Familiares, amigos e parceiros musicais relembram Luiz Gonzaga

"Ele mesmo não sabia o quanto era importante; não tinha ideia do quanto tinha valor", afirma sobrinho do músico

Augusto Gomes , iG São Paulo | - Atualizada às

Arquivo pessoal
Joquinha Gonzaga ao lado da mãe, Muniz, e do tio, Luiz Gonzaga

Luiz Gonzaga pode ter carregado o título de rei (do baião, do forró, do xote), mas nunca se comportou como se fosse uma majestade. E, mesmo sendo um dos artistas brasileiros de maior sucesso do século 20, manteve a humildade e a simplicidade.

Essa é a opinião unânime de amigos e familiares do músico, que completaria 100 anos no final deste ano.

Luiz Gonzaga nasceu em 13 de dezembro de 1912, em Exu, interior de Pernambuco. Começou a gravar nos anos 1940, quando estava no Rio de Janeiro. Lançou 43 discos e 125 compactos - foram mais de 600 músicas gravadas. Gonzação morreu vítima de parada cardiorrespiratória em 1989.

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"Acho que o Gonzaga mesmo não sabia o quanto era importante; não tinha ideia do quanto tinha valor", disse ao iG Joquinha Gonzaga, sobrinho do músico.

Ele tocou com o tio durante mais de dez anos, entre os anos 1970 e 1980. "Gonzaga era um homem muito sereno. Ele podia estar em cima e podia estar embaixo. Não fazia diferença nenhuma para ele."

O cantor Odair José, que foi vizinho de Luiz Gonzaga nos anos 1970, quando ambos moravam na Ilha do Governador (zona norte do Rio de Janeiro), também se recorda da simplicidade do músico.

"Eu tive o prazer e o privilégio de conviver com ele. Sempre nos encontrávamos na agência do banco, no correio", conta. "Além do talento todo, ele foi um homem muito digno."

Padrinho

Já Dominguinhos, por sua vez, lembra de como foi apadrinhado por Gonzaga quando ainda era criança, em Garanhuns, interior de Pernambuco. "Eu tinha oito anos e era músico de rua com meus irmãos. Um dia estávamos em frente ao hotel em que Luiz Gonzaga estava hospedado e tocamos para ele", diz. Gonzaga, generoso, deu seu endereço no Rio de Janeiro e disse que os irmãos poderiam procurá-lo.

AgNews
Dominguinhos

Anos depois, já adolescente, Dominguinhos mudou-se com sua família para a baixada fluminense e retomou contato com Gonzaga. "Minha primeira sanfona foi presente dele."

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A primeira gravação, "Moça da Feira" (1957), também foi num disco do mestre. E a fama em todo o Brasil, em 1972, veio depois de participar do show "Volta para Curtir", que apresentou as canções de Gonzaga a um novo público.

Joquinha Gonzaga lembra de uma história interessante envolvendo seu tio e Dominguinhos. "Quando Luiz Gonzaga ia tocar na televisão, ele sempre chamava o Dominguinhos para acompanhá-lo. Mas, quando era para fazer shows em cima de caminhões no interior do Nordeste, quem tocava era eu", recorda. Mesmo assim, ele não guarda mágoas. "Eu era um sanfoneiro limitado. Dominguinhos era melhor."

Parceiro

Outro artista que conviveu intimamente com Gonzaga foi Fagner. Os dois se conheceram nos anos 1980. "Um dia, resolveram produzir um disco do Gonzaga com as novas gerações e me convidaram. Então eu preparei um pout-pourri, que foi um grande sucesso no Nordeste", explica. "Depois disso, ele me ligou e disse 'estou à disposição, o que mais você quer fazer comigo?'. Eu disse: um disco."

O resultado foi o álbum "ABC do Baião", lançado em 1984. "Nós passamos três dias trabalhando em Exu (cidade natal de Gonzação). Eu peguei todos os discos dele e nós começamos a ouvir juntos, comentando as músicas", lembra. "Aí escolhemos aquelas que a meu ver e a partir da manifestação dele, tinham um significado maior. O disco fez tanto sucesso que, em 1987, gravamos um segundo volume."

Após a parceria, os dois permaneceram próximos até a morte de Gonzaga, em 1989. Fagner inclusive organizou o último show do músico, em Campina Grande, na Paraíba. "Ele tinha um carinho muito grande por mim. Quando nos conhecemos, ele ainda tinha algumas rusgas com o Gonzaguinha. Então, de certa maneira, eu era um filho no meio daquela confusão", explica.

Ag. News
Mariana Aydar

Em Paris

Fafá de Belém recorda a apresentação que fez ao lado de Luiz Gonzaga na França, nos anos 1980, diante de 15 mil pessoas "Fizemos um show no Parc de la Villette, em Paris, dentro do projeto Couleurs du Brésil. Foi uma grande festa", lembra Fafá. "As pessoas ficaram malucas quando escutaram a música do chão do Brasil. Brasileiros, franceses, portugueses - todo mundo dançou."

Ouça as várias versões de "Asa Branca"

Fafá conta que ficou "assustada" ao se apresentar ao lado de Gonzaga. "Naquela época eu era uma menina, e ele era um mito", explica. Um mito, mas ainda assim com os pés firmes no chão. "Gonzaga era uma figura grandiosa e, ao mesmo tempo, muito generosa. E que tinha orgulho de seu gibão de couro", conta. "Toda homenagem que for feita a ele ainda será pequena."

Amor à primeira vista

Nascida em 1980, a cantora Mariana Aydar conheceu Gonzaga ainda criança. Sua mãe, Bia Aydar, era produtora do músico. "Primeiro me apaixonei pela figura dele. Ele era muito amoroso, carismático, generoso e diferente para os olhos de uma criança. Um dia fomos ao shopping e ele comprou para mim uma boneca de noiva maior do que eu, que guardo até hoje com todo o carinho", conta.

"Por me interessar por essa figura paternal excêntrica, comecei a ouvir seus discos e foi amor à primeira vista. Desde então o forró, baião, xote e arrasta pé entraram na minha vida pela porta da frente e nunca mais vão sair."

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