Marco Nanini, em paz com Lineu, interpreta menina de 15 anos em teatro

Ator comemora 45 anos de carreira com novo espetáculo, "Pterodátilos", no Rio

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

“Mãe, preciso conversar com você”. “Não tenho tempo para você neste ano, querida”. É com diálogos rápidos, repletos de humor, que Marco Nanini e elenco encenam a peça “Pterodátilos”, no teatro das Artes, no Rio.

Em cena, a desconstrução de uma família de elite, que não consegue se comunicar entre si, perdida no meio do alcoolismo, vaidades e aparências. Enquanto a trama se desenrola, o piso do palco vai sendo desmontado, como uma metáfora para esta deterioração do ambiente. Tudo pontuado por críticas ferozes ao consumo exacerbado e sem limites que domina, muitas vezes, a vida dos mais abastados.

“Eu nem sei o que é uma vida assim, com um tipo de luxo que se reflete em compra de aviões e barcos. É um mundo à parte da minha realidade”, diz Nanini, que interpreta dois personagens no palco: a menina de 15 anos, em crise com a mãe; e o pai de família totalmente absorto em meio ao caos familiar.

Ele vai do terno preto ao vestido de noiva cheio de rendas em alguns minutos. “Este ‘liga e desliga’ é técnica. Você tira um personagem de dentro de você e deixa o outro entrar, sem causar confusão”, explica o ator, chegando aos 45 anos de carreira proprietário de um espaço, no centro da cidade, para servir de laboratório teatral de sua produtora.

Nanini conversou com iG durante um dos ensaios da peça. E falou, entre outras coisas, também da amizade – sim, amizade - que estabeleceu com Lineu, personagem que interpreta na série “A Grande Família” desde 2001. “Ele não é careta, é meu amigo”, defende.

Léo Ramos
Apesar da temática da peça, Nanini não critica o estilo da elite brasileira

iG: Na peça, você interpreta um homem que vê a família se deteriorar aos poucos. Artur, seu personagem, assiste a tudo acomodado ou não sabe como agir?
NANINI
: As duas coisas. Ele não tem ação nenhuma, apesar de observar tudo de perto. O cenário se destrói como uma metáfora, porque a família vai se destruindo junto... A família da peça está em processo de desintegração. O pai perde o emprego, a filha tem conflitos com a mãe, a mãe vive cercada pelo luxo. Tudo isso é contado com humor, apesar de se tratar de uma tragédia familiar.

iG: É um retrato das famílias que compõem a elite brasileira?
NANINI
: Não exatamente um retrato da família brasileira, mas do vício do consumo que tem em tudo que é lugar. É uma família sendo destruída pelos símbolos e ícones da sociedade do consumo, incluindo aí alcoolismo, vaidade, aparências, status social. Eles vão perdendo a comunicação entre eles próprios.

iG: A falta de comunicação é um motivo ou uma consequência dessa desintegração familiar?
NANINI
: É um dos motivos. A falta de comunicação é paradoxal porque, agora que temos tantos meios de nos comunicar, ainda permeia as relações de conflito entre os seres humanos. A peça pontua bem este aspecto. Tratamos do tipo de pessoa consumista que compra coisas de valor muito simbólico, apenas para se exibir.

iG: Como é o seu lado consumista?
NANINI
: Não sou consumista neste sentido, não exatamente. Também não sou um crítico à sociedade que age dessa forma. Não me vejo atraído por grifes. Sou comodista. Se tiver que me preocupar com o visual, prefiro nem sair de casa. Às vezes tenho até que me policiar, para não sair de qualquer maneira. Sou mais do conforto do que da elegância, embora uma coisa não esteja, necessariamente, dissociada da outra.

iG: Qual foi a compra mais cara que fez nos últimos tempos?
NANINI
: Comprei um casarão no bairro da Gamboa ( Centro do Rio ). Fizemos esta peça no “ Galpão Gamboa ”, neste espaço que montei lá. Montamos luz, cenário, figurino... Tudo que está aqui já esteve lá, foi como um tubo de ensaio, laboratório de pesquisa, sem precisar nos adaptarmos ao horário do teatro. Convidamos pessoas da região para verem a peça de graça. É bem interessante.

iG: Atualmente, a imagem do ator está bastante atrelada ao consumo, sendo normal que sua imagem seja usada para vender produtos. Neste sentido, o ator é parte culpada da sociedade do consumo?
NANINI
: As atenções em geral estão voltadas para o consumo. As etiquetas das roupas são como identidades. Mas não saberia dizer se as celebridades precisam ser culpadas por isso, ou se elas fazem parte do processo, devido a este interesse geral pelo consumo.

