"Maria do Caritó" é deleite como às vezes o teatro pode ser

Comédia do ano, espetáculo com Lilia Cabral faz público perder o fôlego

Denis Victorazo, especial para o iG Cultura |

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Atores apresentam elenco de "Maria do Caritó"
Como escrever sobre uma comédia que nos faz rir tanto a ponto de perdermos alguns momentos da encenação? O que dizer de um texto tão divertido e poético que fica difícil encontrar palavras para comentá-lo? Como descrever atuações que transformam atores conhecidos em seres mágicos, mais bonitos e poderosos do que na vida real? “Maria do Caritó”, em cartaz no Teatro dos Quatro, no Rio, tem uma conjunção de sucesso que às vezes, por uma feliz combinação de sorte, talento e critério, acontece no palco.

Como criticar um espetáculo que nos faz lembrar porque, afinal, somos apaixonados pelo teatro? Difícil tarefa essa, que deveria ser deixada para outra pessoa. Alguém mais sóbrio, que não ficasse cego diante desse raro prazer. Mas essa tarefa coube a mim, e uma vida sem paixão não vale muito. Então, aqui vai o texto de alguém que recomenda com veemência esse espetáculo.

"Maria do Caritó", a comédia do ano

Lilia Cabral conseguiu de novo. Depois do sucesso de “O Divã”, texto baseado no livro de Martha Medeiros que a atriz levou ao palco, depois ao cinema, e deve virar série de TV no próximo ano, a atriz acerta em cheio mais uma vez. “Maria do Caritó”, que estreou na última semana no Rio de Janeiro, é a comédia do ano. O texto precioso de Newton Moreno (premiado autor de “Agreste”, “As Centenárias”, “Assombrações do Recife Antigo”) foi escrito especialmente para Lilia, que, depois de três anos de personagens fortes e densos na TV, queria se divertir um pouco.

Encomendou uma comédia, onde também coubessem dois amigos antigos, os atores Fernando Neves e Silvia Poggetti. Aos três, que já haviam feito parte do mesmo elenco nos anos 80 – no belo musical infantil “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” – juntou-se Leopoldo Pacheco, parceiro de Neves e Poggetti no grupo “Os Fofos Encenam”, e Dani Barros, atriz versátil que já havia trabalhado com o diretor, João Fonseca. Lilia conta que seu relacionamento com Fernando e Silvia sempre foi de muito humor, de palhaçada mesmo, na vida, nas brincadeiras, e foi esse o espírito que Newton Moreno buscou, trazendo um pouco do circo ao teatro.

Rir até chorar

Esse time de amigos/comediantes era um bom começo, mas muito do mérito do espetáculo cabe ao jovem diretor João Fonseca, que, de forma hábil e sensível, criou uma encenação extremamente feliz, em que todos os atores se divertem em momentos impagáveis de humor e lirismo. O público ri tanto que chega a perder algumas frases enquanto toma fôlego.

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Lilia Cabral e Fernando Neves em cena
"Maria do Caritó" passa longe da vulgaridade e do humor grosseiro. O bom gosto da encenação está nos figurinos, no cenário, na iluminação, no trabalho corporal, nas atuações. Espetáculo deliciosamente popular, sim, mas de muito bom gosto. E Lilia Cabral consegue conduzir o público de momentos hilários para outros mais sensíveis, emocionantes até, de maneira sutil e delicada.

O grande momento da Virgem Maria

A peça conta a história de Maria, nordestina, virgem, cuja castidade foi prometida para um tal São Djalminha no nascimento. Agora, aos 49 anos, ela reza e faz promessa pra Santo Antônio para conseguir marido, enquanto seu pai (Neves) mantem vigília constante para assegurar a promessa feita ao santo no momento em que Maria veio ao mundo, num parto difícil em que perdeu a mãe. A cidade acredita que Maria seja uma santinha milagreira, mas tudo o que ela quer é arranjar um marido com urgência, se possível antes dos 50.

A cena em que Maria faz uma audição para entrar no circo mostra, a quem tem memória curta, a comediante única que Lilia é. Cantando um pout-pourri absurdo (de músicas escolhidas pela própria atriz), ela deixa a dona do circo (Poggetti) e o Galã Russo (Pacheco) sem fala, e a plateia chorando de rir.

Quando a santinha é chamada para dar um jeito numa galinha que não bota ovos, Dani Barros, interpretando a galinha, tem uma performance tão inacreditável que no dia seguinte você segue rindo e tentando entender o que foi que ela fez.

São tantos cenas, tantas frases engraçadas, tantas interpretações deliciosas, que é impossível citar tudo. Só nos resta esperar que, como aconteceu com “O Divã”, “Maria do Caritó” vire filme, e depois série de TV. Enquanto isso não acontece, o jeito é voltar ao teatro e se encantar novamente com esse espetáculo imperdível.

Serviço – "Maria do Caritó" no Rio de Janeiro
Até 19 de dezembro de 2010
Teatro dos Quatro
Quinta a sábado, às 21h30 e domingo, às 20h
Ingressos: R$ 60 (quinta), R$ 70 (sexta), R$ 80 (sábado e domingo)
Informações: (21) 2274-9895

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