Ópera 'made in China' adota elementos ocidentais

Nova York recebe peça de Guo Wenjing, um dos muitos compositores chineses descobertos pelo Ocidente e com influências mistas

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Será que Pequim é a nova Viena? Na verdade não, mas a China tem sido uma incubadora de composições criativas. Ao longo dos últimos 25 anos, um número extraordinário de compositores – muitos, embora não todos, formados pelo Conservatório Central de Pequim – foram descobertos no Ocidente, onde rapidamente se tornaram importantes vozes da nova música chinesa.

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Cena da ópera chinesa "Feng Yi Ting", que está sendo apresentada em Nova York

Entre os compositores mais conhecidos estão Tan Dun, Chen Yi, Zhou Long, Bright Sheng e Ge Gan-ru, da geração mais velha, e Huang Ruo e Du Yun, entre os recém-chegados (sem contar Chou Wen-chung, que vive nos Estados Unidos desde 1946).

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O estilo desses compositores varia muito, mas eles compartilham uma sensibilidade baseada na escolha de timbres e tipos de sistemas de afinação tanto asiáticos quanto ocidentais. Suas obras tornaram-se uma força viva dentro de um repertório que valoriza novas ideias.

Guo Wenjing, cuja ópera de câmara "Feng Yi Ting" (2004) será apresentada na Universidade John Jay, em Manhattan, como parte de um festival do Lincoln Center, se destaca entre os expatriados chineses.

Apesar de seus trabalhos terem sido realizados no Ocidente, Guo construiu sua carreira em Pequim. Ele viveu fora da China por apenas seis meses, no final de 1996, quando um subsídio cultural o levou a Nova York. Em 1978 ele esteve entre a primeira turma de 200 alunos admitidos no Conservatório Central na época de sua reinauguração, depois de ter permanecido fechado durante uma década por conta da Revolução Cultural. Após sua graduação, em 1982, ele se juntou aos professores do conservatório, onde ainda dá aulas.

Guo nasceu na província de Sichuan em 1956. Temas folclóricos locais e referências às montanhas e ao céu da região regularmente aparecem em suas partituras. Mas em "Feng Yi Ting" - cujo título refere-se ao Pavilhão Phoenix, no qual acontece a peça - ele também faz uma homenagem a Pequim.

Os dois principais papéis vocais foram escritos para soprano, para serem cantados no estilo altamente ornamental da ópera de Sichuan, e um contratenor, cujas frases são expressas no estilo mais gracioso e restrito da tradição de Pequim.

Mesmo assim, elementos diferentes de suas influências musicais também possuem um papel importante nesta obra. Para acompanhar os vocais ele utilizou uma seção de instrumentos de sopro ocidentais e uma seção de instrumentos de cordas chineses: o erhu, violino com som nasal, o gaohu, mais agudo, o dizi, uma flauta de bambu, a pipa, um instrumento da mesma família que o alaúde ocidental, o sheng, uma gaita chinesa, e uma seção de percussão que produz enorme gama de texturas e cores.

A obra também engloba dois mundos harmônicos. Seus interlúdios orquestrais são repletos de tonalidades ocidentais, ocasionalmente adornadas por um toque modernista. Mas as linhas vocais e alguns dos solos instrumentais durante algumas das passagens musicais possuem ingredientes de antigas melodias chinesas, muitas vezes abordada por entonação microtonal. A combinação destes elementos pode até parecer estranha, mas Guo produz combinações de outro mundo onde o familiar e o exótico, o vigor e a elegância, estão em constante fluxo.

"Feng Yi Ting" é baseada em um antigo conto - e um tanto quanto chocante para a perspectiva ocidental moderna - que descreve uma intriga política e sexual na corte Han, algumas décadas antes do fim de sua dinastia no ano de 220. O vilão é Dong Zhuo, um líder tirânico conhecido por sua crueldade. Wang Yun, um ministro que é mencionado porém não aparece na ópera, elabora um plano para derrotar Dong ao oferecer sua afilhada, a bela Diao Chan, personagem central da ópera, como “prêmio”.

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Em um prólogo Diao Chan informa o público sobre o plano de Wang, que começa com a organização de algumas festas. Na primeira ele faz com que Diao encante o general Lu Bu, afilhado de Dong. Encantado por Diao, Lu planeja se casar com ela com a aprovação de Wang, mas primeiro Wang convida Dong para a segunda festa, e faz com que Diao volte a utilizar toda sua magia para seduzir Dong. Quando Dong também se apaixona por Diao, Wang a oferece como um presente.

E isso traz Diao à Feng Yi Ting. Primeiro, ela questiona em uma ária se Lu terá medo suficiente de Dong para abandoná-la. Então - uma vez que Lu chega, furioso com Dong, mas não convencido de que irá conseguir agir contra ele sozinho - Diao joga com a raiva, o ciúme e noções de heroísmo de Lu até que ele se diz preparado para matar seu padrinho.

A encenação no festival do Lincoln Center é uma coprodução do Festival Spoleto USA, em Charleston, Carolina do Sul, onde estreiou em maio. E apesar da música de Guo ser sedutora o suficiente, a produção da peça, realizada pelo cineasta Atom Egoyan, revelou-se uma parte significativa de sua atração e algo não menos importante, pois, assim como a música, oferece uma mistura fascinante de referências culturais chinesas e elementos tecnológicos do teatro ocidental.

Egoyan e seu designer de vídeo, Tsang Kin-Wah, utilizam diversas técnicas de cinema, incluindo projeções que mostram os cantores de diferentes ângulos e em preto e branco. O figurino, feito por Han Feng, mais conhecida por seus projetos na produção de "Madama Butterfly" de Anthony Minghella pela Metropolitan Opera, é colorido e ornamentado, no estilo do teatro chinês, e o design cênico de Derek McLane, cria uma ilusão de profundidade ao brincar com projeção de imagens de vídeo em uma série de telas transparentes.

Ainda assim, mesmo diante de toda essa dramaturgia híbrida e musicalidade, você ainda pode sair com algumas perguntas. Diao é uma heroína e se autosacrifica. Mas ao contrário de, digamos, Jael da Bíblia, que enfiou uma lança através da cabeça de um general cananeu, ou Judith, que decapitou um general assírio, ela não é apenas controlada por homens mas também atinge sua vitória através deles. Quando ela pergunta "quem disse que as mulheres não são capazes de mudar o mundo?", soa como uma grande feminista do final do século 2. Mas é difícil imaginar as feministas de hoje adotando seus métodos.

Por Allan Kozinn

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