Bruce Springsteen: uma vida em 10 músicas

Por iG São Paulo , por Miguel Martins, especial para o iG |

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Cantor faz show em São Paulo e é uma das principais atrações do Rock in Rio; conheça sua trajetória por meio de algumas das canções mais conhecidas

Bruce Springsteen, 63, não gosta de ser chamado de The Boss (“O chefe”), mas a alcunha lhe cai bem.

No filme “Alta Fidelidade”(2000), por exemplo, o personagem Rob Gordon, interpretado por John Cusack, pede conselhos imaginários sobre relacionamentos a Springsteen. A “alucinação” de Gordon traz o músico tocando uma guitarra Telecaster enquanto sugere que o protagonista ligue para suas ex-namoradas, pedindo perdão pelas besteiras que fez. Aceito o conselho, Gordon agradece com um “obrigado, Boss”.

Bruce Springsteen canta no Hyde Park, em Londres. Foto: Getty ImagesBruce Springsteen canta no Hyde Park, em Londres. Foto: Getty ImagesBruce Springsteen canta no Hyde Park, em Londres. Foto: Getty ImagesBruce Springsteen canta no Hyde Park, em Londres. Foto: Getty ImagesBruce Springsteen canta no Hyde Park, em Londres. Foto: Getty ImagesBruce Springsteen canta no Hyde Park, em Londres. Foto: Getty ImagesBruce Springsteen canta no Hyde Park, em Londres. Foto: Getty ImagesBruce Springsteen canta no Hyde Park, em Londres. Foto: Getty Images

Em 40 anos de carreira solo, boa parte dela “chefiando” a E Street Band, Springsteen já conquistou todos os prêmios possíveis: 20 Grammys, dois Globos de Ouro, um Oscar e a entrada no Rock and Roll Hall of Fame, em 1999.

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Se a admiração da indústria musical e cinematográfica é enorme, o músico tem no seu carisma e na simplicidade de suas composições a fórmula para agradar gregos e troianos - dos fãs de indie rock, como o protagonista de “Alta Fidelidade”, até o trabalhador de classe média, que ilustra muitas de suas letras.

Em turnê com o disco “Wrecking Ball” (2012), este norte-americano de Long Branch, cidade de Nova Jersey, fecha o palco mundo do Rock in Rio no dia 21 de setembro, após 25 anos desde seu último show no Brasil. Ele ainda se apresenta no Espaço das Américas, em São Paulo, em 18 de setembro.

Para radiografar os 40 anos da carreira de Bruce Springsteen, o iG selecionou dez canções que ajudam a contar um pouco de sua trajetória: desde a vida familiar pobre e a idolatria por Elvis Presley, passando por seus primeiros sucessos, até sua fase de maior consciência política, a partir da década de 1980.

Relação com o pai e a mãe - "The Wish"

Springsteen nasceu em uma família católica de classe média baixa. Seu pai, motorista de ônibus, passou boa parte de sua infância desempregado e deprimido. A mãe, Adele, era secretaria e principal provedora da família.

Em “The Wish”, composta em 1986 – lançada na coletânea “Tracks”, em 1998 -, The Boss lembra com pesar dos olhos de seu pai, ou “janelas para um mundo tão verdadeiro e mortal”. A mãe, porém, o impedia de ser absorvido pela tristeza do pai, e era sua principal incentivadora. Os primeiros versos da canção lembram o dia de Natal em que Bruce ganha da mãe uma guitarra japonesa Kent, comprada com ajuda de um empréstimo.

Fascínio por Elvis Presley - "Johnny Bye Bye"

Foi no rebolado e no jeito de cantar de um certo rapaz do Mississipi que Springsteen encontrou seu primeiro herói musical. “Quando tinha nove anos, eu não podia imaginar alguém que não queria ser o Elvis Presley”, afirma o músico na biografia “Bruce Springsteen: Two Hearts, the Story”, de Dave Marsh.

