"Senti como se fosse o meu velório", diz Mutarelli sobre lançamento

Em entrevista ao iG, cartunista fala sobre sua volta aos quadrinhos, a rotina de trabalho e o ano que passou sem desenhar

Guss de Lucca, iG São Paulo |

"Não é nem uma coisa nem outra. Não saberia como classificá-lo". É dessa forma que o cartunista, escritor e ator Lourenço Mutarelli, 47, responde à primeira pergunta do iG sobre seu novo trabalho, o talvez livro, talvez história em quadrinhos "Quando Meu Pai se Encontrou com o ET Fazia um Dia Quente".

Lançada pelo Quadrinhos na Cia., selo especializado em gibis da editora Companhia das Letras, a história mostra um aposentado viúvo que, após desaparecer durante uma pescaria, retorna com o curioso relato envolvendo um ET.

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Capa de "Quando Meu Pai se Encontrou com o ET Fazia um Dia Quente", de Lourenço Mutarelli
O trabalho marca o retorno de Mutarelli aos quadrinhos após uma pausa de seis anos - sua última HQ foi "A Caixa de Areia ou Eu Era Dois em Meu Quintal", de 2005. Nesse período o autor dedicou-se às carreiras de escritor (lançando obras como "A Arte de Produzir Efeito Sem Causa", 2008, e "Nada Me Faltará", 2010) e ator (participou de "O Cheiro do Ralo", 2006, e "Natimorto" , 2011 - ambos baseados em romances homônimos de Mutarelli).

Em sua casa, na Vila Mariana, bairro de São Paulo, Mutarelli recebeu o iG para uma conversa.

iG: Como surgiu a ideia de "Quando Meu Pai se Encontrou com o ET Fazia um Dia Quente"?
Lourenço Mutarelli:
Surgiu de uma piada boba contada pelo [escritor] Marçal Aquino, que tinha um ET com a famosa frase "leve-me ao seu líder". Quando a Companhia das Letras me convidou para apresentar o projeto, eu tinha que levar um resumo. E acabou surgindo a partir dessa piada.

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Ideia de livro surgiu de uma piada contada pelo escritor Marçal Aquino, diz Lourenço Mutarelli
iG: Quanto tempo você demorou para concluir o projeto?
Lourenço Mutarelli:
Praticamente um ano. Comecei em março de 2010 e entreguei em maio de 2011. Nesse tempo eu passei a procurar informações sobre ETs em séries de TV, filmes, livros.

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iG: Foram quase sete meses entre a entrega do livro à editora e seu lançamento. Essa espera é angustiante?
Lourenço Mutarelli:
A espera não foi angustiante. E eu também não ajudei a agilizar o processo. Eu queria um tipo específico de papel, que é delicado. O editor quis trocar algumas imagens. O estranho para mim é que quando o livro finalmente é lançado, já estou com a cabeça em outro lugar.

A coisa acaba quando eu terminei. Não tenho nenhum livro meu. Quem tem é a minha mulher. E ela não me deixa saber onde eles estão porque eu dou. Já dei os dois exemplares que recebi de "Quando Meu Pai se Encontrou Com o ET Fazia um Dia Quente".

A espera no cinema é pior. Porque o livro você sabe como vai ser, não muda a ordem da história. No cinema, muda tudo e o tempo de espera é de dois anos. Você está lá, filmando, e depois nem vê a cena. Tem uma aflição angustiante. Só passa quando o filme sai. E aí você descobre como ele é.

iG: Você participou da produção dos filmes baseados em seus romances?
Lourenço Mutarelli:
Pude acompanhar a montagem de "O Cheiro do Ralo". Muitas cenas foram cortadas e em cada dia era um filme diferente. Em "Natimorto" a história era muito linear, não tinha muito como mudar.

iG: Você desenhava no período em que ficou afastado dos quadrinhos?
Lourenço Mutarelli:
Passei a desenhar para mim em cadernos de rascunhos. Tive o meu primeiro bloqueio criativo e só conseguia desenhar nos meus cadernos. Com isso criei um banco de dados ótimo de mais ou menos 30 Moleskines.

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Lourenço Mutarelli coberto por insetos em cena do filme "Natimorto", baseado em seu romance homônimo
iG: Esses cadernos serão publicados?
Lourenço Mutarelli:
Para mim eles sempre foram uma brincadeira que eu mostrava para poucos amigos. Mas acabaram gerando interesse e a editora Pop vai lançar cinco edições fac-símile desses Moleskines em 2012, provavelmente em março. Não tinha tanto apego por eles, agora eu tenho.

iG: Mas você ficou um ano sem desenhar nada, correto?
Lourenço Mutarelli:
Fiquei um ano sem desenhar. Queria experimentar. Desde que comecei a desenhar, ainda garoto, nunca havia parado. Quis saber se mudava alguma coisa. Mas não saiu nada de útil desse período.

iG: Você passou um período em Nova York para escrever um livro da série "Amores Expressos". Como está esse projeto?
Lourenço Mutarelli:
Eu escrevi o livro, mas a editora não gostou. Está previsto para 2012. Mas vai ser um novo romance, nem é a mesma história. Talvez mantenha o nome no novo livro. O bom é que agora tenho uma obra póstuma, para quando eu morrer (risos).

