Marcelo D2: "A reunião do Planet Hemp me mostrou o quanto eu era egocêntrico"

Por Susan Souza , iG São Paulo | - Atualizada às

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Em entrevista ao iG, cantor carioca comenta a volta da banda e fala sobre o novo disco, "Nada Pode Me Parar"

"A minha vida está na minha mão e só, ninguém vai reger por mim." Marcelo D2 está maduro e tranquilo. Em paz com o Planet Hemp, grupo que o projetou na cena musical dos anos 1990 com letras que polemizavam sobre a legalização da maconha, o rapper agora retoma as rédeas da carreira solo com o lançamento de seu quinto disco autoral, "Nada Pode me Parar". Em sua discografia solo também lançou, em 2010, "Marcelo D2 canta Bezerra da Silva", com faixas que o sambista interpretava.

O rapper Marcelo D2 lança novo disco solo. Foto: DivulgaçãoO rapper Marcelo D2 lança novo disco solo. Foto: DivulgaçãoO rapper Marcelo D2 lança novo disco solo. Foto: DivulgaçãoO rapper Marcelo D2 lança novo disco solo. Foto: Divulgação

Em entrevista ao iG, Marcelo D2 falou sobre a experiência de gravar uma faixa no lendário estúdio Electric Lady, em Nova York, fundado pelo guitarrista Jimi Hendrix. O rapper recebeu a reportagem em uma sala na Galeria Ouro Fino, na rua Augusta, em São Paulo, onde vende alguns produtos com seu nome, como fones de ouvido, bonés e copos de cerveja. A ideia do cantor é levar a pequena loja itinerante aos locais onde lançar o disco.

Sobre um novo álbum do Planet Hemp, é reticente: "Não vou falar que é impossível, mas diria que é muito improvável", ao mesmo tempo em que faz questão de reforçar o quanto sua vida ficou mais leve com a retomada do convívio com os colegas de banda. "A reunião me mostrou um lado tão imbecil e egocêntrico de ter ficado 10 anos sem falar com o Bernardo (Santos, o BNegão), que é um cara que eu admiro".

iG: "Nada Pode me Parar" é uma frase do rapper Thaide. Como isso entrou no disco?
Marcelo D2:
Foi o primeiro disco em que eu não tinha o nome antes. Sempre teve um conceito, é meio babaca essa palavra, mas tinha o conceito de "A Procura da Batida Perfeita", "Meu Samba é Assim", "Eu Tiro é Onda". Tinha uma frase de "Nada Pode me Parar" que eu escrevi há anos na parede do meu quarto: "Eu já caí no chão / Só que me levantei / Eu faço meu sistema / Eu dito a minha lei / Nada pode me parar". Depois que ouvi o disco, vi o quão autobiográfico ele era. Vi o quanto tinha da arrogância, no bom sentido, que o rap me mostrou. O rap me deu a autoestima de falar: "Eu estou aqui, eu faço". O disco tem essa confiança.

iG: Você fala muito de si mesmo no disco?
Marcelo D2: Não em tudo. Tem seis músicas em que eu falo de mim, das minhas experiências. O rap tem muito isso, muito do que você vive. Eu falo disso no disco para caramba, sem neurose, porque a minha vida está na minha mão e só, ninguém vai reger por mim. Agora é um momento especial, passei dos 40, esse é o meu 10º disco contando com os do Planet Hemp, é meu quinto disco solo. É um momento muito redondo.

iG: Um momento meio místico?
Marcelo D2: Não tinha isso antes, mas agora me soa assim. São 20 anos de carreira, faz 15 anos que saiu meu primeiro disco solo.

iG: Esses anos todos te assustam?
Marcelo D2: Muito pelo contrário, me deixam superfeliz. Caraca, estou há 20 anos fazendo isso. Me sinto muito agradecido pelo que a música fez por mim, por tudo que me deu. Nem um pouco de medo. Isso é só o começo, nada pode me parar (risos).

Reprodução
Capa de disco de Marcelo D2

iG: Como foi gravar a faixa "Na Veia" no lendário estúdio Electric Lady?
Marcelo D2: Nossa, foi num dia exatamente como hoje, com uma ressaca (risos). Estava em Nova York, passava pelo estúdio todo dia e falei: "Cara, tenho que gravar aqui". Então toquei a campainha e falei que queria gravar. A banda toda estava lá porque tocamos no Central Park, por isso a gente estava de ressaca! Nem sabíamos o que íamos gravar. O pessoal do estúdio perguntou: "Vocês são brasileiros e tocam samba?". E a gente: "Não, mas... (risos)". Eles nunca tinham gravado um samba lá e queriam fazer. Eu tinha um samba do Arlindo (Cruz). A música dentro do contexto do disco não era o que eu queria. Acabou entrando, mas até o último momento eu não queria porque ela salta do disco. O resto é todo rap, ela é uma música tocada. Ao mesmo tempo é uma exaltação do Rio de um jeito diferente. É o "nosso" Rio, de subúrbio, a letra fala de 23 bairros dentro de uma música só, mas não é nenhuma Ipanema ou Copacabana, é Pavuna, Madureira, é outro Rio de Janeiro.

