Mario Cravo Jr.: um dos maiores artistas do Brasil fala ao iG

Aos 88 anos, baiano comenta a busca pelo domínio técnico, a necessidade de deixar uma obra inacabada e sua rotina de produção

Guss de Lucca, enviado a Salvador |

Um privilegiado. É dessa forma que o artista plástico Mario Cravo Jr. se define enquanto apresenta aos visitantes seu espaço de criação, a Oficina Cravo, localizada no Parque Metropolicano do Pituaçu, em Salvador.

O terreno, que além da oficina abriga o Espaço Mario Cravo, galeria onde estão expostas esculturas, pinturas e gravuras do artista, é formado por uma lagoa cercada de vegetação remanescente da Mata Atlântica.

Nesse espaço verde, também denominado Parque das Esculturas, estão distribuídas mil obras do autor, das quais 800 foram doadas ao Estado da Bahia em 1994, época em que o então governador Antônio Carlos Magalhães cedeu o espaço ao artista.

Livro e filme celebram a produção sem tréguas de Mario Cravo Jr.

Aos 88 anos, Mario Cravo Jr. não dá sinais de aquietar-se. Trabalhando ativamente desde a década de 1940, o artista não limita-se a um estilo ou a um material específico; prefere viver fases estimuladas pelo que ele descreve como "um relacionamento".

"Primeiro namoro a peça. Com a aproximação, vem o toque e as coisas acontecem. Gosto de trabalhar com dois ou três materiais ao mesmo tempo. Temporariamente preciso renovar minha relação com eles. Acho que cada um tem uma alma", conta, ressaltando como última paixão o grafite, o "irmão mole do carbono do diamante".

Mesmo assim, Cravo Jr. não deixa de receber e de procurar por todo tipo sucata, seja ela industrial ou apenas resto de um edifício após seu incêndio - caso do Mercado Modelo, cujas madeiras destruídas pelo fogo, datadas do século 18, resultaram em uma série de Cristos gigantes montados apenas pelo agrupamento do material.

Guss de Lucca
Mario Cravo Jr: "Sempre deixo alguma coisa que não acabei pra mostrar que sou limitado"
Apesar da bengala, que de acordo com ele evidencia sua "chegada ao ciclo final", o artista caminha com desenvoltura pelo atelier, apresentando peças concluídas e outras ainda em fase de criação - algumas esperando há 20 anos. "Sempre deixo alguma coisa que não acabei pra mostrar que sou limitado."

Siga o iG Cultura no Twitter

Quando questionado sobre os trabalhos finalizados, ele afirma, empolgado, que eles nunca estão prontos, classificando a assinatura em uma obra como uma "prova da limitação do artista": "É como se eu dissesse 'porra, eu não pude fazer mais que isso!'".

Aficionado por tecnologia, Cravo Jr. atribui à sua busca pelo domínio técnico os frutos colhidos na carreira. "A tecnologia serve ao homem e permite que você construa suas próprias ferramentas. Em São Paulo, minha segunda cidade, adquiri máquinas industriais que funcionam como se houvesse 100 homens na minha mão."

A busca por formas cada vez mais avançadas de expressão levou o artista até a computação gráfica. Porém, apesar de realizar algumas obras com softwares - algumas expostas na galeria do Parque das Esculturas -, Cravo Jr. não conseguiu trabalhar por muito tempo com algo que não pode tocar. O espaço, o volume e o vazio são classificados por ele como "fundamentais", assim como o contato com as obras, que ele estimula constantemente que sejam tocadas.

"O tato é tão importante quanto a visão, o paladar... Mas somos deformados pela exorbitância dos objetos de arte, o que afasta as pessoas", afirma, insistindo para que os presentes tocassem suas estátuas e sentissem suas temperaturas. Minutos depois, o próprio subiria em uma de suas esculturas, uma cadeira de pedra com formas masculinas e femininas.

Essa relação de desprendimento com as obras também encontra reflexo nas esculturas espalhadas pelo parque e pela cidade de Salvador. É visível o efeito que o sal da maresia tem sobre as peças, principalmente as de metal. Porém, Cravo Jr. considera isso parte da vida - assim como a velhice, cuja "tragédia" seria a diminuição do tempo que uma pessoa tem.

Guss de Lucca
Mario Cravo Jr: "Ainda tenho o que dizer, ainda há vontade de encontrar o que não encontrei até agora"
"Estou chegando num ciclo final e ter consciência disso é importante, pois ainda tenho o que dizer, ainda há vontade de encontrar o que não encontrei até agora. Daí vem a energia de fazer. Ter um papel em branco é a maior aventura. Talvez o artista tente se perpetuar. Criar é superar um pouco mais essa finitude."

Sobre o processo de criação, diz:  "O artista dá dicas para que os observadores completem com sua imaginação. O resto é retórica, papo furado. Não faço com a intenção de fazer. É um jogo que você faz consigo mesmo. Acho que quem tem muita certeza é um estúpido (risos)".

Os "combustíveis" para a criação de uma obra, nas palavras de Cravo Jr, são "a curiosidade, pois sem ela não existe a possibilidade da invenção, e o prazer". "Fazer arte é prazer e luta. Se podemos fazer algo que nos dá prazer e dá prazer aos outros, é um milagre."

Livro e filme celebram a produção sem tréguas de Mario Cravo Jr.

* O repórter viajou a convite da Odebrecht, que patrocinou livro e documentário do artista

    Leia tudo sobre: mario cravo jr.arte

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG