Tom Zé grava CD tropicalista e diz: 'Gil e Caetano tiraram país da Idade Média'

'Tropicália Lixo Lógico' tem participações de Emicida e Mallu Magalhães e é o primeiro trabalho patrocinado do cantor; 'Agora eu também sou filho de Deus', festeja

Augusto Gomes , iG São Paulo | - Atualizada às

Tom Zé está com trabalho novo na praça. Depois de gravar um álbum sobre a bossa nova e relembrar sua carreira em um CD e DVD ao vivo, o cantor e compositor baiano se debruça sobre o tropicalismo no disco "Tropicália Lixo Lógico".

Repleto de participações especiais de jovens músicos - incluindo Emicida e Mallu Magalhães -, o álbum é uma reflexão sobre o movimento liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil nos anos 1960. Um movimento que, nas palavras de Tom Zé, "tirou o Brasil da Idade Média".

Em conversa com o iG , Tom Zé derramou-se em elogios à dupla e revelou que, em 1968, não tinha a coragem que os dois tinham para enfrentar esquerda e direita como os dois fizeram. "Eu não sou o rei da bola, não", afirmou.

Durante a entrevista, também festejou o fato de, pela primeira vez em 75 anos de vida, ser um artista "patrocinado" - seu novo disco foi um dos contemplados por edital do projeto Natura Musical. "Me deram banho, passaram perfume. Agora eu sou filho de Deus."

Baixe duas faixas do novo disco de Tom Zé, "Tropicalea Jacta Est" e "Capitais e Tais"

iG: Você disse que o disco não existiria sem o produtor Daniel Maia. Por quê?
Tom Zé: Todo disco depende muito de um produtor. Mas esse, meu irmão... Se não fosse o Daniel Maia, eu estava perdido! Quando eu entrei na caverna para fazer um disco que iria falar de Caetano Veloso e Gilberto Gil, essas duas entidades, eu tive muito medo. Esperei que o Daniel me salvasse e ele me salvou.

Divulgação
Capa do disco "Tropicalismo Lixo Lógico"

iG: Por que você sentiu medo de fazer um disco sobre o tropicalismo?
Tom Zé:
Eu não sou o rei da bola, não (risos). Preciso estar com pessoas que acreditem em mim, como o Daniel acredita. Não sou o rei da bola para correr o risco que Gil e Caetano correram nos anos 1960. Naquela época, para defender as teses que eles defendiam era preciso ter coragem de sobra. Os gregos diziam que, para compor a arte, tem que ter estética e ética. Essa ética da coragem, do risco, é inseparável da estética do tropicalismo.

iG: Mas você também fazia parte do movimento tropicalista naquela época...
Tom Zé: Mas eu não estava correndo nenhum risco. Eu estava de acordo com as ideias deles, fazia parecido, mas não era cabeça de ponte. Eu era um colaborador. Como foi o Rogério Duarte com as capas, o José Carlos Capinam e o Torquato Neto com as letras, a Maria Bethânia com as ideias. Você sabia que Bethania foi quem chamou a atenção de Caetano para Roberto Carlos e as guitarras? Existe uma fotografia antiga dela com uma guitarra...

iG: Os riscos, além, é claro, de irritar a ditadura militar, eram quais?
Tom Zé: Caetano e Gil estavam enfrentando a direita e também a esquerda. E, meu irmão, para dizer em 1968 que as esquerdas estavam "bestando" era preciso raça! Sua casa era a esquerda - os amigos, o público, todo mundo. Hoje é até legal criticar a esquerda. Mas vá Tom Zé criticar em 1968 (risos). Tinha que ter raça.

iG: Na sua opinião, a música brasileira é devedora até hoje de Gil e Caetano?
Tom Zé: Não só a música, mas a nação toda. Havia um escritor gaúcho, Dyonélio Machado, que escreveu um livro chamado "Deuses Econômicos". Nele, teve a seguinte ideia: a partir de certo momento, os grandes profetas da humanidade trouxeram mensagens que resultaram em revoluções econômicas. Caetano e Gil fizeram uma revolução econômica: levaram o Brasil da Idade Média para a segunda revolução industrial. Quem ouviu "Baby" em 1968 - "você precisa ouvir da piscina, da margarina, da gasolina" - pegou a ideia de que era possível construir. E até hoje está se construindo.

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AE
Tom Zé em São Paulo, em 1969

iG: Você já tinha esse tipo de reflexão nos anos 1960 ou é algo que veio depois?
Tom Zé: Não, na época não. A gente tinha esse sentimento de que Gil e Caetano tinham uma percepção aguçada, maior do que o normal, e estavam se aventurando num risco filho da puta. Mas não que eles estavam mudando o Brasil. Estávamos emperrados na Idade Média, em um Brasil escravo, bucólico. Sem eles, a gente não poderia dialogar com os demais países do mundo. Seríamos uma nação perdida na modernidade.

iG: Seu disco anterior, "Nordeste Plaza", era sobre a bossa nova. Este é sobre o tropicalismo...
Tom Zé: Nos anos 1970, quando fiz o disco "Estudando o Samba", parece que eu achei uma fórmula. O disco é um objeto que você pode usar para juntar canções, para fazer política, para falar das namoradas e tal. E também serve para tratar de um assunto. Paul Valery (poeta francês nascido em 1871) dizia que da forma nasce a ideia. Naquele disco meu assunto foi o samba, gravei samba de tudo quanto é tipo, do mais sofisticado ao mais simples. Eu gosto de trabalhar assim: escolho um assunto, estudo, me esforço, chamo pessoas que podem colaborar.

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iG: Neste álbum, você resgatou uma canção composta em 1972 e que nunca havia sido gravada, certo?
Tom Zé: Sim, "Navegador de Canções". Ela iria batizar o disco, no final mudamos para "Tropicália Lixo Lógico". Cada vez que eu passava por ela eu dizia: "nossa, que bela essa música". A Neuza (Neuza Brito, mulher do cantor) é uma espécie de crivo lá em casa - se ela falar que uma música que compus é indigna de mim, eu jogo fora - e ela sempre dizia "bote essa música no disco". Já estava na hora.

iG: O que te fez perceber que estava na hora?
Tom Zé: Eu nunca fui patrocinado por nada, nunca. Nem no palco, nem no disco, em nada. Agora estou patrocinado. Me deram banho, passaram perfume. Agora eu também sou filho de Deus (risos). Aí pensei: "É a hora de fazer o que eu quero fazer. Vou fazer o disco sobre a tropicália que sempre quis".

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