iG: Como aconteceram as parcerias do disco?
Marcelo D2: Esse é um disco total "on the road", de estrada mesmo. Quando comecei a fazer, queria um clipe para todas as músicas. São 15 clipes para as 15 faixas. O espírito é esse, de conhecer gente nova. Meu filho falou que conhecia um moleque em São Paulo que chama Renan Samam, que faz música com o Emicida. Também teve os caras do Cookin Soul, que eu nunca vi na minha vida, mas conheci pelo Twitter.

iG: Você falou com eles no Twitter?
Marcelo D2: Os caras produziram para o Jay-Z e Kanye West. Começamos a conversar via Twitter, daí foi para o e-mail e eles me mandaram um set base. Tem duas músicas com eles no disco.

iG: O Planet Hemp vai gravar disco de inéditas?
Marcelo D2: Não vou falar que é impossível, porque antes falava isso da volta e a gente voltou. Eu diria que é improvável. Muito improvável. Mas a gente quer fazer um disco ao vivo porque a turnê foi muito legal. Foi interessante para mim e acredito que para eles também. A reunião da banda me mostrou um lado tão imbecil e egocêntrico de ter ficado 10 anos sem falar com o Bernardo (Santos, o BNegão), que é um cara que eu admiro, que eu amo, é meu amigo. Ele me mostrou um lado diferente que eu, supostamente, não assumia. Um lado fraco de ego. A coisa mais importante para mim em relação à volta do Planet foi voltar a ter o convívio com os caras, mais importante do que a turnê.

iG: A recepção te impressionou?
Marcelo D2: Muito. Acho que 80% das pessoas que foram na turnê nunca tinham visto o Planet Hemp. Há 15 anos, não podiam ir nesse show, era proibido. Agora foi um sentimento diferente, porque nós paramos há 10 anos. Há 15 anos, o sentimento num show do Planet Hemp, pelo menos o que eu sentia, era que as pessoas iam para xingar o governo, fumar maconha e ser livre. Iam ao show para mandar um "foda-se" para a polícia. Agora, o sentimento é de mais liberdade, é uma coisa maior. Em relação à música, senti que teve um pouco mais de respeito. Parecia que antes era só um discurso da maconha, mas não era só isso, a música do Planet era muito boa. Era uma coisa que me incomodava tanto na época, talvez eu nem percebesse, mas olhando agora sinto isso.

iG: Os artistas mais novos da cena brasileira te chamam a atenção?
Marcelo D2: O rap novo de Criolo e Emicida, o Criolo não é tão novo, mas o que ele faz sim, eu acho tão bom, tão livre. A coisa mais legal que eu via na cultura hip hop, que é essa liberdade de pegar uma pintura de Miró ou Picasso e fazer um grafite, de pegar uma dança e botar no break. Essa é a coisa mais legal e teve uma momento em que tudo ficou estereotipado. Tinha que "proceder humildade". Esse novo rap está livre dessa cartilha de "como ser um rapper", que eu nunca segui e que me incomodava. Essa nova galera não tem isso e eu quero estar ali também, quero fazer música com esses caras.

iG: Você ouve música pop atual?
Marcelo D2: Eu só escuto gente morta (risos). A única música nova que eu escuto é rap. De rock, pouca coisa: Arctic Monkeys, Strokes, Black Keys. Não me interesso muito por música nova porque gosto dos anos 1950, 1960 e 1970.

iG: Quem está no seu Top 3?
Marcelo D2: John Coltrane sempre. Em momentos lisérgicos ouço muito Jimi Hendrix, blues e Tribe (A Tribe Called Quest, grupo de hip hop americano), que é a minha banda preferida de todos os tempos. É o tipo de rap que eu mais gosto. Toda vez que vou fazer um disco novo pego os da Tribe e falo: "Opa, deixa eu ouvir aqui para ver como é que se faz".

iG: Qual é a ideia desse espaço que você alugou na galeria Ouro Fino?
Marcelo D2: Está mais barato do que o hotel (risos). Comecei a andar de skate muito novo e o lifestyle é esse daqui (olha para os objetos expostos). Para as pessoas, às vezes aquilo ali é só um boné (aponta para a vitrine), mas para mim faz parte de uma escolha de vida. O boné, o tênis, a calça, o cinto. Isso sempre foi importante pra mim. Eu também queria ter um lugar para falar com todo mundo de um jeito mais direto. Isso é um lifestyle, para mim é tão importante quanto a música (mostra um copo para beber cerveja).

iG: É a primeira vez que você investe em produtos com seu nome?
Marcelo D2: Sim, mas fizemos poucos, não é para rentabilizar, é para conversar mesmo. Uma coisa legal do Emicida, além da música, é o lado empreendedor dele. Ele tem uma gravadora, uma loja, acho isso tão inspirador quanto a música. Acho interessante um moleque olhar para ele e pensar: "Pô, o cara canta rap e fez o negócio dele, está ganhando o dinheiro dele". Essa loja também vai para Porto e Lisboa, em Portugal, e Nova York e Los Angeles, nos Estados Unidos, em julho. Aonde eu lançar o disco, vou levar a loja comigo.

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