Seu primeiro contato com o “rei do rock” foi comum ao da grande maioria do público americano. A apresentação de Elvis no programa “The Ed Sullivan Show”, em 1956, empolgou o então garoto, que enxergava no cantor um modelo a ser seguido. Além da afinidade musical, Springsteen era, assim como Elvis, de origem humilde, criado em um ambiente de poucos recursos e esperanças.

Em 1982, Springsteen gravou uma canção em homenagem a Elvis, que morrera cinco anos antes. “Johnny Bye Bye” toma emprestados os versos da quase homônima “Bye Bye Johnny”, de Chuck Berry, alterando-os para o contexto da vida e da morte de Elvis. A canção, mais que um simples tributo, é uma reflexão sobre os excessos e o triste fim da carreira de seu ídolo.

Fugindo da Guerra do Vietnã - "Born in the USA"

Aos 18 anos, Springsteen foi convocado para o serviço militar obrigatório. O ano era 1967, e o número de jovens recrutados para a Guerra do Vietnã aumentava. Decidido a não servir no conflito, The Boss inventou uma história para contar ao exército americano.

Ao se apresentar para os testes e exames físicos, afirmou que era homossexual, e ainda emendou um trauma infantil inusitado. Ele contou aos militares que, desde que vira o pai matar um pato em um Dia de Ação de Graças, havia desenvolvido um instinto assassino quando perto do animal. Segundo ele, se estivesse em um campo de batalha, e visse algum pato por perto, poderia sair matando seu próprios colegas. Assim, acabou mandado de volta para casa.

Em “Born in the USA”, música de 1985 que dá nome ao seu álbum de maior sucesso, o cantor visita o tema da guerra, narrando a trajetória típica de um veterano do Vietnã que, ao voltar para casa, não consegue arrumar emprego e tem lembranças traumáticas de colegas mortos no conflito.

Primeiro lugar nas paradas (só que não) - "Blinded by the Light"

No final dos anos 1960, Bruce Springsteen tocou com alguns grupos, como Earth e Steel Mill. A partir de 1973, começou de fato sua carreira solo, com o lançamento do álbum “Greetings from Asbury Park N.J.”. Lançado pela Columbia Records, a primeira versão do disco desagradou a gravadora, que não enxergava potenciais hits. Em resposta, Springsteen compôs “Spirit in the Night” e “Blinded by the Light”.

Carro-chefe do disco, “Blinded by the Light” não conseguiu sequer entrar para o top 100 da Billboard. No entanto, em 1977, uma versão da canção gravada pela Manfred Mann’s Earth Band chegou à primeira posição da parada americana. Ironicamente, foi a única composição de Bruce Springsteen a liderar a lista até hoje.

Correndo atrás do sucesso - "Born to Run"

Após dois discos elogiados pela crítica, mas de pouco sucesso comercial, Springsteen decidiu registrar seu terceiro álbum usando todos os recursos possíveis de estúdio. Com composições baseadas em piano, mas arranjadas com várias camadas de guitarras e metais, “Born to Run” trazia uma faceta mais hard rock do Boss, cujos primeiros discos sofriam mais influência de country e folk. O álbum levou 14 meses para ficar pronto, com sucessivas mudanças de produtores e versões das músicas.

Só a faixa-título “Born to Run” passou por várias remodelagens. A gravadora queria uma versão editada da canção, cujo registro ultrapassava os quatro minutos. Inconformado com os resultados da edição, Bruce Springsteen decidiu lançar “Born to Run” em sua duração original. O single chegou à 23ª posição da parada da Billboard, mas catapultou o sucesso do álbum, que alcançou o terceiro lugar

Derrubando barreiras (1) - "Chimes of Freedom"

A década de 1980 marcou o grande momento comercial da carreira de Bruce Springsteen. Além do sucesso de “Born in the U.S.A.”, que emplacou sete singles entre os top 10 da Billboard e terminou 1985 no topo da parada de discos, o músico protagonizou um importante episódio da trajetória que culminou na queda do muro de Berlim, em 1989.