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Autoretrato do cartunista Lourenço Mutarelli
iG: Você tem uma rotina de trabalho?
Lourenço Mutarelli:
Sigo a mesma rotina há muitos anos. Quando eu era mais novo, trabalhava de madrugada, virava a noite. Agora acordo muito cedo e vou até a luz cair. Descobri que a manhã é tão tranquila quanto a noite. O telefone só começa a tocar às 10h. Se você deve pro banco, é às 9h.

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iG: E por quanto tempo você produz diariamente?
Lourenço Mutarelli:
Quando só escrevo, fico de quatro a cinco horas por dia. Quando desenho mais tempo, de oito a dez horas. Eu paro por alguns dias, mas a cabeça continua trabalhando.

Mas é bom deixar claro que nem tudo frutifica. Tem dias em que nada vai, fico sem trabalhar porque preciso resolver alguma coisa antes. Aí, quando volto, trabalho em dobro.

iG: Em "Quando Meu Pai se Encontrou com o ET Fazia um Dia Quente" você retrata o personagem principal como o escritor William Burroughs. Qual é a sua relação com a obra dele?
Lourenço Mutarelli:
Tem uma coisa experimental muito fascinante na vida dele. O livro de Nova York foi muito influenciado por isso. Ele tem alguns fetiches recorrentes, como drogas e enforcamentos. E eu também tenho os meus. A forma como ele pensa me interessa.

iG: O dramaturgo Mário Bortolotto também aparece como personagem. Não é a primeira vez que você usa um amigo como personagem, não?
Lourenço Mutarelli:
Começou com as histórias do Diomedes (detetive particular das HQs "O Dobro de Cinco", "O Rei do Ponto" e "A Soma de Tudo"). Tem vários amigos meus nos livros dele, mas não são pessoas conhecidas. Eu ligava e pedia fotos para eles, ou usava imagens que tinha em casa. No caso do Mário, ele estava muito presente na época em que fiz o livro novo.

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"Tem vários amigos meus nos livros do Diomedes, mas não são pessoas conhecidas", diz Lourenço Mutarelli
iG: Você pretende retomar o Diomedes algum dia, já que ele é o único de seus protagonistas de HQ que você não matou?
Lourenço Mutarelli:
Às vezes penso nele. Não sei se conseguiria voltar àquele universo. Era previsto para ele morrer, mas não consegui. Outro dia estava desenhando uma versão diferente dele nos meus cadernos.

iG: Como você enxerga a mudança do processo de criação da época dos fanzines para a internet?
Lourenço Mutarelli:
A época dos fanzines é a mais nostálgica. Essa coisa do livro pronto só tive com os fanzines que fiz com o [cartunista] Marcatti. A família toda reunida, grampeando, dobrando... O interessante é que na época existiam fazines que catalogavam fanzines. E a procura era absurda. O volume era tão grande que o Correio abriu uma das correspondências endereçadas ao "Over-12 " e viu que vinha dinheiro, o que não pode. Mas era bacana, o fanzine tinha uma vida.

iG: E a sua relação com a internet?
Lourenço Mutarelli:
Eu tinha um blog com o objetivo de postar alguns desenhos, mas me senti invadido. Era para ter um contato com o leitor, dividir ideias, imagens, e não divulgar lançamentos ou vender nada. Acho que queria mais uma sociedade secreta do que um blog.

iG: Você acha que hoje existe um reconhecimento maior da profissão de quadrinista?
Lourenço Mutarelli:
Acho que hoje lembra um pouco o estouro que os cartunistas tiveram nos anos 1980, com as revistas da Circo Editoral ("Chiclete com Banana", de Angeli, "Geraldão", de Glauco, e "Piratas do Tietê", de Laerte ). Fui num lançamento deles e era coisa de rockstar. Mas minha linha de HQ era mais discreta, marginal. Não era nem uma opção minha.

iG: Você gosta de fazer lançamentos de livros concorridos?
Lourenço Mutarelli:
Lembro do lançamento do livro "A Arte de Produzir Efeito Sem Causa", que foi na Livraria da Vila [em São Paulo]. Fiquei numa mesa enorme de madeira que o pessoal da editora encheu de flores. Eu senti como se fosse o meu velório. Não podia sair dali para fumar, todos me cumprimentavam...

iG: Quais são seus próximos trabalhos?
Lourenço Mutarelli:
Além do romance da série "Amores Expressos", vou ilustrar um livro infantil baseado em poemas do Glauco Mattoso. Atualmente também tenho trabalhado em algo experimental, quase inviável editorialmente. Fiz mais de 80 páginas, mas o projeto deve ter umas mil. Até agora ninguém comprou a ideia.

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