Lucélia Santos volta aos palcos em peça dirigida pelo filho

"Alguém Acaba de Morrer Lá Fora" estreia neste sábado no Sesc Belenzinho, em São Paulo

AE |

Divulgação
Cena de "Alguém Acaba de Morrer Lá Fora"
Lucélia Santos retorna ao teatro cercada por "meninos" de menos de 30 anos. Para dirigi-la em "Alguém Acaba de Morrer Lá Fora", a atriz chamou o filho Pedro Neschling, de 29 anos. Já na hora de eleger o texto, ela também preferiu distanciar-se dos autores de sua geração. Escolheu a obra de um novíssimo dramaturgo, Jô Bilac, 28. "Esse texto é um dos primeiros do Jô. Eu vinha acompanhando sua fama, seu sucesso nas montagens aqui no Rio, e o procurei", conta a atriz. "Então, ele me falou desse texto. Eu li, gostei e resolvi montá-lo. A sugestão do nome do Pedro Neschling partiu do próprio Jô. E eu adorei."

Com estreia marcada para este sábado (12), no Sesc Belenzinho, "Alguém Acaba de Morrer Lá Fora" é mais uma peça do jovem autor carioca a aportar em São Paulo. Escrita em 2006, a obra já sinalizava os traços que viriam a despertar a atenção em suas obras posteriores. Assim como nas reverenciadas "Cachorro!" e "Rebu", Bilac confirma nesta criação seu pendor para o humor, a filiação com a tragicidade de Nelson Rodrigues, o olhar para o absurdo da existência filtrado por figuras passionais, ordinárias.

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Em um café, entram três personagens, tipos estranhos e distintos. "Em comum, eles têm a carência afetiva, o vazio, a superficialidade", observa Lucélia. Nenhum deles se conhece, apenas se sentam em suas mesas enquanto aguardam pela chegada de outras pessoas. A espera é permeada pelas intervenções de um garçom insolente, Dodô. Figura debochada e amarga, que torna a espera dos fregueses ainda mais penosa. O tom não poderia ser mais prosaico. Precisamente porque é de certa ausência de sentido que trata a peça.

George Magaraia
Lucélia Santos
Ninguém diz nada que realmente tenha algum significado."Estou fazendo uma brincadeira com os discursos. Tentando mostrar como estamos sempre repetindo as mesmas coisas", diz Jô Bilac. "Existe esse vazio de um para o outro, essa fragilidade na comunicação."

Claudio (Ricardo Santos) carrega uma rosa vermelha na mão. Espera ser reconhecido por uma mulher com a qual marcou um encontro às cegas. Mais adiante está Marcela (Vitória Frate), uma professora de inglês desgostosa com a vida sacrificada que leva, esforçando-se para ser simpática, aparentemente fútil. Excêntrica, Laura (Lucélia Santos) destoa um tanto do conjunto. Carrega uma aura trágica, certo ar de superioridade, uma tentativa quase desesperada de ser aquilo que não é. Verborrágica, entoa diálogos que também parecem soar dissonantes. "Eu trago uma tempestade na cabeça e meu espírito está prestes a chover", ela dispara. Enquanto os outros tratam de discorrer sobre amenidades, como um sabor de refrigerante.

Na tentativa de encontrar um subtexto dentro desse cenário de aparente superficialidade, o autor contrabalança o viés da comicidade com personagens muito tristes, incapazes de falar sobre o que verdadeiramente sentem ou anseiam.

Esse vácuo aparece em um jogo com as palavras criado pelo dramaturgo. Depois de envolver o espectador, Jô Bilac põe-se a embaralhar histórias. Movimenta um mesmo fato - a morte de alguém - sob o olhar de cada um dos personagens. "Queria mostrar versões de uma mesma história, diferentes perspectivas." Será esse o mote para uma brincadeira com os discursos que repetimos incessantemente. Veremos as mesmas frases trocarem de boca. Aparecerem em outros contextos. Mas todas elas continuarão a soar apenas como uma tentativa de ocupar o vazio. 

SERVIÇO
Alguém Acaba de Morrer Lá Fora
Sesc Belenzinho (Rua Padre Adelino, 1.000)
Sexta e sábado, às 21h, domingo, às 18h
R$ 32
De 12/11 até 11/12

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