Fenômeno paulistano, funk ostentação é retratado em documentário; veja

Filme explica história do gênero musical, que exalta grifes famosas em suas letras

Guss de Lucca - iG São Paulo | - Atualizada às

Lançado há pouco mais de dez dias no YouTube, o documentário "Funk Ostentação - O Filme" retrata a origem desse subgênero do funk carioca, mas surgido em São Paulo.

"Ninguém está falando sobre isso. Então decidimos fazer o filme e contar a história de como surgiu o funk ostentação, que é o maior fenômeno de massa da cultura brasileira atualmente", disse um dos diretores do média-metragem, Renato Barreiros, em entrevista ao iG .

Ao lado de Konrad Dantas, o KondZilla, Renato passou três meses entre a gravação e o lançamento do documentário. "Como não tínhamos dinheiro de edital ou patrocínio, fizemos por conta. Contamos com a ajuda de amigos, pedindo carona em troca do combustível pra ir gravar na Baixada Santista, por exemplo".

O filme conta como o funk aportou em São Paulo, por volta de 2008, e explica o surgimento do funk ostentação. Diferentemente do funk carioca, mais focado em sexo, o estilo paulistano faz ode a carros, roupas e outros produtos de grifes famosas. "O ostentação surgiu com a música 'Bonde do Juju', que cita o modelo de óculos da Oakley", explica Renato.

Questionado sobre a aproximação das marcas citadas nas músicas (como Honda, Dolce & Gabanna, Nike e Chandon, por exemplo), o diretor diz que nenhuma quis patrocinar o documentário ou os MCs responsáveis pelas letras. "Houve casos de algumas marcas que ameaçaram processar os músicos. Não posso falar quais. Mas eles derrubaram o vídeo e alertaram que o uso da marca era indevido".

Para o cineasta, alguns empresários não querem ligar suas grifes à classe C. "Às vezes quem consome o produto não é quem o dono da marca gostaria que consumisse. Se você conversar com donos de marcas do Brasil, 90% falarão que querem vender para o público AA".

Mas por que exaltar essas marcas nas letras? "É uma novidade o pessoal usando essas marcas. O poder aquisitivo melhorou e o cara está cantando o que ele está vendo, os MCs (vocalistas) estão mostrando isso", explica Renato.

Para entrar no mercado do funk ostentação o artista não precisa se preocupar em gravar um disco. Os cantores em atividade ganham a vida com clipes para divulgar suas canções e apresentações. "Os MCs do ostentação só vivem de show", afirma Renato, que tem sua frase validada pelo MC Bio G3, autor da precursora "Bonde do Juju".

Divulgação
O MC Bio G3, precursor do funk ostentação

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Morador da Cidade Tirandentes, bairro da zona leste de São Paulo, o MC Bio G3 começou sua carreira no rap e posteriormente ingressou no funk ostentação. "Sobrevivo do funk há sete anos. Como fui um dos primeiros MCs, peguei uma rapaziada que veio depois e fui ajudando. Montei uma assessoria e hoje empresario cerca de 25 cantores", explica.

De acordo com Bio G3, um MC em alta consegue agendar algo entre 55 e 60 shows por mês - chega a se apresentar até cinco vezes em uma mesma noite.

"Geralmente montamos um itinerário semelhante ao de uma linha de ônibus. Durante um sábado na capital paulista, acertamos dois shows na zona leste, um na central e mais dois na zona sul. A correria começa à meia-noite e vai até as 5h".

"Para cada apresentação, que tem em média 30 minutos, um MC que já seja estabelecido consegue um cachê que varia de R$ 3 mil a R$ 10 mil", conta Bio G3, que aponta Porto Alegre e Belo Horizonte como as cidades que mais consomem funk fora do eixo Rio-São Paulo. "Quando um MC vai a Porto Alegre, por exemplo, faz uns 13 shows no fim de semana".

A expectativa de Renato e dos demais envolvidos com o gênero é que o funk ostentação ganhe seu espaço na grande mídia, de forma semelhante ao que ocorreu com o sertanejo universitário. "Tem tudo pra caminhar para a televisão e para as rádios. O sertanejo universitário se apropria de algumas letras. A coisa do ‘Camaro Amarelo’, que pegou no sertanejo, começou no funk ostentação".

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