A partir do "vale do rio Pinheiros", bandas buscam preservar a música brasileira

Por Susan Souza , iG São Paulo | - Atualizada às

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Grupos formados por músicos na casa dos 20 anos funcionam como coletivos autorais; veja

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Pitanga em Pé de Amora

Em tempos de globalização, bandas nascidas na zona oeste de São Paulo mostram interesse em preservar a língua materna e as tradições do País. "Até hoje não surgiu (outro idioma) e não vejo isso acontecendo, mas não temos restrição", diz Marcos Ferraz, integrante do grupo Trupe Chá de Boldo. Diego Casas, letrista do Pitanga em Pé de Amora, é taxativo: "Falo português, leio livros em português, sou brasileiro. Acho descabido fazer música em inglês".

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Memórias de um Caramujo

Os grupos Pitanga em Pé de Amora, Memórias de um Caramujo, Trupe Chá de Boldo e 5 a Seco classificam-se como coletivos autorais. Em entrevista ao iG, dizem ter um interesse comum pela cidade de São Paulo, "ainda que as letras nem sempre falem sobre a cidade". São Paulo é matéria de inspiração para compor sobre os relacionamentos e sensações vividos na metrópole. "A confusão da cidade faz com que a calmaria da nossa música seja um contraste do que a gente vive", conta Dani Altman, do Pitanga em Pé de Amora.

Em seus coletivos de música autoral, misturam vertentes de gêneros e movimentos musicais brasileiros como bossa nova, choro, tropicalismo e Clube da Esquina em uma espécie de "colagem de influências". Para compor, os grupos de multi-instrumentistas começam, em geral, com uma base trazida por um dos músicos. Juntos, acrescentam instrumentos e fazem o arranjo, sendo a maioria dos integrantes formada em faculdades de música ou com histórico em conservatórios.

"Vale encantado do rio Pinheiros"

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Trupe Chá de Boldo

Os grupos brincam com a coincidência na origem das amizades, que levou às parcerias musicais, e apelidam a região onde a maior parte dos integrantes estudou como "vale encantado do rio Pinheiros". O vale é onde estão os colégios que muitos deles frequentaram na infância.

"A cena em si pode se traduzir por panelas musicais e, nesse sentido, a gente não é uma parte tão ativa", diz Diego Casas, do Pitanga. "São bandas que cresceram próximas da gente, que estudaram em escolas parecidas e eram amigas, mas esteticamente são bem diferentes."

"A gente tenta superar esse vale para não ficar só fazendo música entre nós e para a turma desses colégios", diz Marcos Ferraz, da Trupe Chá de Boldo. "Todas essas bandas que estão surgindo em São Paulo são uma tentativa de preservar uma tradição da canção no Brasil e também são um espaço para diversos estilos e origens", destaca Gabriel Milliet, integrante do grupo Memórias de um Caramujo.

Uma cena, não um movimento

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5 a Seco

Em relação à formação de uma cena, os grupos entrevistados concordam que está tudo muito fresco e que é difícil fechar um movimento, embora as bandas tenham surgido na mesma cidade e sejam do mesmo núcleo de colégios. "Não é um movimento como a Tropicália, que tem uma unidade. Vejo como uma cena musical nova de gente que está fazendo música autoral, dialogando e se ouvindo, mas não com um discurso comum, não tem muita unidade estética", ressalta Marcos, da Trupe Chá de Boldo.

"Há o cuidado com a palavra e procedimentos de poesia parecidos", conta Gabriel Milliet, do Memórias de um Caramujo. "Não é como assumir um estilo, mesmo porque ninguém aqui é herdeiro de nada, mas a letra e a canção são muito fortes (em todos os grupos)", completa, destacando que alguns seguem mais para o caminho das "colagens de música brasileira" enquanto outros grupos buscam influências de fora, como o rock.

O principal aliado na divulgação dessa cena - ainda em fase de esquematização - são as fanpages do Facebook. "O mais legal que a nossa geração tem para oferecer é uma liberdade de criação, sem a indústria fonográfica por trás. Tudo está aberto e a internet possibilita que as pessoas ouçam os mais diversos tipos de som", analisa Diego, do Pitanga. Todos os grupos colocam na internet, de graça, os discos que gravaram de maneira independente.

"Estamos dentro dessa cena, mas nem tanto pensando como uma cena artística, mais pelo dia a dia, por tocar com as pessoas com quem você vai no show, com quem você conversa de música", diz o grupo Memórias de um Caramujo. "Não é uma coisa programada", afirmam. "Apesar de cada grupo ter um estilo musical diferente, somos todos da mesma geração, sempre tem uma conversa", ressalta Pedro Viáfora, integrante do grupo 5 a Seco.

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