No Brasil, Afrika Bambaataa comemora os 30 anos da clássica música "Planet Rock"

Por Gustavo Abreu , iG São Paulo |

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Produtor considerado o "pai do hip hop" fala sobre a evolução do gênero na capital paulista: "Ainda hoje não pensam no hip hop como um movimento cultural"

Afrika Bambaataa, produtor considerado “o pai do hip hop”, se apresenta em São Paulo nesta sexta-feira (19). O mestre nova-iorquino faz show no Cine Joia ao lado de outros DJs brasileiros, como MZK e DJ Magrão, na noite que marca os 13 anos da festa JIVE, queridinha da turma da black music na capital paulista.

Em entrevista para divulgar sua passagem pelo Brasil - ele ainda fará show no Rio, e tem visitas marcadas a unidades do CEU em São Paulo -, “Bam”, como é conhecido entre os integrantes de sua ONG, a Universal Zulu Nation, falou sobre os 30 anos de sua música mais famosa, “Planet Rock”, e a evolução do gênero desde sua criação até a “era Jay-Z”.

O DJ e produtor Afrika Bambaataa. Foto: Getty ImagesO DJ e produtor Afrika Bambaataa. Foto: Getty ImagesAfrika Bambaataa e Paula Lima. Foto: AgNewsO norte-americano Afrika Bambaataa. Foto: Getty ImagesO DJ e produtor Afrika Bambaataa. Foto: Getty Images

“Eu credito tudo ao [DJ] Kool Herc, que é o verdadeiro pai do hip hop. Outros me chamam de ‘amen ra’ [deus egípcio] da cultura hip hop universal. Isso significa que nós [a Zulu Nation] organizamos, construímos e espalhamos pelo mundo todo. Então eu me mantenho humilde diante do criador e apenas faço o que faço”, disse Bambaataa.

Segundo o produtor, sua maior contribuição para o hip hop foi batizá-lo, a partir de uma brincadeira feita com “raps clichês”, como explicou: ”Dois rappers amigos meus, Lovebug Starski, o MC, e o Keith “Cowboy”, do Grandmaster Flash & The Furious Five, costumavam fazer raps. Um dia eu perguntei ‘do que podemos chamar isso?’, porque não tinha um nome pra o que estavam fazendo. Eu tirei [o nome] de raps clichês que diziam ‘hip’, que é o que está acontecendo agora, e você tem o ‘hop’ porque tem que fazer as pessoas dançar.”

Conhecido desde os começo dos anos 1970 como agregador de gangues em Nova York, Bambaataa vê a evolução do hip hop através dos anos como positiva, porém reconhece que, em algum momento de sua história, o movimento perdeu foco. Por esse motivo, ele enfatiza que sua música foi criada para gerar a união. “A maioria das pessoas que fala sobre hip hop só conhece os rappers, e isso tem a ver com o que a mídia promove. Ainda hoje não pensam no hip hop como um movimento cultural.”

Leia os principais trechos da entrevista.

30 anos de “Planet Rock”

“‘Planet Rock’ foi o nascimento do que se chama de electrofunk. Existia o funk que o James Brown, o Sly Stone e o George Clinton estavam fazendo, e acrescentando o techno pop que o Gary Numan e o Kraftwek estavam fazendo, brotou a sonoridade de ‘Planet Rock’. Disso veio o miami bass, o baile funk, a música eletrônica, o house.”

Evolução do hip hop

“Muitos usaram o hip hop para sair de doenças sociais, viraram superestrelas em seus países. Alguns foram de pobres para milionários, outros foram de milionários para pobres. Alguns usaram o hip hop pra ajudar a comunidade e ascender com letras revolucionárias. E outros foram tolos, falando sobre o que estão fazendo com suas ‘honeys’ e 'garotas' e ‘sexo, sexo, sexo.’ Então o hip hop foi para todos os lugares, desde o passado até o que temos hoje no presente, para a evolução, quando vamos para o espaço e virar seres humanos intergaláticos.”

Era “Jay-Z”

“Existem muitos artistas negros que estão sendo idolatrados no mundo inteiro. Quem diria que o Michael Jackson ou o Prince estariam na cabeça de todo mundo numa época em que o racismo ainda era maior? Algumas pessoas talvez os odiavam porque eram negros, mas gostavam da música, e às vezes não mostravam pros pais quem estava cantando. Então é ótimo ver que as pessoas estão esquecendo essa coisa de qual raça você é, pois somos todos da raça humana. Nós respeitamos sua arte, e o que você está fazendo com a música.”

Relação dos rappers com as comunidades

“Todo mundo quer se dar bem. Mas o que eu acho é: quando você chega lá, o que vai fazer pela comunidade de onde você veio? Ou para as pessoas que estavam lá e te ajudaram a chegar onde você está? Você vai construir escolas e ginásios? Você vai fazer algo pelas favelas, vai construir casas? No Brasil existe muita terra onde podemos construir para tirar todo mundo das favelas e as pessoas podem cuidar de suas comunidades.”

Nova geração de rappers

“Nessa geração, alguns estão dormindo, alguns estão acordados. Alguns são bons e outros terríveis. Mas não culpo os rappers, eu culpo os diretores das rádios, por não tocar sons diferentes e mais diversos, de hip hop ou qualquer outro gênero.”

Kanye West se chamando de “Deus”

“Algumas pessoas, no conceito, se chamam de ‘deuses’ porque a Bíblia diz que todos somos deuses. Então se ele quiser se chamar de ‘deus’ tudo bem, mas ele não é a força suprema. Ele não tem como virar a Lua e fazer Marte se meter no meio. Ninguém vai dar as mãos e rezar por ele (risos).”

O que falta na música hoje

“Na música falta união e mais amor pelo universo. Porque todo mundo se acha o urso maior quando você fala palavrão. É preciso trazer mais Deus na música. A música tem a ver com o poder do mundo, e se você coloca negatividade nela, a Terra vai te devolver isso, com tsunamis, terremotos e tornados, pestes, pra te ensinar que você não é a força suprema do mundo.”

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