Museu de Belas Artes do Rio abre mostra de Modigliani

A partir de abril, exposição estará em cartaz no Museu de Arte de São Paulo

AE |

Divulgação
Tela de Modigliani exposta no Museu de Belas Artes do Rio
Livorno, 10 de abril de 1898. A professora Eugénie Garsin registra em seu diário que o filho Amedeo, de 14 anos, não quer mais saber de estudar: interessa-se exclusivamente por pintura. Três anos antes, o garoto de saúde frágil, cujos problemas pulmonares começaram com uma pleurite e dariam numa tuberculose fatal na idade adulta, já havia relatado ter sentido uma atração imensa pelos pincéis e as telas, em delírios consequentes de uma febre tifoide. Logo Amedeo Clemente Modigliani seria tragado pelas aulas de Guglielmo Micheli.

A mãe angustiada não veria o nome do caçula ganhar o mundo. Tampouco ele. Modigliani morreu num apartamento sem calefação, aos 35 anos, no inverno de 1920, na vanguardista Paris em que vivera em busca de sua própria arte e dos prazeres da boemia, e onde alcançara a maturidade como criador. Só nos anos 30 começaria a ser valorizada sua concisa obra, constituída por não mais do que 400 óleos, 30 esculturas e 1.600 desenhos. Picasso, companheiro de corpo cuja atividade artística durou o dobro do tempo, deixou 24 mil itens.

Os brasileiros nunca tiveram a chance de apreciar, numa mostra de porte, seu traço único, reconhecível ao primeiro olhar, tanto nos retratos quanto nas peças em bronze ou pedra - as figuras com elementos cubistas, de rostos triangulares e longilíneos, de bocas pequenas, olhos amendoados e narizes afilados.

Depois de dois meses em Vitória, a exposição "Modigliani - Imagens de Uma Vida", foi aberta no Museu Nacional de Belas Artes na quarta passada. Em abril, viaja para o Masp, que tem seis retratos do artista na mostra "Olhar e Ser Visto", inclusive a mais valiosa: seu único autorretrato, de 1911, propriedade de um colecionador brasileiro.

Na quinta à tarde, o público teve uma oportunidade ainda mais especial: uma visita guiada por Charles Parisot, especialista que é presidente do Modigliani Institut Archives Légales Paris-Roma e curador da exposição. Ele trouxe de colecionadores particulares e instituições nos Estados Unidos, Japão e Europa 230 peças, sendo 54 pinturas, cinco esculturas, 55 desenhos e documentos, fotos e diários.

Mesmo falando em italiano, Parisot hipnotizou cerca de 50 pessoas com detalhes saborosos da vida dele, relatados em painéis e no filme "Modigliani - A Paixão Pela Vida" (2004), com Andy Garcia de protagonista, e focado na suposta rivalidade entre ele e Picasso, companhia nos saraus e nos ateliês de Montmartre. Ele desmentiu não só a briga com o espanhol, mas também o mito de que Modigliani era um beberrão drogado e de que nascera numa família indigente.

Nos textos e nas telas, a mostra passa pelas paixões de Modigliani, sua fuga dos valores burgueses (viveu um grande amor com Jeanne Hebuterne, mãe de sua filha, mas nunca se casou; sua morte levaria ao suicídio de Jeanne, grávida de oito meses). "Retrato de Homem de Bigode", de 1900, de quando ele tinha 16 anos, "feito em uma hora, sem seguir as técnicas tradicionais do impressionismo", é o destaque da primeira sala. As mulheres de "Jeune Femme Aux Yeaux Bleus" (1917) e "Grand Nu Allongé" (1918) estão entre suas musas mais conhecidas.

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