu enorme sucesso.

Em “Ariana, a mulher”, do ano seguinte, Vinicius reduziria o uso do verso livre e adotaria “ritmos medidos regulares”. Substituiu a facilidade verbal para a disciplina de formas menos arbitrárias. Sublinhava ali uma poesia extremamente sensual – definição de Rubem Braga – transformação que completaria em “Novos poemas”, de 38.

Mas seu mais importante livro de poesia talvez seja “Poemas, sonetos e baladas”, publicado em 1946 com apenas 373 exemplares, numerados e assinados pelo autor. Mas logo muitos de seus poemas se tornariam célebres, como “Soneto do maior amor”, “Balada de mangue”, “Poema de natal” e “Soneto de separação”. Alguns de seus versos passaram a fazer parte da memória popular, como os de “Soneto de Fidelidade”:

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Do fôlego dos românticos à liberdade dos modernos

Vinicius, como se vê como se sabe, produziu uma poesia viva e apaixonada. Manuel Bandeira – de novo ele – afirmou que Vinicius exibia “o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos (sem refugar, como estes, as sutilezas barrocas) e, finalmente, homem bem do seu tempo, a liberdade, a licença, o esplêndido cinismo dos modernos”.

O risco do Vinicius poeta é que, em se tratando de poesia, só o excelente é bom, como escrevem com razão, Antônio Cícero e Eucanaã Ferraz, organizadores de “Nova antologia poética”, publicado pela Companhia das Letras em 2003.

Ezra Pound dizia que “é melhor produzir ‘uma’ Imagem na vida do que obras volumosas”. Como na poesia o que conta não é a quantidade, mas a qualidade, considera-se justo que o poeta que tenha publicado apenas algumas poucas páginas extraordinárias seja considerado grande. E seja menor o poeta que publicou uma batelada de páginas não mais que medíocres.

Vinicius publicou muito, e publicou muita coisa boa. Mas nem tudo o que publicou e nem mesmo tudo o que escolheu para a antologia que fez da própria obra merece estar ao lado dos seus melhores poemas. Ele foi, em síntese, um grande poeta. Certamente não está entre os grandes escritores que publicaram apenas algumas poucas páginas extraordinárias. Há quem ache até que ele se encontra entre os raros que publicaram muitas páginas extraordinárias.

Pelo sim, pelo não, está longe de ser pouco para alguém que teve a coragem de quebrar certas hierarquias culturais e unir a chamada altura cultura à cultura popular. João Cabral dizia: “Que desperdício, Vinicius fica fazendo essas coisas... Fico com inveja que ele tenha tanto talento. Eu sofro tanto para fazer um poema e aquilo sai dele com tanta naturalidade”.

De novo: muita gente achava que fazer letra de música era uma coisa menor. Vinicius arriscou a reputação de poeta sério – e durante muito tempo ele mesmo a maculou – para ser muito criticado por fazer música popular.

Tristeza alegre, alegria triste

Na poesia ou na música, adotou a melancolia como força de gravidade do mundo, que atrai as alegrias da vida para seu fundo de tristeza. O fundo do seu lirismo é melancólico, e assim seria irremediavelmente não fossem as duas entidades-força que o sustentavam: a paixão da mulher, sempre transitória e necessariamente renovada, mas infinita enquanto dura, e a canção, o sopro da palavra poética, que enche de alegria o vazio sem fundo da impossibilidade de realização do desejo.

A conversão da tristeza em alegria, mesmo sabendo que a alegria se converte tantas vezes em tristeza, é a grande chave do que Vinicius escreveu. E cantou.

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