“Garota de Ipanema” faz 50 anos: segunda canção mais tocada da História

Artistas e produtores musicais comentam a importância da música de Tom Jobim e Vinicius de Moraes na MPB

Luisa Girão , Priscila Bessa e Valmir Moratelli - iG Rio de Janeiro |

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Helô Pinheiro e Tom Jobim

“Garota de Ipanema” está completando 50 anos, e se mantém na boca do povo. De acordo com a editora do grupo Universal, é a segunda canção mais executada da história, atrás de “Yesterday”, dos Beatles, de 1965. A música continua tão atual que, só neste ano, foi executada na série “Mad men” e em campanhas da Nike e da Calvin Klein.

Alguns dizem que a letra foi composta na mesa do bar Veloso na orla da zona sul carioca, enquanto Tom Jobim e Vinicius de Moraes viam Helô Pinheiro, a verdadeira “Garota de Ipanema” ir a caminho do mar.

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Outros estudiosos musicais, entretanto, contam que Vinicius escreveu a letra em Petrópolis, em sua casa, para a melodia que Tom compôs em seu apartamento na Rua Barão da Torre, em Ipanema.

Para Nana Caymmi, que já cantou a letra em vários de seus shows, foi a perseverança de Tom em buscar o primor técnico de suas composições que alavancou a música para o mundo. “Tom queria viver da música, tinha aquele dom. Ele nunca imaginou que seria esse sucesso todo, estava na batalha, com dois filhos para sustentar, novinho, ia para gravadora fazer arranjo para ‘n’ tipos de música, era um observador, uma pessoa que gostava de clássicos, de ouvir, de se cercar de gente com qualidade musical. Deu nisso.”

Quando lançou o livro “Noites tropicais”, sobre os bastidores da música brasileira na segunda metade do último século, o produtor Nelson Motta listou “Garota de Ipanema”, junto com “Ponteio” de Edu Lobo e “Apesar de Você” de Chico Buarque, como uma das canções imprescindíveis para se compreender os movimentos artísticos do País.

Helô Pinheiro, musa inspiradora da canção, assídua frequentadora do famoso bairro carioca nos anos 1960, atualmente mora em São Paulo. Nem por isso abandonou suas raízes. “Ipanema não sai de mim. É uma música que mata a saudade de uma época”, afirma.

A música ganhou o mundo de vez em 1967, quando Frank Sinatra ligou para Tom Jobim, que atendeu ao telefone no próprio Bar Veloso, e o convidou para gravar “Garota de Ipanema”. A voz de Sinatra fez com que a canção chegasse ao resto do mundo.

Selmy Yassuda
Ricardo Cravo Albim

Para o produtor e crítico musical Ricardo Cravo Albim, “Garota de Ipanema” está acima de qualquer explicação baseada em dados concretos. “Certos destinos de músicas, assim como o destino de pessoas, não se explica. É porque é. Não há uma explicação razoável. Tom e Vinícius têm inúmeras músicas que poderiam merecer esse tipo de glória, mas por uma série de contingências ‘Garota’ foi a que recebeu essa primazia entre todas as outras. Essa permanência é que distingue o sucesso passageiro do sucesso eterno. O sucesso eterno se cristaliza quando consegue pelo menos 20 ou 30 anos. Mas com 50 anos realmente é o melhor atestado de perpetuidade”, diz Ricardo.

Leia a seguir depoimentos de produtores e cantores sobre a importância de “Garota de Ipanema” para a história musical brasileira e sua inserção no mundo.

João Marcelo Bôscoli, produtor: “Garota de Ipanema é um ícone pop mundial. Canção perfeita, não à toa segue como a segunda mais gravada em todos os tempos, perdendo apenas para The Beatles. Um caso raro onde a simplicidade e a complexidade musical andam juntas, criando algo atemporal. Entre as poucas certezas que tenho está a que ‘Garota de Ipanema’ sobreviverá por milênios.”

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Joyce Moreno

Joyce Moreno, cantora: “Esta música é simplesmente o cartão de visitas do Rio e do Brasil no exterior. Não há quem não conheça. Não há músico no mundo que não toque. E olha que ela nem é tão simples, melódica e harmonicamente. Até hoje é uma das músicas mais executadas. Perde só para ‘Yesterday’, do Beatles, mas como dizia Tom Jobim, ‘eles são quatro’. É a canção que botou o Rio e Ipanema no imaginário universal, com uma imagem de felicidade e beleza, de um Brasil que deveria ter sido e que não foi. Essa, para mim, é a sua maior importância: a de ter desenhado esse Brasil bonito e feliz na tela mental dos povos do planeta”.

