Minujín prepara-se para os últimos dias da obra "Torre de Babel"

Comparada a Andy Warhol, argentina é um dos principais nomes da arte contemporânea da América do Sul

Gustavo Fioratti, especial para o iG |

Uma fila tem se formado diariamente na praça San Martín, no centro de Buenos Aires, em torno do que de longe parece ser um imenso chapéu infantil, cônico e todo colorido. Trata-se de uma das mais recentes obras de Marta Minujín, espécie de ícone da arte contemporânea portenha, que iniciou seu trabalho nos anos 1960, na onda pop que teve Andy Warhol como principal expoente.

Siga o iG Cultura no Twitter

"Torre de Babel" , a obra em questão, é um penetrável encomendado pela Unesco para comemorar a escolha de Buenos Aires como capital mundial do livro. Sua estrutura é de aço, e o revestimento utiliza 30 mil livros em várias línguas, em referência ao mito bíblico que deu título ao trabalho. Os visitantes entram por sua base e sobem sete andares. O cume fica a 28 m do chão.

Na última terça, a torre serviu de ponto de encontro para uma homenagem da prefeitura aos 25 anos de morte do escritor Jorge Luis Borges. A desmontagem está prevista para o próximo dia 27. Na ocasião, alguns visitantes - boa parte estrangeira - levarão dali um livro em seus idiomas. O restante dos exemplares vai compor o acervo da primeira Biblioteca Multilíngue de Buenos Aires.

Logo após voltar da abertura de uma exposição com obras suas em Zurique, Minujín falou ao iG sobre a repercussão que a torre teve não só entre conterrâneos seus, mas também entre estrangeiros. "Tem muita gente pedindo para a obra ser feita em outros países. As pessoas ficam enlouquecidas, tiram muitas fotos e logo postam no Facebook", contou.

"Torre de Babel" dá prosseguimento a uma linguagem que aproximou Minujín do universo pop e que lhe rendeu inclusive o apelido de Andy Warhol da Argentina. Uma de suas performances mais conhecidas foi executada na década de 1980, quando ela entregou a Warhol milhares de espigas de milho para pagar a dívida externa de seu país. Humor, sem dúvida, é um de seus pontos fortes.

Trans-pop

Hoje, no entanto, ela refuta qualquer tipo de classificação. "Minha arte é trans-pop, começa no pop, mas se bifurca em muitas possibilidades. A única coisa que me caracteriza como pop ainda hoje é o uso de cores fluorescentes", analisa, em referências também às transformações propostas pelas gerações mais novas. "Sempre existe a possibilidade de uma ruptura, senão a vida não continuaria."

Por seu caráter efêmero, "Torre de Babel" também se relaciona com um dos primeiros trabalhos de Minujín, "La Destrucción", de 1963. Na ocasião, a artista levou as obras de uma mostra realizada em Paris para um terreno baldio, onde todos os trabalhos foram incinerados.

nullObelisco de pães doces

Em 1979, também propôs "El Obelisco de Pan Dulce", uma estrutura de 36 metros de altura recoberta por 10 mil pacotes de pães doces, que no fim da exposição foram distribuídos (e comidos) para milhares de pessoas.

Embora realizada apenas agora, "Torre de Babel" foi concebida dez anos depois dessa comilança conceitual. "É uma ideia que tive em 1988, faz anos que trabalho com mitos universais; eu quis criar uma obra com todas a línguas do mundo, para que a Argentina se torne ainda mais universal", declarou.

"Torre de Babel" tem resistido a chuvas, pois os livros foram todos colocados em saquinhos de plástico. Mas seu fim é inevitável. A desmontagem "será a última etapa de uma obra efêmera", diz Minujín.

    Leia tudo sobre: arteexposiçãotorre de babellivrosMarta Minujín

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG