Zumbis ganham enciclopédia cinematográfica

Autor de "Zumbi: O Livro dos Mortos" conversa com o iG e define criaturas como "monstros niilistas"

Guss de Lucca, iG São Paulo |

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Jamie Russel, autor de "Zumbis: O Livro dos Mortos", sendo atacado por um morto vivo na Inglaterra
Enquanto vampiros, lobisomens e bruxos conquistam fãs pelo mundo com histórias recheadas de dilemas existenciais e sensualidade, os zumbis, criaturas consideradas por muitos como parte da casta inferior dos filmes de horror, seguem arrastando suas pernas em busca de reconhecimento e espaço na mídia.

Defensor das criaturas que devoram cérebros, o escritor britânico Jamie Russel, autor de "Zumbis: O Livro dos Mortos", conversou com o iG sobre a influência dos monstros em sua vida, a maneira como eles voltaram aos holofotes na última década e o motivo que o levou a escrever a obra.

iG: Quantos anos você tinha na primeira vez em que viu um zumbi e como essa experiência mexeu com você?
Jamie Russel: Eu tinha uns 15 anos quando vi algumas cenas de "Despertar dos Mortos" na televisão, aqui no Reino Unido. Ele abriu minha mente e a partir daquele momento me propus a assistir a todos os filmes de zumbis que pudesse encontrar. Até então eu nunca tinha ouvido falar neles. Mas assistir àquelas cenas realmente me perturbou. Era algo sobre a ideia do apocalipse, sobre um mundo onde os mortos voltavam à vida, que me intrigou naquela história. Achei realmente preocupante.
Cresci em Londres, na década de 1980, período em que surgiram os primeiros videocassetes. Minha família não tinha o aparelho porque minha mãe estava convencida que ele havia sido criado pelo demônio e que eu iria reprovar em todos os meus exames se tivéssemos um. Mas na escola as crianças me contavam histórias sobre os filmes nojentos que haviam assistido: "O Massacre da Serra Elétrica", "A Noite dos Mortos Vivos", "Halloween - A Noite do Terror", "O Exorcista", "A Hora do Pesadelo"...

Na época, o governo liderado por Margaret Thatcher [primeira-ministra do Reino Unido] se preocupou com esses filmes violentos e começou a proibi-los. Foi um período estranho. Os jornais começaram a assustar os pais falando sobre os filmes que transformavam crianças em serial killers.

Para mim, ouvir as histórias dos meus amigos sobre os filmes que eles tinham visto era assustador, mas ao mesmo tempo fascinante. A primeira vez que me contaram o fim de "Halloween" - em que Michael Myers volta à vida - eu tive pesadelos durante semanas. O mesmo aconteceu com as histórias sobre Freddy e Jason [os assassinos de "A Hora do Pesadelo" e "Sexta-Feira 13"]. Eu nunca tinha visto os filmes, mas estava tendo pesadelos!

iG: E nenhum dos seus amigos havia visto nenhum filme com zumbis?
Jamie Russel: Naquela época ninguém nunca falou sobre zumbis, o que, pensando agora, é estranho. Mas foram essas primeiras experiências na escola que me transformaram em fã de horror, mesmo antes de ter visto um filme do gênero. Quando me tornei adolescente, eu queria assistir a todos os filmes que eu tinha ouvido falar. Por isso convenci minha mãe a comprar um videocassete depois que passei nos exames.

iG: Como surgiu a ideia de escrever "Zumbis: O Livro dos Mortos"?
Jamie Russel: Esse era um livro que eu gostaria de ler. Eu comecei a me perguntar sobre o fascínio que tinha por zumbis e por que eles tinham tanto poder sobre a minha imaginação. Mas quando eu fui à livraria, não consegui encontrar nenhum livro sobre o assunto. Então resolvi escrever um.

iG: E você esperava que o livro fosse um sucesso?
Jamie Russel: No começo nós pensamos que venderíamos apenas algumas cópias. Mas no momento em que o livro saiu, zumbis se tornaram um fenômeno cultural novamente - não foi muito tempo depois do lançamento do filme "Resident Evil: O Hóspede Maldito". Até mesmo George Romero voltou ao gênero com "Terra dos Mortos", em 2005. Nossa expectativa era vender talvez mil cópias no Reino Unido. Em vez disso, "Zumbi: O Livro dos Mortos" vendeu cerca de 20 vezes esse número ao redor do mundo. Foi uma coisa incrível de ver e estou muito feliz em saber que o livro está agora no Brasil.

iG: No livro, você se preocupa em contar a história do mito dos zumbis e da origem haitiana, Hoje eles se distanciaram dessa origem?
Jamie Russel: Sim, definitivamente. Se os zumbis ainda fossem vistos apenas como escravos haitianos, o gênero teria morrido há muito tempo. Em vez disso, esses monstros foram reinventados pelos produtores de cinema dos Estados Unidos - eles saíram do Haiti, invadiram o imaginário americano e, depois, o resto do mundo. O que eu gosto nos zumbis é que eles são monstros muito versáteis. Eles significam coisas diferentes para diferentes culturas, podendo servir de metáforas para o colapso social, a morte, a vida após a morte, os trabalhadores capitalistas se revoltando contra o sistema, a AIDS e até o racismo.