Carlos Mièle, produtor: “É engraçado pensar que já se passaram 50 anos do lançamento dessa música. Isto porque, na semana passada, foi a segunda música mais executada no mundo. Esta música é a nossa principal vitrine internacional. Quem não se lembra de Frank Sinatra, com um cigarro na mão, cantando ao lado de Tom Jobim? O Tom tinha se cansado das versões feitas por alguns compositores estrangeiros e resolveu, ele mesmo, fazer as próprias. E fez com maestria. ‘Garota de Ipanema’ é uma bíblia para a música brasileira”.

Eliana Pittman, cantora (gravou a música nos anos 1970): “Depois do Hino Nacional, ‘Garota de Ipanema’ é a música mais cantada como símbolo do Brasil no mundo, como símbolo da música brasileira e ainda enaltece Ipanema, bairro belíssimo do Rio. Tom e Vinícius, quando tiveram essa iluminação, quando Helô passou na rua, foi inspiração divina, vai ser eterno. ‘Garota’ não é rock e nem reggae, é MPB. Teve um papel importantíssimo na divulgação da MPB no mundo. É uma entidade independente dentro da música nacional. ‘Garota de Ipanema’ chegou aos 50 anos por causa da memória do mundo. Faz parte da memória do coletivo mundial”.

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José Maurício Machline, produtor: “É uma canção emblemática que tomou uma proporção mundial depois da gravação de João Gilberto, depois Frank Sinatra e vários outros artistas importantes da música que a regravaram. Ela é uma típica canção da Bossa Nova e de grande importância no repertório do Tom Jobim. ‘Garota de Ipanema’, junto com ‘Aquarela do Brasil’, é uma representante legítima da típica música do Brasil reconhecida mundialmente. O fato dela continuar fazendo sucesso e das pessoas não terem enjoado mostra a força melódica dessa música, sua qualidade e, por isso, se eterniza”.

George Magaraia
Nana Caymmi

Nana Caymmi, cantora: “Na época foi um estouro, uma coisa moderna, falando da nossa vida, de ir para a praia. Apresentou o Brasil para o mundo. Quem não conhecia... A historinha dela é muito simpática, fala de nós todos que temos a mesma idade que a ‘Garota de Ipanema’. Nós precisávamos de um cartão postal para determinar essa fase bonita, calma, sem assalto, sequestro, porque não tínhamos noção dessas coisas. Foi uma fase de sonho. Não tenha dúvida de que ela foi embora para o mundo e, com ela, levou uma constelação.”.

Helô Pinheiro, empresária e musa inspiradora da canção: “Os anos sessenta foram os anos dourados da nossa cultura, os anos que deram mais brilho a história da música popular brasileira. Tanto que as músicas que até hoje tocam e dão brilho especial à vida da gente são as que foram feitas naquele período. ‘Garota de Ipanema’ foi um marco nesse sentido, e até hoje devo muito a ela”.

Ricardo Cravo Albim, produtor e crítico musical: “Vi o nascimento da ‘Garota de Ipanema’ na boate Au Bom Gourmet quando foi lançada num show com Vinícius de Moraes, Tom Jobim e João Gilberto, em 1962. Sou testemunha ocular. ‘Garota de Ipanema’ não é só um grande sucesso da música brasileira, é muito mais porque é um retrato musical do próprio país no exterior. Só se pode comparar a ‘Aquarela do Brasil’, de Ary Barroso, que sempre foi e continua sendo símbolo sonoro do Brasil. Você vê que o sucesso permanece. Continua alojada nos corações do mundo inteiro como advento sonoro da contemporaneidade de uma época nova que trouxe a novidade da Bossa Nova. Se a novidade da Bossa Nova morreu, ‘Garota de Ipanema’ permaneceu. E será sempre ouvida”.

Selmy Yassuda
Emílio Santiago

Emilio Santiago, cantor: “A Bossa Nova, junto com ‘Garota de Ipanema’, colocou o Rio como um objeto de curiosidade, como a descoberta de um lugar onde se fazia a música mais linda do mundo. É um divisor de águas na música brasileira. A partir da Bossa Nova o Brasil ficou mais bonito, mais querido, ficou mais visto, mais desejado, que era exatamente o que acontecia com a ‘Garota’. Era um objeto de desejo como retrata a música. Quando se fala do Brasil, a primeira coisa que se lembra, musicalmente falando, é ‘Garota de Ipanema’.”

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Vinicius de Moraes e Helô Pinheiro

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