Scott Turow fala ao iG sobre o fascínio da literatura policial

Em entrevista, autor de "Acima de Qualquer Suspeita" conversa sobre o mundo do crime e as falhas do sistema judicial dos EUA

Guss de Lucca, iG São Paulo |

Consagrado em 1987 por "Acima de Qualquer Suspeita", o escritor norte-americano Scott Turow demorou 24 anos para escrever a sequência do best-seller, que em 1990 ganhou uma elogiada adaptação cinematográfica estrelada por Harrison Ford.

Batizado de "O Inocente" (Record, 434 pgs., R$ 39,90), o novo romance retoma a vida do ex-promotor Rusty Sabich, que agora, na posição de juiz, precisa enfrentar um antigo adversário nos tribunais. Seguindo os passos do primeiro livro, a nova obra também será adaptada ao cinema, com o ator Bill Pullman assumindo o papel do jurista.

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Para Scott Turow, fascínio da literatura policial vem de impulsos comuns às pessoas, como raiva e cobiça
Convidado oficial da Bienal Internacional do Rio de Janeiro , o autor, que também trabalha como advogado, conversou com o iG sobre o fascínio do público pela literatura policial e as falhas do sistema judicial dos Estados Unidos.

iG: As pessoas são educadas para evitar ao máximo o contato com qualquer coisa relacionada ao crime, inclusive a polícia e os tribunais. Se esse é o senso comum, por que o público é tão atraído pela literatura policial?
Scott Turow:
Os livros policiais mantêm o crime a certa distância do leitor – você não pode ser assaltado apenas lendo. E dessa distância as pessoas ficam fascinadas pela criminalidade, pois nela existem impulsos comuns a todos – raiva, ciúme, paixão, cobiça. As pessoas têm curiosidade em saber o que aconteceria se elas se entregassem a esses sentimentos. E no final algumas histórias terminam com o cara mau se safando, o que seria a mensagem errada.

iG: Qual a sua opinião sobre o sistema judicial norte-americano?
Scott Turow:
O sistema judicial está propenso a erros, além de ser excessivamente burocrático e muitas vezes injusto com os pobres. Mas não existem muitos exemplos de sistemas melhores pelo mundo. Na maioria dos casos eu descobri que nossos tribunais atingem o resultado certo. Não tanto quanto deveriam e nem tão eficientes.

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Harrison Ford como o promotor Rusty Sabich na adaptação de "Acima de Qualquer Suspeita"
O maior problema que temos é a desigualdade no acesso à Justiça. Os pobres enfrentam uma série de dificuldades para se queixar de problemas rotineiros, como senhorios ruins e vendas fraudulentas. E nos tribunais criminais, os defensores públicos estão sobrecarregados e muitas vezes são incapazes de fornecer o mesmo nível de defesa que clientes particulares recebem.

iG: O que você sabe sobre o sistema judicial brasileiro? Já acompanhou algum caso ocorrido no País?
Scott Turow:
Aprendi em minha última visita ao Brasil que vocês seguem o modelo europeu de leis civis e que, como nos EUA, vocês têm cortes estaduais e federais. Além disso, não tenho informações precisas. Tenho certeza de que casos brasileiros já chamaram minha atenção, mas nenhum que eu lembre no momento.

iG: A adaptação de "Acima de Qualquer Suspeita" fez muito sucesso nos anos 1980. O que você espera da versão cinematográfica de "O Inocente"?
Scott Turow:
Fiquei impressionado quando visitei o set. O diretor Mike Robe é um grande amigo meu e soube escrever um belo roteiro a partir do livro, escolhendo com precisão quais elementos deixar de fora – o que resume a essência de adaptar um livro para o cinema.

O projeto atraiu atores do primeiro escalão, como Bill Pullman, que interpreta Rusty, a vencedora do Oscar [por "Pollock"] Marcia Gay Harden, Alfred Molina e Richard Schiff. Alguns integrantes do elenco me disseram que acham que estão fazendo um filme melhor que "Acima de Qualquer Suspeita" – e isso foi dito com respeito pela adaptação anterior. Eles estabeleceram um padrão elevado para si mesmos.

iG: O público esperou 24 anos para ler a sequência de "Acima de Qualquer Suspeita". Você tem planos para escrever outra história protagonizada pelo personagem Rusty Sabich?
Scott Turow:
Preciso admitir que tenho muita afinidade e familiaridade com Rusty. Escrever sobre ele novamente foi uma experiência rica pra mim, como reencontrar um irmão. Não acredito que eu não volte a escrever sobre ele pelo menos mais uma vez.

SERVIÇO

Scott Turow em São Paulo (09/09)
Palestra e sessão de autógrafos
Horário: às 13h
Local: Teatro Folha
End.: Avenida Higienópolis, 618, 2º piso
Inscrições: eventofolha@grupofolha.com.br ou (11) 3224-3473

Scott Turow no Rio de Janeiro (11/09)
Sessão de autógrafos no estande do Grupo Editorial Record
Horário: às 17h
Local: XV Bienal do Livro do Rio
Endereço: Avenida Salvador Allende, 6.555, Barra da Tijuca

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