No ano anterior à reunificação da Alemanha, Springsteen foi convidado a se apresentar na Berlim oriental. O Partido Socialista Unificado, buscando agradar aos jovens da cidade que viviam do lado leste do muro, abriu as portas para a primeira apresentação de um arista de rock norte-americano na República Democrática Alemã (RDA).

Com cerca de 300 mil presentes, o músico discursou em alemão sobre a necessidade de derrubar barreiras, e cantou “Chimes of Freedom”, de Bob Dylan. A canção, que fala de muros que se estreitam e clama pelos “sinos da liberdade”, foi o ponto alto do show. Não à toa, há quem afirme que o evento, televisionado para todo o país, desempenhou papel importante na formação de uma opinião pública contrária à divisão de Berim – e ao regime comunista do leste.

Derubando barreiras (2) - "Streets of Philadelphia"

O filme “Filadélfia”, dirigido por Jonathan Demme e protagonizado por Tom Hanks, foi o primeiro longa comercial a tratar diretamente da Aids, ao narrar um processo judicial de um soropositivo contra e empresa que o demitiu. No começo de 1993, o diretor pediu a Springsteen uma canção especialmente para o filme.

Com letra melancólica sobre solidão e amizade, “Streets of Philadelphia” fez tanto sucesso quanto o filme. Chegou ao primeiro lugar nas paradas de vários países europeus, foi top 10 da Billboard e terminou premiada com o Oscar de melhor canção original.

Questão policial e racismo - "American Skin (41 Shots)"

Em 1999, o imigrante da Guinea Amadou Ballo Diallo foi morto por quatro policiais de Nova York, que o confundiram com um suspeito de estupro. Mesmo desarmado, Diallo levou 41 tiros. O episódio sensibilizou Springsteen, que compôs “American Skin (41 Shots)”, gravada em 2001. A canção incomodou o sindicato dos policiais de Nova York, que chegou a pedir um boicote a um show do Boss no Madison Square Garden.

11 de Setembro - "The Rising"

O ataque ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001 foi abordado largamente por Hollywood e pela música pop nos últimos anos. Mas Bruce Springsteen foi sem dúvida um dos primeiros artistas a compor sobre o assunto.

Em 2002, ele lançou “The Rising”, um disco de canções-homenagens aos mortos no atentado. A maior parte das letras foi escrita em cima de conversas telefônicas com familiares das vítimas – algumas delas grandes fãs da música de Springsteen. Na faixa-título, a história de um bombeiro que sobe uma das torres atingidas pelos aviões ganha contornos de ascensão religiosa. Era uma das imagens centrais que ficara na cabeça do compositor. “Aquelas pessoas subindo (as torres)... e para quê?”, lembra Springsteen, em uma de suas biografias.

Crise econômica - "Death To My Hometown"

Dez anos depois de lançar um disco-homenagem às vítimas do 11 de Setembro, Springsteen visita os Estados Unidos pós-crise econômica em seu álbum mais recente, “Wrecking Ball”, lançado no ano passado. Com um largo histórico de ser um retratista dos costumes e anseios da classe trabalhadora norte-americana, The Boss assume seu lado “Occupy Wall Street” no álbum. As críticas ao capital financeiro e ao governo surgem em canções como “We Take Care of Our Own” e a própria faixa que dá nome ao disco.

Em “Death to My Hometown”, Springsteen utiliza uma figura de guerra (“eles trouxeram morte para nossa cidade natal”), mas a violência não é bélica. Desde o início, o compositor alerta que não foram bombas nem rifles os responsáveis pela crise, mas os “ladrões gananciosos”, que destruíram pequenas fábricas e tomaram as casas dos trabalhadores.


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