Paulicéia Literária: Valter Hugo Mãe e Juan Pablo Villalobos divertem com causos

Por Aline Viana , especial para o iG São Paulo | - Atualizada às

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Português oferece aos leitores um guia para quem quiser começar a destrinchar sua obra

O português Valter Hugo Mãe e mexicano Juan Pablo Villalobos atingiram a química perfeita prevista pela curadora Christina Baum ao propor a mesa “O apocalipse das vacas”: o bate-papo, conduzido por Vanessa Ferrari, arrancou gargalhadas da plateia ao debater as obras e o processo criativo dos leitores.

Juan observou que seu processo criativo parte geralmente de questões que lhe são mal resolvidas. E citou um causo que lhe aconteceu nesta semana como exemplo do que poderia ser uma história sua: Villalobos precisou cortar o cabelo pra estar apresentável na Pauliceia, uma vez que um corte anterior não havia dado certo.

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Aline Viana/iG
Paulicéia Literária recebe Valter Hugo Mãe e Juan Pablo Villalobos

“Meu cabeleireiro estava com dois dedos fraturados, mas ainda estava trabalhando. Como um país não tem um sistema de proteção aos trabalhadores quando eles não podem trabalhar? O protagonista, no caso eu, entra numa situação e culpa da classe média. Daí, aceitei e o cabelereiro cortou um outro dedo enquanto me atendia. Fomos ao pronto socorro, eu com um lado do cabelo cortado e outro não, e lá havia uma longa fila para ser atendido. Fui obrigado a deixa-lo lá e procurar outro cabeleireiro. Daí o meu cabelo é uma metáfora dos problemas estruturais do país”, contou sob risos e aplausos do público.

O último romance de Villalobos, “Se Vivêssemos Num Lugar Normal” Companhia das Letras), aborda de uma forma metafórica a situação cheia de sarcasmo o México dos anos 80, um país marcado pela hiperinflação e sob o domínio há décadas do PRI (Partido Revolucionário Institucionalizado).

A mediadora Vanessa Ferrari pediu que Valter Hugo Mãe que explicasse a “felicidade das máquinas”, almejada por um personagem de “O Apocalipse dos Trabalhadores” (Cosaf Naif):

“Esse personagem vinha fugido da Ucrânia e precisava se alicerçar em algo, que é o trabalho. Ele precisa ser funcional, limitar suas emoções. Tudo o que eu estraguei na minha vida foi pelas emoções, sou claramente emotivo e cheio de dúvidas acerca da idade adulta e sempre penso que o momento é ilusório para me robustecer de algum modo. O romance que acabo de lançar em Portugal chama-se ‘Desumanização’ (previsto para sair em 2014 no Brasil) porque para persistir talvez seja preciso baixar os índices de humanidade. A sensibilidade exagerada pode nos fazer mal. Na minha participação na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) eu chorei e um crítico brasileiro decretou a ‘morte do autor’. Vejam: chorei uma única vez no Brasil e fui logo sepultado”, contou, arrancando risos de Villalobos e da audiência.

“O Apocalipse dos Trabalhadores” (Cosac Naif), que Valter Hugo está lançando no Brasil é seu terceiro livro, escrito logo após “o remorso de baltazar serapião”, romance de perspectiva masculina. A trama expõe a situação de uma trabalhadora doméstica portuguesa sem maiores atrativos que se apaixona por um imigrante ucraniano alto, loiro e bonito. “Minha ideia era expor o fato de que as mulheres não terem história, pois tudo que sabemos das mulheres é contado pelos homens. Elas nunca tiveram voz. Depois de escrever ‘o remorso’, quis escrever algo oposto, em que o mundo estivesse nas mãos das mulheres”, descreveu.

Para começar a ler Valter Hugo Mãe – o autor oferece uma sugestão de leitura para os leitores que quiserem tomar contato com seus livros. Mãe diz que sempre escolhe os livros de acordo com a personalidade do leitor. “A Desumanização”, seu mais recente romance, será lançado no início de 2014.

- “O Filho dos Mil Homens” – ideal para um leitor com perfil “sensível”

- “A Máquina de Fazer Espanhóis” – para o leitor mais calmo e maduro

- “O Remorso de Baltazar Serapião” – para os aficionados por leitura

- “O Apocalipse dos Trabalhadores” – para as feministas ou aqueles se preocupam com o papel da mulher na sociedade

- “A Desumanização” – para o leitor que aprecie uma obra com maior inspiração

estética”, atento ao “esplendor da expressão literária”.

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