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Ao contrário de vampiros e lobisomens, os zumbis são monstros versáteis com muitos significados distintos
iG: Você imagina os zumbis atingindo o público da mesma maneira que vampiros, lobisomens e bruxos?
Jamie Russel: Acho que os zumbis já fizeram isso em diversas mídias, como nas histórias em quadrinhos, com "The Walking Dead", nos jogos de videogame, com "Resident Evil" ou "Left 4 Dead", e em livros, como "World War Z". O problema dos zumbis é que eles nunca são as estrelas. Eles não são "sexy" ou "mainstream" como os personagens de "Crepúsculo" ou de "Harry Potter". Eles são criaturas subversivas e fazem parte de um gênero que se orgulha da luta contra o sistema. Falar de zumbis é falar de virar o mundo de cabeça para baixo. Eles são monstros niilistas - perfeitos para adolescentes, mas não o suficiente para serem aclamados pela mídia. Se zumbis fossem um gênero musical, eles seriam o gótico, o emo ou o heavy metal - mas definitivamente não a música pop.

iG: Você acha que o cineasta George Romero é a autoridade máxima quando o assunto é zumbi?
Jamie Russel: Claro! George Romero é o cineasta que inventou o filme de zumbi moderno. "A Noite dos Mortos Vivos" é como o "Cidadão Kane" dos filmes de zumbi. Antes dele os zumbis eram apenas monstros bobos que vinham do Haiti e trabalhavam para o Bela Lugosi [ator romeno famoso por seus filmes como Drácula]. Romero transformou-os em uma criação completamente moderna. Ele se livrou da temática racial e falou sobre o fim do capitalismo, o colapso da sociedade ocidental e a "morte de Deus". E foi ele também quem inventou a ideia do "apocalipse zumbi", onde todo o mundo é invadido e infectado por uma doença que faz com que o morto volte à "vida". Antes os filmes de zumbis tinham apenas um ou dois monstros. Romero transformou-os em uma massa de mortos vivos. Ele fez tudo ficar um milhão de vezes mais assustador. Por isso seus filmes são os mais importantes da história do cinema zumbi.

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George Romero em ação: cineasta é considerado a autoridade máxima quando o assunto é zumbi no cinema
iG: O livro traz uma grande lista de filmes com zumbis. O quão trabalhoso foi reunir esse material?
Jamie Russel: Um dos maiores problemas foi encontrar um monte desses filmes, que em sua maioria são produções de baixo orçamento lançadas em vídeo nos anos 1980 e nunca mais vistas desde então. Quando estava escrevendo o livro, em 2002, era difícil encontrar vários desses filmes. Hoje a maioria foi relançada em DVD. Só eu sei o trabalho que foi achar "As Uvas da Morte", de Jean Rollin, por exemplo. Acabei comprando um monte de vídeos antigos no eBay - e, às vezes, tinha que confiar na minha memória para relembrar coisas que vi. A ironia é que como os zumbis voltaram a cultura pop, quase todos esses trabalhos estão disponíveis hoje.

iG: Qual é o filme mais absurdo que você já assistiu?
Jamie Russel: Filmes sobre zumbis estão cheios de absurdos, alguns deles de forma mais escancarada, outros nem tanto. Eu vi um monte de produções baratas, filmes caseiros com cenários de papelão e custos baixíssimos de produção. Eles eram bem absurdos. Outros filmes são absurdos de diferentes maneiras. "A Casa do Cemitério", de Lucio Fulci, é muito absurdo - mas de uma forma surrealista. Eu amo os filmes de Fulci porque ele é um maluco abençoado por momentos de genialidade absoluta.

iG: Quais filmes de zumbis um fã do gênero assistiria com os pais ou com a namorada?
Jamie Russel: Acho que "A Noite dos Mortos Vivos" pode ser uma boa pedida, porque está em preto e branco e é considerado um clássico - além de ser preservado na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos como um filme de interesse histórico. Você poderia dizer para sua namorada e seus pais que "este é o Cidadão Kane dos filmes de horror moderno". Se isso não funcionar, talvez seja melhor assistir ao desenho animado "Scooby Doo na Ilha dos Zumbis" ou algo assim. Minha mulher odeia zumbis. Ela sequer acha que eles são assustadores e nunca me perdoou por trazer os mortos-vivos para a nossa casa.

"Zumbis: O Livro dos Mortos"
Jamie Russel
Editora Barba Negra
R$ 39,90 (preço médio)

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