¿Música brasileira é a possibilidade de solaridade para este mundo lunar¿

A afirmação é do pesquisador musical Ricardo Cravo Albin, defensor entusiasmado da produção nacional, que está lançando livro

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Selmy Yassuda
Pesquisador musical Ricardo Cravo Albin lança o livro ¿MPB ¿ A Alma do Brasil¿, durante a segunda edição da Festa Literária de Santa Teresa (Flist)
Noel Rosa, Cartola, Pixinguinha, Herivelto Martins, Clara Nunes, Tom Jobim... De alguma maneira, esses e vários outros nomes da Música Popular Brasileira habitam na primeira casa da avenida São Sebastião, no tranqüilo bairro da Urca, no Rio. É numa charmosa construção de cinco andares que está instalado o Instituto Ricardo Cravo Albin, que leva o nome de seu fundador.

Selmy Yassuda
O pesquisador Ricardo Cravo Albim cercado por raridades que já pertenceram a artistas consagrados da música popular brasileira
Cercado de raridades que já pertenceram a artistas consagrados de nossa música, o historiador e dicionarista recebeu a reportagem do iG. Num final de tarde ensolarado, com deslumbrante vista para a Baía da Guanabara, Ricardo tinha acabado de receber mais uma jóia para complementar seu rico acervo: um violão que fora de Cartola. “Ainda estou emocionado por causa dessa aquisição, um presente de um amigo”, disse ele, que é dono de cerca de 30 mil discos, duas mil fitas sonoras em rolo, 700 fitas magnéticas sonoras em cassete e cerca de mil CD’s.

Ricardo está lançando o livro bilíngue “MPB – A Alma do Brasil”, durante a segunda edição da Festa Literária de Santa Teresa (Flist), nos dias 15 e 16 de maio. A obra, publicada pelo Instituto, acompanhada de dois CD’s de coletâneas, analisa quarenta anos de MPB, da década de 60 aos anos 2000, com textos de João Máximo, Artur Xexéo, Antônio Carlos Miguel e Luiz Antônio Giron. E foi cercado de recordações envolvendo baluartes do cancioneiro popular, que Ricardo, organizador do livro, conversou com o iG.

Bossa Nova
“A partir dos 30, a MPB passou a ser um bom negócio. Mas foi com a Bossa Nova que se percebeu que a música podia ser um bom pé de meia. A Bossa Nova, elitista, sempre negou o samba-canção, os sambas de enredo... Eu também tinha este preconceito quanto ao nheco-nheco dos caipiras. Achava tudo monocórdio, repetitivo. Éramos todos de esquerda, a favor da modernidade, fãs do jazz dos negros e contra Roberto Carlos. A turma da Bossa era de elite, que gerou os festivais de música. Ainda hoje é um símbolo da classe média.”

Samba
“Anos de ditadura militar. Foi um tempo dramático, quase trágico, que gerou um movimento de autodefesa, estimulando a criatividade. Vivi intensamente este momento. Com a decadência dos festivais, pela truculência da censura e pelo cansaço do público, o samba foi ocupando os espaços. A partir dos ombros frágeis de Martinho da Vila, houve uma recuperação de nomes como Nelson Cavaquinho, Cartola, Dona Ivone Lara...”

Rock
“Acho interessante a afirmação de que os anos 80 acabaram com a MPB, mas concordo apenas em parte. Porque ela volta com força nos anos 90. O rock brasileiro domina os ano 80 e, na seqüência, vem modismos, como a música caipira, que a classe média sempre negou com veemência.

Sertanejo
“Se no começo pode não ser bom, como o rock brasileiro não foi bom quando surgiu, na sequência eles ganham originalidade, provocando inovações.”

Axé
“O surgimento do axé é mais uma manifestação da possibilidade multicêntrica do Brasil. Quem poderia imaginar, nos anos 60, que as micaretas se espalhariam pelo país? Nossa civilização tem uma contribuição dramática para o mundo, que é cada vez mais sombrio. O Brasil é a possibilidade de solaridade e alegria para este mundo lunar. A busca do ser humano é pela felicidade. Vamos buscar alegria! Ouvi este sucesso de agora, o ‘Rebolation’ (do grupo Parangolé), acho interessante, é uma possibilidade de progredirmos em inovação.”

Pagode
“O pagode ‘mauricinho’ foi um modismo no começo dos anos 90. Como tudo na música popular em um país antropofágico como o Brasil, que tudo deglute, tudo pode ser assimilado para o bem. Assim como deglutimos bem o rock, que trouxe em seguida Cazuza e Renato Russo. O samba abriga o pagode mauricinho, mas depois nos deu Dudu Nobre, Diogo Nogueira, entre outros. Tudo tem seu lado positivo”.

Funk
“Por conta da possibilidade criativa da alma brasileira, aqui a gente engole tudo, sem possibilidade imediata de vômitos. A gente engole e digere bem nas vias inferiores. As coisas são bem absorvidas, para dar o resultado final. Não quero dizer que o resultado final é o cocô (risos)! Mas é um produto sólido, quem sabe exatamente como o cocô. Não é porcaria, não, é um adubo. Acho que teremos na próxima década uma riqueza musical absurda.”

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