iG: Pesquisas indicam que as classes C e D estão consumindo mais. Isso aprofunda estes dilemas?
NANINI
: Vejo pelo lado positivo, porque estas classes estão tendo acesso ao que nunca tiveram. Eles podem querer uma roupa melhorzinha... Não há pecado nisso. Vejo problema quando isso vira doença. A classe C está tendo um bônus, além de se preocupar mais com a educação dos filhos, pode ir aos shopping fazer compras.

iG: Além do pai de família, você também interpreta Emma, uma adolescente de 15 anos. Como compor dois personagens bem distintos em um só texto?
NANINI
: Isso me exige uma concentração muito grande. Se me desconcentrar, já era. Não tem peruca, maquiagem, nada disso. Só uma saia ou um vestido de noiva. O jogo cênico é uma coisa bem sutil. Este ‘liga e desliga’ é técnica. Você tira um personagem de dentro de você e deixa o outro entrar, sem causar confusão.

iG: A peça marca seus 45 anos de carreira. Ainda que acumule esta experiência, há momentos nos quais se arrepende de encarar um trabalho?
NANINI
: Vou te falar uma coisa, mesmo que a coisa não dê certo, não me arrependo. Porque foi uma decisão minha fazê-la. Em 1979, tomei a decisão de passar a produzir meus espetáculos, para não ter que esperar por convites. Lá atrás, eu já tomei a decisão de ser dono do que eu faço. Desde então, percebo que nem sempre é possível que tudo dê certo, mas é um risco que você precisa tomar.

iG: Mas e com a TV? Também tem poder de dizer ‘não’?
NANINI
: Comecei a ter uma vida mais confortável na televisão, quando entendi melhor o veículo. Ela me apavorava muito no começo, aquela câmera me filmando o tempo todo... Me sentia acuado, tímido. Tinha medo, suava frio vendo aquele olho eletrônico me acompanhar em cada gesto. Talvez porque eu tenha formação teatral. Só me senti mais à vontade depois de trabalhar mais com Guel Arraes, quando passei a entender melhor a função de cada coisa, entender os enquadramentos. Passei a ficar mais livre quando vi que aquela câmera perto de mim não me faria mal algum ( risos ).

Léo Ramos
Nanini, protagonista de "Pterodátilos"
iG: Você não faz novelas há 11 anos (o último trabalho foi “Andando nas Nuvens”, 1999). Por quê?
NANINI
: Não tenho preconceito algum em fazer novela, desde que eu goste do diretor, goste do papel. Mas não posso fazer atualmente, porque estou em “A Grande Família” ( no qual interpreta o pai de família Lineu ), que virou este sucesso absoluto.

iG: Concorda que Lineu é o personagem mais careta da TV brasileira?
NANINI
: ( risos ) Gosto tanto do Lineu, que não o acho careta, mas comportado. Fico até arrependido de taxá-lo assim, porque Lineu é meu amigo. Um dos episódios do programa que eu mais gosto é o “Um tapinha não dói”, no qual Lineu come um pedaço de bolo de maconha e fica doidão sem saber. Isso mostra a dosagem de loucura dentro dele.

iG: Você já comentou que tem receio de se ver como Lineu no espelho. Como é isso?
NANINI
: Tudo por causa de uma tinta de cabelo. Inventei uma história com uma técnica nova de maquiagem, um motorzinho que substitui a esponja. Passei a usar o motorzinho também no cabelo, o que ficou horrível. Tive alergia no couro cabeludo, o que me deu coceira por três dias. Como tinha que continuar a fazer o Lineu, a cada duas semanas precisava manter a tintura. Quando parava para escovar os dentes, implicava por acordar com aquela cor de cabelo, aquela cara de Lineu.

iG: Como fez as “pazes” com Lineu?
NANINI
: ( risos ) Entrei de férias e descobri uma mousse para passar no cabelo. Falei com a maquiadora do estúdio e ela me devolveu minha imagem normal, sem precisar ficar com o Lineu o tempo todo.


SERVIÇO :
Peça “Pterodátilos”
Teatro das Artes - Rua Marquês de São Vicente, 52, Shopping da Gávea, Rio
Tel. 21 2540-6004
Sextas e sábados, às 21h; domingo, às 20h
Preço: de R$ 60 e R$ 90
Até 31/10

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